Malefícios do leite bovino para a saúde humana – Parte 1

Curso de Extensão

Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica

[Auditório do Centro de Ciências da Educação – UFSC – 07/06/13]

Sinopse da Quarta Sessão – Galactopoese – A natureza do leite

Na sessão anterior deste curso vimos o leite a partir de diferentes perspectivas, desde a composição dele em espécies distintas, com seus nutrientes equilibrados de modo singular para adequar-se à necessidade do desenvolvimento dos bebês e filhotes nos primeiros meses de vida extrauterina, até a composição artificial, carregada de resíduos de antibióticos e pesticidas presentes na ração e forragens, metais pesados presentes nas rações, forragens e água. Vimos também que a propaganda medicinal do leite está centrada na questão do cálcio e das proteínas, tidos como elementos essenciais e encontráveis apenas no leite animal. Esse mito tem sido alimentado ao redor do mundo pelos médicos que se submetem aos interesses do agronegócio, em vez de investigarem em seus pacientes o efeito da abolição do leite e dos laticínios de suas dietas.

Na presente sessão trataremos dos malefícios causados à saúde humana pela ingestão do leite bovino, tendo como referência os estudos dos médicos que há mais de quatro décadas curam seus pacientes das doenças mais graves tirando todas as moléculas de origem animal de suas dietas.

Malefícios do leite bovino para a saúde humana – Parte 1

Quinta Sessão – 07/06/13 – Auditório do Centro de Ciências da Educação – UFSC

Dr. phil. Sônia T. Felipe

O veterinário britânico Michael W. Fox, autor de mais de 40 livros sobre animais, bioética e preservação ambiental, afirma: “há um mito, alimentado pela Associação Americana de Laticínios, de que crianças e adultos devem tomar muito leite para obterem cálcio e terem ossos e dentes fortes. Na verdade, vegetais, tais quais brócolis e couves, oferecem bastante cálcio que as crianças podem absorver melhor do que o cálcio do leite de vaca. O alto teor de proteína do leite na verdade aumenta a perda de cálcio pela urina por interferir em sua absorção no trato digestório.” [Michael Fox, Apud Felipe, Galactolatria, p. 124].

As vacas suprem a necessidade de cálcio sem precisar ingerir leite, lembra Robert Cohen. Na dieta natural vegana, tanto dos humanos quanto das vacas, “há cálcio suficiente”. Ao contrário do que tem sido propagado, os países que incentivam as mulheres a ingerir uma grande quantidade de leite diariamente, na esperança de que não venham a sofrer de osteoporose, são exatamente os que apresentam a maior incidência de osteoporose e de artrite. [Robert Cohen, Apud Felipe, Galactolatria, p. 124]. Em alguns desses países, Dinamarca, Suécia, Suíça e Áustria, a genética predominante é caucasiana, com uma maioria de pessoas cujo organismo persiste na produção de lactase, uma percentagem inversa à dos afrodescendentes (com exceção de algumas tribos criadoras de gado), dos asiáticos, árabes, judeus, indígenas e mesmo italianos, portugueses e espanhóis.

Ainda que a genética caucasiana tenha evoluído para persistir na produção de lactase após o desmame, o consumo de leite não poupa os caucasianos das sequelas oriundas da má digestão dessa matéria bovina. Segundo Joseph Keon, somente nos Estados Unidos, de acordo com a Osteoporosis Foundation [Fundação de Osteoporose], 12 milhões de pessoas acima dos 50 anos sofrem de osteoporose e 40 milhões sofrem de osteopenia, uma diminuição suave da massa óssea, a “maioria sem o saber”. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 125]. Keon explica o processo de regeneração dos tecidos ósseos nos seguintes termos:

Nossos ossos são tecidos vivos. Eles são continuamente regenerados ao longo da vida por um processo denominado remodelação. Ele envolve dois tipos especiais de células: osteoclastos, as que desmancham e retiram a matéria óssea velha, e osteoblastos, cujo alvo é regenerar danos pequenos e reconstituir outra vez o osso através da secreção de colágeno, base da formação do osso, assim que o cálcio é integrado. Por volta dos 50 anos, a estrutura de nossos ossos já foi completamente reconstruída umas cinco vezes através desse processo de remodelação. Na osteoporose, a reabsorção dos ossos velhos é mais rápida do que a formação dos novos. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 125]

Estudos realizados por pesquisadores da Universidade de Harvard e do Whitaker Wellness Institute, da Austrália, demonstram que “não há garantia de melhor qualidade óssea com o consumo de leite e laticínios”. Entre esses estudos, há um, realizado por pesquisadores de Harvard, com 77.000 enfermeiras, e outro, que envolveu 39.563 homens. [Felipe, Galactolatria, p. 125]. Conclusões mais recentes nos estudos da osteoporose sugerem que “não é a quantidade consumida e sim a quantidade retida de cálcio que torna os ossos saudáveis.” [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 125]. Uma virada conceitual impensável há vinte anos atrás.

