Macacos são vendidos ilegalmente na internet como bichos de estimação por até R$ 4 mil, e quem compra também comete crime

Macacos são vendidos ilegalmente na internet como bichos de estimação por até R$ 4 mil, e quem compra também comete crime
Filhotes de macacos são vendidos ilegalmente por R$ 4 mil na internet — Foto: Reprodução/TV Globo

Macacos são vendidos ilegalmente na internet para serem criados como bichos de estimação por até R$ 4 mil. Algumas espécies estão ameaçadas de extinção. O negócio ilegal movimenta muito dinheiro, mas quem compra também está cometendo crime ambiental.

VÍDEO: Macacos são vendidos ilegalmente na internet como bichos de estimação por até R$ 4 mil

A legenda de um vídeo que foi postado numa rede social com seis micos de cheiro diz: “Vem com as notas.” O anúncio significa que os filhotes estão à venda — um negócio ilegal, que tem movimentado muito dinheiro.

A produção do RJ2 trocou mensagens com o vendedor clandestino, que faz propaganda do negócio num grupo na internet com mais de 800 membros.

  • Produtor: Tá vendendo aqueles filhotinhos de macaco ainda?
  • Vendedor: Sim. Tem uns ainda.
  • Produtor: Tem quantos?
  • Vendedor: Então, quantos tu (sic) quiser. Eu consigo.
  • Produtor: Quatro mil?
  • Vendedor: Sim.

Cada filhote custa R$ 4 mil. Durante a conversa, o vendedor clandestino manda áudios dizendo que os animais estão na promoção.

  • Vendedor: Deixa eu te falar, tava R$ 4.500. Tava R$ 4.500, tá ligado? Desenrolando com o parceiro aqui e a melhor forma é esse preço aí, mano, que pô, mais barato pra achar é difícil. Aí, vou te mandar um vídeo aí. Só tô esperando o parceiro mandar aqui, eu vou ver aqui. Tem macaco prego, tem aquele mão-de-ouro e tem mico, tá ligado?

Ele cumpre o prometido.

  • Vendedor: Aí, macaco prego é esse maiorzinho aí. Mão de ouro é o mais bonitinho aí, dessa cor aí. E o outro é o mico.
    O macaco prego que aparece nas imagens usa roupa e até fraldinha. Já o de mão de ouro é chamado também de mico de cheiro. Em uma foto, as três espécies aparecem juntas.

O vendedor clandestino ainda dá uma dica de como criar o macaquinho.

  • Vendedor: O que tu ensinar (sic) pra ele, entendeu? Como se fosse uma criancinha mesmo, entendeu? É conforme tu vai tratando o bicho, conforme tu vai cuidando, do jeito que tu cuidar dele, entendeu?

O vendedor clandestino disse ainda que só revelaria onde os bichos estavam quando o pagamento fosse realizado.

Macacos são tratados como animais de estimação — Foto: Reprodução/TV Globo
Macacos são tratados como animais de estimação — Foto: Reprodução/TV Globo

Comércio ilegal

É crime vender, exportar, comprar, manter em cativeiro ou transportar animais silvestres. Somente criadouros legalizados podem fazer esse comércio. E, mesmo assim, apenas de algumas espécies.

É o caso do macaco prego. O único criadouro autorizado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) fica no interior de Santa Catarina. Os bichos saem de lá com microchip e podem custar até R$ 60 mil.

O problema é que, de acordo com o Ibama, traficantes de animais falsificam a documentação. E algumas pessoas compram sem saber da ilegalidade. Outras, compram mesmo sabendo se tratar de um crime.

Roched Seba, diretor do Instituto Vida Livre, que trabalha na reabilitação e soltura de animais em situação de risco, conhece bem essas histórias.

“Uma vez, a gente recebeu um animal que tinha um histórico de resgate e depois a gente viu que ele tinha vivido em cativeiro porque, quando a gente foi mexer, fazer os exames, ele não tinha as presas. E ele tinha um comportamento estereotipado, que ele segurava um ursinho de pelúcia e ele ficava assim o tempo inteiro. Ele só se mexia assim.”

Só o Ibama pode autorizar o comércio de animais — Foto: Reprodução/TV Globo
Só o Ibama pode autorizar o comércio de animais — Foto: Reprodução/TV Globo

Muitos animais chegam sem nenhuma condição de serem reabilitados.

“Ele foi para um santuário habilitado pelos órgãos públicos, credenciado pelo Inea. Mas ele é um animal que teve a liberdade, para sempre, suprimida.”

Seba diz que a legislação não leva em conta o grau de crueldade e não pune com rigor.

“A gente tem uma legislação que, infelizmente, trata os crimes contra a fauna, independente do grau de crueldade, do grau de morte envolvido nisso tudo, e a lei não pune quem comete esse tipo de crime, o criminoso é detido eventualmente, ou às vezes nem é detido, volta para casa e não acontece nada.”

No caso do mico de cheiro a situação é ainda pior, porque além do comércio ser totalmente proibido, a espécie da região amazônica está ameaçada de extinção.

‘Quando o animal está dentro da floresta, ele tem uma importância vital para o controle, para o equilíbrio e para a saúde daquele ambiente. Ali ele vai controlar as populações de mosquito, ele regula a dispersão de sementes, ele tem uma função ecológica naquele ambiente, que garante a nossa própria saúde.”

Além de crime ambiental, o especialista diz que animais silvestres podem transmitir doenças e que tirá-los do seu habitat é uma forma de escravizá-los.

“Qualquer macaco que você trouxer para dentro da sua casa, é um risco enorme. Você pode trazer para a sua família doenças como herpes, raiva, novas cepas de gripe. Você tirou ele (sic) da realidade dele. Você anulou a identidade dele para ficar te servindo de brinquedo. Isso não é amor.”

Comércio ilegal de animais movimenta a internet — Foto: Reprodução/TV Globo
Comércio ilegal de animais movimenta a internet — Foto: Reprodução/TV Globo

Por Bette Lucchese e Guilherme Santos

Fonte: g1

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