Lucky morreu envenenado na Ericeira. Há cada vez mais animais vítimas deste crime

Lucky morreu envenenado na Ericeira. Há cada vez mais animais vítimas deste crime
Grace e Lucky em momentos que não se repetirão.

Depois de Hera, Mia e Jude, que morreram envenenadas no início de junho em Almargem do Bispo, no concelho de Sintra (Portugal), mais um cão perdeu a vida da mesma forma – desta vez na Samarra, Ericeira. Chamava-se Lucky e tinha ainda muitos anos pela frente, que lhe foram roubados de forma criminosa.

Lucky, que fez dois anos a 10 de maio, era muito amado por Grace – que o adotou quando ele era ainda bebé, em 2021 – e pelo seu companheiro Paul. Era um cão muito querido na zona da Ericeira, onde quase todos o conheciam. Quando o viam, a maioria das pessoas dizia “que lindo”, pelo que esse era também um dos seus nomes, conta Grace à PiT. Mas, num repente, o mundo desta família feliz desabou.

Foi a 20 de junho, ao final da tarde, que Grace e Paul foram dar um passeio com Lucky, como já era habitual. “Decidimos fazer uma caminhada nas arribas junto à praia da Samarra. Estacionámos o carro e fomos a pé por uma estrada de terra até às arribas. Pouco depois, o Lucky empoleirou-se numa parede, com as patas da frente, a cheirar algo. Chamámo-lo, mas, como muitos cães fazem, ele decidiu seguir o seu nariz e agarrou a ‘coisa’ que estava a cheirar. Em menos de um segundo engoliu algo, mas, atendendo a que era uma coisa que fazia diariamente (comer cocó de gato, descobrir pássaros mortos), não ficámos a pensar muito nisso e continuámos a caminhada”, começa por contar a tutora de Lucky.

Os primeiros sinais de que Lucky não estava bem

Desceram por um trilho oficial para caminhadas, ficaram a desfrutar da vista das rochas e do oceano e depois voltaram a subir. “Conforme começámos a subir, reparámos que o Lucky estava um pouco mais lento do que era costume. Um segundo depois começámos a ver sair espuma da sua boca”, relata Grace.

“O Paul apercebeu-se de imediato que as coisas estavam más e associou ao que Lucky tinha engolido. E apesar de não termos conseguido ver o que ele tinha comido, sabíamos que eram más notícias. O Lucky desviou-se lentamente para a lateral da estrada de terra e começou a tossir um pouco – mas nem um minuto tinha passado e já estava a vomitar e a fazer diarreia. Depois de dar mais alguns passos, caiu. Repetiu-se o mesmo ciclo de vómitos e diarreia até cair de novo no chão”, explica a sua tutora, a quem custa ainda muito reviver tudo o que aconteceu – mas que o faz para poder alertar os restantes donos de cães daquela zona.

O seu companheiro tentou estimulá-lo e motivá-lo a andar um pouco mais, mas Lucky não conseguia. O carro ainda estava longe e era uma estrada péssima para se descer com uma viatura. Entretanto, tudo ia piorando. “O Lucky começou a tremer das pernas e dos músculos e, aos poucos, foi ficando paralisado. Sabíamos que tínhamos de agir rapidamente, por isso o Paul pegou nele ao colo. Mas, como era uma estrada muito acidentada e o Lucky pesava 40 quilos, vimos que não conseguíamos fazer todo o caminho assim até ao carro”, explica Grace.

A corrida até ao hospital veterinário

A angústia perante o sofrimento de Lucky aumentava. Paul decidiu ir a correr até ao local onde tinham estacionado o automóvel, enquanto Grace confortava o seu melhor amigo. “Nessa altura, ele já estava quase completamente paralisado. Nem sequer conseguia levantar a cabeça. A sua língua estava pendurada, havia espuma, e ele estava com dificuldades em respirar”, sublinha a sua tutora, que é holandesa e que vive em Portugal há cerca de dois anos.

“Mantive erguida a cabeça do Lucky e dei o meu melhor para o confortar. O Paul, entretanto, conseguiu chegar até nós com o carro e partimos velozmente para o Hospital Veterinário do Atlântico, em Mafra. Eu já tinha telefonado para lá a avisar que lá estaríamos em cerca de 20 minutos. Durante o percurso, fiquei no banco de trás com o Lucky, com a sua cabeça no meu colo. Ele estava a lutar o mais que podia, mas estava a ficar cada vez pior – e eu a tentar confortá-lo da melhor maneira que podia. Conseguia ver nos olhos dele que estava desesperado por ajuda e a sofrer muito. Sentia os seus músculos da cabeça como que a borbulharem, e as pernas tremiam”, conta Grace à PiT, numa descrição muito emotiva de todo este pesadelo, com tanto sofrimento físico para o seu querido cão.

Lucky manteve-se consciente até chegar ao hospital. Paul retirou-o do carro e correu para dentro, onde já era esperado pelo médico veterinário – que tomou logo conta dele. “Enxaguaram-no e conseguiram reverter um ataque cardíaco nos primeiros 30 minutos no hospital. Disseram-nos também que éramos o terceiro caso perto da praia da Samarra nesta época”.

