Mais de 2 mil tartarugas morrem em um ano no ES e redes de pesca ilegal são a principal causa

Mais de duas mil tartarugas já foram encontradas mortas nas praias do Espírito Santo desde setembro de 2017, e esse número aumenta a cada dia. Especialistas apontam que a principal causa dessa situação está na atividade de pesca irregular e predatória, com o uso de redes que deixam os animais presos e impossibilitados de subir à superfície para respirar.

Os números são do CTA Meio Ambiente, empresa que monitora as praias do Espírito Santo em um contrato firmado com a Petrobras desde 2017.

Uma lei municipal proíbe a pesca com qualquer tipo de rede na Baía de Vitória e nos canais de Vitória e Camburi, podendo gerar multa de R$ 700,00 a R$ 100 mil, processo por crime ambiental e prisão em flagrante. No entanto, os casos de redes que matam não param de crescer.

Para o presidente da Colônia de Pescadores Z2, em Vila Velha, Nivaldo Daré, quem usa redes proibidas por lei são pessoas que pescam esporadicamente. “Nós temos ciência da lei. Quem faz esse tipo de coisa não pode nem ser chamado de pescador. É gente vem à noite, larga a rede por lá e esquece onde deixou, matando os animais”, contou.

“Pescador de verdade não usa rede por aqui. As nossas são todas identificadas com o registro da Seag e da Pesca da Colônia”, reforçou.

Para ele, o problema seria resolvido com maior monitoramento: “A fiscalização tem que ser intensificada dia e noite. Como são poucas as pessoas que cometem esse crime, os fiscais têm que ficar o tempo inteiro lá para prender os responsáveis”.

Outra ação que diminuiria o problema, segundo Nivaldo, seria a sinalização. “Se tivessem placas dizendo que a área é proibida para a pesca, até quem não conhece as leis veria que não se pode armar rede naquela extensão”, ressaltou.

Animais mortos em Vitória — Foto: Divulgação/ Semmam
Animais mortos em Vitória — Foto: Divulgação/ Semmam

Falta educação ambiental

Lupércio Barbosa, diretor do Instituto Orca, ONG que existe desde 1992, acredita que o problema está na falta de conscientização. “É necessário maior consciência humana. Além disso, a população precisa cobrar do poder público maior proteção e fiscalização. Mas, falta informação e investimento em campanhas”, avaliou.

“A educação precisa acontecer desde a fase escolar. Se as pessoas soubessem que, ao comer camarão, por exemplo, elas matam toneladas de outras espécies, talvez elas diminuíssem o consumo ou comprassem de cativeiros”, ponderou Lupércio.

Para o fundador do Instituto Últimos Refúgios, Leonardo Merçon, o problema é sintomático: “As pessoas fazem isso há muito tempo e acham que não estão erradas. Falta conscientização e condição do povo para viver de outro jeito”.

“Nossa ONG trabalha exatamente nessa questão: a gente busca a conscientização ambiental através da educação. O objetivo é plantar uma sementinha na cabeça das crianças para que elas se lembrem no futuro”, completou Leonardo.

A coordenadora regional do Projeto Tamar no Espírito Santo, Ana Cláudia Marcondes, também fala sobre a importância do trabalho de educação.

“Há 40 anos nós trabalhamos com essa conscientização. No início, as comunidades consumiam os ovos das tartarugas, por exemplo. Nós trouxemos essas pessoas para trabalhar conosco, mostramos o impacto dessa ação e demos a elas alternativas de renda”, acentuou.

A bióloga e gestora do Centro de Visitantes do Tamar, Denise Reith, apontou que o trabalho de educação deve ser feito em conjunto com a fiscalização: “Além do monitoramento eficiente, precisamos de uma continuidade na sensibilização ambiental”.

Problema recorrente

Somente no mês de outubro, a Prefeitura de Vitória apreendeu 11 redes de espera – aquelas que ficam armadas em um mesmo lugar de um dia para o outro – na região. Na última terça, dois pescadores foram flagrados no canal principal da Estação Ecológica Ilha do Lameirão retirando uma rede ilegal de aproximadamente 300 metros, e foram autuados.

Nesta segunda (29), a Secretaria de Meio Ambiente recolheu duas tartarugas de espécies em extinção e quatro arraias mortas em uma rede na Baía das Tartarugas, em Vitória.

Tartaruga de espécie em extinção é morta por rede de pasca — Foto: Divulgação/ SEMMAM
Tartaruga de espécie em extinção é morta por rede de pasca — Foto: Divulgação/ SEMMAM

Ainda na capital, duas tartarugas marinhas, cinco arraias, peixes e caranguejos foram encontrados mortos presos a uma rede de pesca no último dia 14, nas proximidades da Ilha do Frade.

No início de outubro, uma jovem que estava remando na Curva da Jurema, em Vitória, encontrou uma tartaruga presa a uma rede e resgatou o animal, que foi levado para o Projeto Tamar.

VÍDEO: Remadora salva tartaruga presa em rede de pesca em Vitória

Em julho deste ano, guarda-vidas receberam uma denúncia sobre uma rede de pesca no fundo do mar na praia dos Cações, em Marataízes. A armadilha tinha prendido cinco tartarugas, que foram resgatadas vivas e devolvidas ao mar.

O que é feito

O superintendente do Ibama ES, Tarcísio Föeger, destacou que o monitoramento da prática ilegal é feita em conjunto com os municípios. “Somos um órgão federal, então nossa responsabilidade maior é com o alto mar. Mas, a gente acompanha as ações na costa também”.

Em Vitória, quem faz as fiscalizações é a Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semmam), em parceria com a Polícia Militar Ambiental, Polícia Federal e Capitania dos Portos.

Para diminuir o problema, o Ibama tem um Núcleo de Conscientização Ambiental, que conversa com pescadores e organiza oficinas. “Esses analistas ambientais atuam com ferramentas importantes para a construção de uma cidadania”, disse Föeger.

“Uma das últimas ações foi uma conversa com os pescadores sobre o uso de uma rede com um dispositivo de escape para as tartarugas. Ao arrastar, elas têm um meio para fugir da armadilha. Essas são formas de diminuir o impacto”, completou.

Além disso, o Ibama tem a Linha Verde, um canal de denúncias de danos ambientais. Qualquer pessoa pode entrar em contato pelo número 0800 61 8080.

Por Júlia Afonso, G1 ES (participa da 21ª edição do Curso de Residência em Jornalismo da Rede Gazeta e fez o texto supervisionada pela jornalista Juliana Borges.)

Fonte: G1

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