Estudando a qualidade dos ossos dos Inuit, cuja dieta se constitui de alimentos que garantem uma ingestão diária de 2.000 mg de cálcio (quase o dobro do que os americanos costumam indicar como desejável e quatro vezes mais do que o fazem a própria Organização Mundial da Saúde e o Canadá, que sugerem 500 mg diários), os cientistas registraram o mais alto índice de osteoporose entre todos os povos estudados até hoje. Isso corrobora a tese, ora acalentada pelos pesquisadores, de que o mais importante é assegurar que o cálcio se fixe nos ossos em vez de aumentar sua dosagem na dieta diária. Os Inuit expelem cálcio pela urina em vez de fixá-lo nos ossos [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 125]. Sua dieta é centrada na proteína de origem animal.

Desse modo, a sugestão de fazer reposição de cálcio, prática disseminada na medicina atual, também está perdendo sustentação. Estudos feitos com grupos de mulheres que agregaram cálcio à dieta mostram que a suplementação não impediu a perda de massa óssea. Em vez de beneficiar, a reposição do cálcio trouxe para boa parte delas outro problema: a anemia. A perda de ferro ocorreu em 45%, quando um suplemento de 500 mg de cálcio foi acrescentado à sua alimentação, e alcançou 62% das mulheres, quando lhes foi prescrita a dose de 300 mg e 600 mg. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 126].

Segundo John McDougall, em seu livro editado no final de 2012, The Starch Solution, uma das causas associadas à perda de massa óssea é a ingestão de proteína animal, pois essa ingestão está excedendo os limites toleráveis pelo organismo humano, também associada, nos estudos de Colin Campbell (The China Study,1995 e Whole: Rethinking the Science of Nutrition, 2013) ao desenvolvimento das células foci nos tumores cancerígenos. Dados de outra pesquisa apontam que há uma relação clara entre o consumo de proteína animal e a excreção de cálcio.

Segundo Keon, a National Academy of Science [Academia Nacional de Ciências] norte-americana, declara que, para cada 1 g de proteína digerida o corpo expele 1,5 mg de cálcio [Apud Felipe, Galactolatria, p. 126]. Keon é enfático ao tratar da questão. Em se tratando de um profissional da área da nutrição, especializado na dieta laticínia, é preciso dar atenção ao seu alerta:

Independentemente de quanto cálcio adicionemos, pela dieta ou suplementação, continuaremos a perder cálcio, a menos que reduzamos suficientemente o consumo de proteínas. […] Se dobrarmos o consumo de proteínas aumentaremos em 50% a perda de cálcio pela urina. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 126].

A questão não se resume, pois, à reposição do cálcio através de alimentos ou suplementos, mas em dar atenção aos outros alimentos que constituem a base da dieta diária. Keon explica de que modo perdemos cálcio, quando a dieta é baseada em proteína animal excessiva. Quando o organismo está muito acidificado, ele busca ajuda nos pulmões e nos rins, que, respectivamente, expelem ácidos voláteis e ácidos fixos. Mas “na ausência de elementos formadores do alcalino e devido ao envelhecimento dos rins o corpo pode sofrer uma sobrecarga”. A saída, nesse caso, é extrair o cálcio e outros minerais depositados nos ossos, “num esforço para bloquear a acidez”. Os ossos podem até aguentar isso, de vez em quando, sem “danos”. Mas se isso se repete cronicamente “levará à perda de massa óssea e ao enfraquecimento subsequente dos ossos”. No estado de acidose, continua Keon,

[…] as células formadoras de osso, os osteoblastos, são inibidas, enquanto a atividade de desmonte celular dos osteoclastos é fomentada. […] Uma das dietas mais produtoras de ácido que se pode adotar é a baixa em carboidratos, praticamente carente de frutas e vegetais e rica em carne, peixe, laticínios e ovos. Por concepção, ela é deficiente em alimentos verdadeiramente importantes para a saúde óssea e centrada nos mais prejudiciais a ela. [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 127].