No hospital conseguiram estabilizá-lo um pouco, mas perceberam que um dos seus rins já estava afetado. Ainda assim, o médico veterinário disse a Grace e Paul que ele tinha 60 por cento de hipóteses de conseguir sobreviver durante a noite. A esperança ficou no ar.

Lucky era uma doçura.
Lucky era uma doçura.

“Ele era um cão jovem, saudável, forte, muito inteligente e em forma. Nunca se queixou de nada, nem mesmo quando isto aconteceu. Tínhamos uma grande esperança de que ele se salvasse”, conta Grace. Mas, infelizmente, não foi possível. “No dia 21, às 4h41 da manhã, o meu telefone tocou. O Lucky tinha morrido. O seu sistema respiratório tinha falhado e não tinha conseguido sobreviver a um novo ataque cardíaco”.

Ainda é muito difícil – será sempre – para Grace falar sobre o assunto. “Foi a coisa mais horrível que alguma vez testemunhei. E aconteceu tão depressa… Desde ter comido a carne com veneno até começar a revelar sintomas passaram-se 15 minutos”.

Dois dias depois, mais carne com veneno no mesmo sítio

“Foi-nos dito que poderia ter sido um pedaço de carne, numa espécie de almôndega, mas não vimos nada. Aquilo de que o Paul se lembrava era que o isco estava escondido no buraco de uma parede de pedra, que é onde normalmente os caçadores deixam iscos para os predadores”, diz Grace. Dois dias mais tarde, à procura de respostas, regressaram ao local onde tudo tinha acontecido, apesar de lhes ser difícil reviver tudo. E o que encontraram foi… um novo isco.

“Inspecionámos a parede e encontrámos uma almôndega muito fresca”. Teria acabado de ser ali colocada. “A carne ainda estava vermelha, pelo que teria de ser sido posta ali há pouquíssimo tempo. Levámo-la connosco e fomos à GNR, em Sintra, para a entregar. Infelizmente, eles não puderam, ou não quiseram, ajudar”, lamenta Grace.

Apesar da falta de ajuda oficial, o casal está a fazer tudo o que pode para espalhar a palavra. “Estamos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para consciencializarmos as pessoas, para que este caso lhes chegue aos ouvidos e para que a história se espalhe. Mesmo que o isco fosse para predadores, isto não é legal. É algo por que nenhum animal deveria passar. É desumano e doloroso de se assistir. O Lucky tinha acabado de fazer dois anos”.

Lucky “era tudo para nós”

Grace fala do seu patudo com grande carinho e saudade. “Ele era tudo para nós e fazíamos tudo juntos. Como trabalhamos a partir de casa, ele podia passar o dia connosco, quer fosse no escritório ou no jardim, e acompanhava-nos nas caminhadas e nas férias. Levávamo-lo connosco ao café, nas saídas para jantar e até quando íamos surfar. Ele adorava nadar, subir às rochas, fazer caminhadas. Era também muito protetor da sua família e entretinha-se facilmente com os seus brinquedos e pauzinhos que encontrava no jardim”.

“Quando me mudei para Portugal, há cerca de dois anos, adotei-o ainda bebé, a 11 de julho de 2021. Ele cresceu na Ericeira e adorava socializar, tanto com pessoas como com outros cães. Sentia-se uma mascote. Toda a gente o conhecia e ele adorava ser um de nós. Apesar de já estar com dois anos, as pessoas ainda lhe diziam ‘oh, que lindo’ quando se aproximavam – e ele adorava toda essa atenção”, afirma Grace, desolada com a perda do seu amigo patudo.

Lucky não só gostava de receber atenção e amor como também gostava de o dar, aponta a sua dona. “Bastava alguém conhecido aparecer e ele começava logo a abanar-se e a dar à cauda, super empolgado para cumprimentar a pessoa. Ainda está tudo tão fresco na minha memória e tudo me parece tão irreal…”.

“Espero que, de alguma forma, ao reunirmos mais histórias sobre envenenamento e ao espalharmos a palavra, possamos consciencializar as pessoas para este perigo – e a minha esperança é que isso acabe por ativar as autoridades. Os cães são como membros da família. Ele sentia-se como meu filho e nós devíamos ter ter tido a oportunidade de desfrutar de uma vida livre em conjunto, sem termos medo de veneno, iscos e armadilhas, que tanto mal fazem aos animais”, diz Grace. “Ainda é tudo muito recente e doloroso. Todo este pesadelo continua a desenrolar-se na minha cabeça. Vê-lo a passar por aquilo e não ter conseguido ajudá-lo…”, remata a sua tutora, que agora vive de saudade e que tenta que as boas recordações sejam as que vão prevalecer.

Percorra a galeria para conhecer melhor o Lucky, que não devia ter sido vítima da normal curiosidade de um cão. Deixa muitas saudades.

Por Alexandra Ferreira

Fonte: Pit / mantida a grafia lusitana original

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