Quantos profissionais que cuidam da saúde, usando a alimentação como remédio, explicam isso a seus pacientes? Seriam os pacientes incapazes de compreender a explicação ou os profissionais que os orientam, a desprezá-la?

Segundo Keon, até bem pouco tempo, pouco se sabia da vitamina K, além de seu papel na coagulação do sangue. Ela é fundamental para a formação de uma substância não colágena, a osteocalcina, encontrada na matriz óssea, cuja função é “regularizar a mineralização do osso.” Alguns estudos mostram um “número maior de fraturas ósseas em mulheres com baixos níveis de vitamina K” [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 127]. Em vez de sugerir que aumentem a ingestão de laticínios, melhor seria os profissionais da saúde requererem exames para medir os níveis da vitamina K e de osteocalcina no organismo das pacientes, e orientarem-nas na busca das fontes vegetais ricas nessa vitamina: repolho (2/3 xíc.), folhas de nabo (2 colheres de sopa cheias), brócolis (½ xícara), alface (1/5 pé), espinafre (½ xícara) e chá verde (1 xíc. por dia).[Cf. http://saude.hsw.uol.com.br/vitamina-k2.htm].

As espécies mamíferas têm em comum a necessidade de digestão saudável do leite para que os nutrientes possam ser devidamente assimilados. Essa digestão só pode ocorrer de modo eficiente se o leite mantiver suas próprias enzimas e for ingerido imediatamente após a sucção. Somente nesse caso, as enzimas naturais do leite mantêm-se. O aquecimento ou cozimento posterior à extração as desativa. Sem a atividade das enzimas, a ingestão do leite torna-se ineficiente, chegando a ser prejudicial à saúde, portanto, um mau deleite.

Se a quantidade de lactose na dieta é maior do que “a capacidade enzimática do intestino de quebrar suas moléculas”, explica Oski,

[…] ela segue assim para o intestino grosso sem ter sido digerida. Quando o alcança, duas coisas acontecem. Primeiro, a lactose é fermentada pelas bactérias que o habitam normalmente. A fermentação da lactose converte-se em gases, em dióxido de carbono e ácido lático. Por osmose, as moléculas de lactose também absorvem água do trato intestinal. Como resultado, mais gases e água se acumulam no cólon. Essa combinação produz a sensação de inchaço, borbulhas, liberação de gases pelo reto, e cólicas, podendo induzir a diarreias aquosas. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 133].

Pesquisas recentes revelam um número cada vez maior, antes silenciado, de pessoas sem condições de digerir a lactose. Essa informação já havia desde a década de 70 do século XX, mas não foi dada ao conhecimento público a não ser através de uns poucos médicos, conforme o fez o pediatra Oski há 37 anos.

Fatores metabólicos e bagagem genética contribuem para que algumas pessoas possam ingerir leite e derivados sem maiores distúrbios gástricos, quando adultas. No caso de a produção da enzima lactase não cessar completamente com o desmame, mesmo aos “trancos e barrancos” a parte do alimento que contém leite ou seus derivados pode ser digerida. Essa pseudofacilidade de digestão da lactose retarda a identificação dos desdobramentos negativos de sua ingestão.

Segundo Oski, alguns alimentos derivados do leite podem ser digeridos com a fermentação bacteriana produzida por outros alimentos ingeridos na mesma refeição. Iogurtes e queijos curtidos, por outro lado, são exemplos de laticínios parcialmente digeridos pela atividade bacteriana presente no processo de produção do laticínio não pasteurizado, que precede a digestão do alimento pelo organismo humano [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 133]. De qualquer modo, a fermentação bacteriana não elimina pesticidas, metais pesados, organoclorados, antibióticos, hormônios, gordura e tampouco as proteínas do leite.

Uma pesquisa realizada na década de 70 do século XX em oito cidades norte-americanas aponta a ingestão do leite bovino por bebês humanos como de alto risco. Bebês alimentados com leite de vaca tinham vinte vezes mais probabilidade de morrer até os seis meses de vida, comparados aos que não ingeriram esse leite no mesmo período [Apud Felipe, Galactolatria, p. 133].

Não há dúvidas quanto ao malefício do leite de vaca para os pequenos humanos. Isso leva Oski a afirmar: durante a infância, em nenhum momento se deve dar leite integral às crianças. Por outro lado, se as crianças forem alimentadas com o leite desnatado, elas podem sofrer deficiência de gordura e excesso de minerais, que não são eliminados do leite quando a gordura é extraída [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 133].

Por fim, o leite integral não deve integrar a dieta de qualquer indivíduo sensível a seus ingredientes, seja pelas reações alérgicas, pela intolerância à lactose, ou pela impossibilidade de deter a betacasomorfina-7 ou BCM7, que, segundo Woodford é um perigoso peptídeo liberado na digestão da betacaseína A1 [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 134], por “sua contribuição para a formação da aterosclerose e sua possível vinculação com outras doenças”, acrescenta Oski [Apud Felipe, Galactolatria, p. 134].

As vacas da espécie Bos taurus, conforme visto na primeira sessão deste curso, secretam o leite carregado de betacaseína A1, praticamente ausente nas vacas Bos indicus. Todo o rebanho europeu e americano de norte a sul é constituído de vacas Bos taurus. Isso quer dizer que o leite consumido na Europa e nas Américas está carregado da betacaseína A1, pelo visto a proteína mais danosa ao organismo humano.

Com certeza, galactomania e onivorismo não formam boa parceria para a saúde humana. Mas os gourmets, verdadeiros sacerdotes da galactocracia, não dão a menor importância a esses dados, ainda que percam muitos de seus clientes por infarto, diabetes, cânceres e acidentes vasculares cerebrais provocados por hipertensão.

Descartes, no século XVII, alertou para o fato de que somos enganados – e aqui tomo a liberdade de parodiar Jô Soares, somos esganados por nossos sentidos. Os hospitais estão abarrotados de pacientes esperando a cura para males originados de hábitos alimentares esganados e enganosos que, do ponto de vista hedonista, deram muito prazer a esses agora sequelados, por um prazo de validade que se esgota lentamente, para uns, e velozmente, para outros, ao fim do qual, todos pagam a fatura do esgano e engano gastronômicos.

Não é para menos que T. Colin Campbell escreveu, Forks over Knives (2011), que pode ser traduzido como, garfos em vez de facas, mas também como garfos em vez de bisturis. O cirurgião cardíaco brasileiro Dr. Alberto Peribanez Gonzalez também usa palavras para desenhar sua concepção do papel do médico. Seu livro intitula-se, Lugar de médico é na cozinha, para lembrar que o centro cirúrgico deveria ser buscado apenas numa emergência, por iminência da morte. Médico é para orientar os pacientes sobre o que comer, não é para ficar cortando fora pedaços do corpo dos pacientes que o procuraram por anos sem nunca terem ouvido na consulta o que poderia ter salvado a saúde dos tecidos e órgãos lesados pela alimentação padrão animalizada, imposta a todos ao redor do planeta.

Muito desse prazer, conforme o explicam Neal Barnard, Russell L. Blaylock e Carol Simmontacchi [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 136], deve-se ao fato de que o cérebro aferra-se a certos alimentos, quer dizer, vicia-se neles, porque eles contêm glicose e gordura e, no caso dos laticínios, também opioides. Entretanto, há modos mais saudáveis de oferecer ao cérebro esses alimentos que ele tanto aprecia: basta substituir o açúcar do leite (lactose), por frutas, grãos, cereais integrais e tubérculos, para citar apenas alguns alimentos ricos em açúcar. A gordura plena de colesterol do leite pode ser substituída por alimentos ricos em ácidos graxos essenciais e não essenciais: oleaginosas, sementes e leguminosas, para dar ao cérebro o que ele mais gosta de “comer”. Bem alimentado, o cérebro não precisa de opioides exógenos, pois estará produzindo os próprios, na medida certa, atendendo à demanda de cada desgaste ao longo de um dia. Não há opioide exógeno que possa fazer tão bem o trabalho para o qual o cérebro se especializou em cada indivíduo.

Mas se esses alimentos naturais variados e saudáveis, ricos em proteínas, açúcares e gorduras são misturados às proteínas de origem animal, o benefício das fontes vegetais se perde. Esganado, o comedor se engana e se empanturra de proteínas animais, maléficas para sua saúde e para a longevidade dos órgãos digestórios, pois eles têm que ceder suas enzimas para conseguir digerir e assimilar a carga proteica animal. A justificativa predileta de todos é a de que “precisamos de proteína e cálcio”. Precisamos, é fato, mas as proteínas e o cálcio de origem vegetal são melhores para a saúde e a longevidade humanas. Três livros editados recentemente nos Estados Unidos trazem as informações reunidas pelos médicos John A. McDougall (The Starch Solution, 2012), T. Collin Campbell e Caldwell B. Esselstyn Jr. (Forks over Knives: The Plant-based Way to Health, 2011) e T. Colin Campbell e Howard Jacobson (Whole: Rethinking the Science of Nutrition, 2013) sobre a superioridade da dieta vegana natural e integral em relação à dieta animalizada para a saúde humana.

Doenças e males associados ao consumo de leite bovino

O organismo humano, a exemplo do organismo de outros mamíferos, produz enzimas de acordo com a necessidade alimentar de cada período de desenvolvimento. A enzima necessária para a digestão eficiente da lactose, a lactase, não é uma exceção à regra. Na maioria dos humanos, por volta dos quatro anos de vida, o sistema digestório encerra a produção da lactase.

Uma vez desmamado, não há razão alguma para que um mamífero continue a produzir a lactase. A insistência na ingestão do leite após o período de amamentação ainda leva alguns organismos a continuarem essa produção. Mas isso ocorre em menos de 30% do total da população mundial. Caucasianos, nem todos, formam essa minoria persistente na produção da lactase. Na ponta oposta, com menos de 15% dos indivíduos, podendo chegar a menos de 5% deles, estão os outros povos de ascendência afro, árabe, judaica, asiática e nativos americanos, para citar aqueles onde é menor o número de pessoas dispondo da lactase após o desmame.

A dieta induz o organismo de poucos grupos humanos a continuar a digerir a lactose. Ela induz o que se conhece por “resistência à lactose” na maioria deles. Frans de Waal, o primatólogo mais conhecido do mundo, autor de inúmeros livros sobre a natureza de bonobos e chimpanzés, explica:

Nossos ancestrais se tornaram resistentes à lactose […] quando começaram a criar gado. Todo jovem mamífero é capaz de digerir leite, mas a enzima necessária a essa digestão desaparece, geralmente, após o desmame. Em humanos, isso ocorre depois dos quatro anos. Aqueles que não podem lidar com a lactose sofrem diarreia e vômitos quando tomam leite de vaca puro. Essa é a condição original de nossa espécie, típica da maioria dos adultos no mundo. Apenas os descendentes de criadores de gado, como os nórdicos e os pastores africanos dependentes do leite, são capazes de absorver a vitamina D e o cálcio do leite, uma mudança genética que remonta a dez mil anos, quando ovinos e bovinos foram domesticados pela primeira vez.[Waal, apud Felipe, Galactolatria, p. 159]

Considera-se digerida a lactose quando ocorre a separação das duas moléculas das quais ela é composta: a glicose e a galactose, tarefa realizada justamente pela lactase, cuja sede é na parte superior do intestino delgado, no jejuno. Na ausência da lactase a lactose chega ao intestino grosso sem ter sido digerida. Keon complementa: se não há lactase, “o açúcar do leite segue não digerido para o intestino grosso, onde é atacado por bactérias que o convertem em gás e ácido lático. Isso pode produzir cólicas abdominais agudas, gases, náusea, inchaço ou distensão abdominal e diarreia crônica.”[Cf. Felipe, Galactolatria, p. 160]. Esses são alguns dos sintomas conhecidos como intolerância à lactose.

A tolerância à lactose, quer dizer, a continuação da produção da enzima lactase mesmo quando cessa o período da amamentação, é transmitida geneticamente por um dos progenitores, ou por ambos [ Cf. Felipe, Galactolatria, p. 160]. Segundo Keon, os povos com os mais altos índices de intolerância à lactose são os africanos (bantos 90%, afroamericanos 70%, com exceção dos descendentes de algumas tribos que criam gado bovino na África), asiáticos (tailandeses 90%, filipinos 90%, japoneses 85%, taiwaneses 85%), gregos cipriotas (85%), esquimós da Groenlândia (80%), árabes (78%) e judeus ortodoxos ao redor do mundo (78%), peruanos (70%). Os descendentes de africanos apresentam o segundo nível mais alto de intolerância ao leite (75%). O alerta está dado: três, em cada quatro afroamericanos consumidores do leite, “podem sofrer inchaço abdominal, cólicas, gases intestinais, náuseas, diarreias e outros sintomas.” [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 160].

Segundo Woodford, enquanto “as alergias são tipicamente uma resposta às proteínas, a intolerância pode dever-se tanto às proteínas quanto a outros componentes alimentares”. As pessoas que sofrem de intolerância ao leite, ou a um dos seus componentes, experimentam “certamente inchaço e/ou diarreia. Em algumas, a constipação pode preceder episódios diarreicos.” [Apud Felipe, Galactolatria, nota 383].

Os indígenas ou nativos de quase todas as regiões do planeta que não tiveram contato com o leite de vaca nos milhares de anos de sua evolução também têm encerrado o ciclo de produção da lactase na metade da primeira infância, seguindo o padrão normal de desenvolvimento dos mamíferos. Excepcionalmente, os dinamarqueses estão entre os povos mais tolerantes à lactose (98% a toleram), seguidos pelos suíços e pelos brancos norte-americanos (92% a toleram), esclarece Oski [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 160].

Aos dados coletados até a década de 70 do século XX, apresentados por Oski, Joseph Keon acrescenta outros, atualizados na primeira década do século XXI, a saber: vietnamitas têm um índice de 100% de intolerância à lactose; nativos americanos, de 50%; franceses, de 32%; judeus residentes em Israel, de 58%; italianos do norte, de 50%; austríacos, de 20%. Com relação aos euro-americanos, o percentual de pessoas persistentes na produção da lactose caiu de 92% para 75%, seguindo a queda também entre os nórdicos, cujo número de persistentes na produção da lactose baixou de 98% nos anos 70 para 93% na primeira década do século XXI [Keon, apud Felipe, Galactolatria, p. 159-160].

Considerando os dados acima, podemos imaginar quão danosa pode ser a política de forçar bebês e crianças a tomarem leite bovino, em casa e na escola, sem levar em conta sua persistência, ou não, na produção de lactase. Os sintomas da intolerância à lactose podem ser leves ou agudos. De qualquer modo, com a mente atormentada por uma digestão que não deixa o sujeito em paz, é possível imaginar quantas crianças estão nas salas de aula sem as mínimas condições psicológicas para realizarem as tarefas necessárias ao aprendizado.

Oski descreve o que a medicina nomeou dor abdominal infantil recorrente, nos seguintes termos: “É geralmente vista em crianças em idade escolar; ocorre ao longo de meses seguidos; de modo geral, é pior pela manhã; e, em quase todos os casos, não há evidência de qualquer doença. Duas pesquisas realizadas com grupos de crianças com ‘dor abdominal infantil recorrente’, uma em Boston, outra em São Francisco, chegaram à mesma conclusão: quase um terço das crianças tinha seus sintomas por causa da intolerância à lactose. A solução foi simplesmente tirar o leite e os alimentos produzidos à base do leite da dieta, e ver os sinais de melhora.” [Apud Felipe, Galactolatria, nota 387].

Atraso escolar, repetência, fraqueza mental, anemia, desinteresse, diarreias, gases, inchaço abdominal, dor de cabeça, asma, muco escorrendo do nariz, baixo QI, diabetes Tipo 1, acne, cansaço, retardo no crescimento, distúrbios psicológicos e constipação intestinal são alguns dos sintomas galactogênicos apontados pelos médicos, nutricionistas e naturopatas que tratam da saúde humana sem empregar derivados do leite. “A diarreia”, explica Oski, “prejudica a capacidade do organismo da criança de reter os nutrientes da alimentação. Desde 1959, afirma Keon, “estava claro que o leite de vaca pode causar asma severa em crianças. Estima-se que pelo menos 30% das pessoas alérgicas ao leite de vaca desenvolvam sintomas de asma quando expostas a ele.” [Cf. Felipe, Galactolatria, nota 388]. Além disso, de acordo com Cohen, pesquisadores do Instituto de Endocrinologia Pediátrica de Sydney, na Austrália, revelaram que alimentar bebês com preparados instantâneos antes da idade de três meses aumenta o risco de eles virem a sofrer do diabetes infantil [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 161].

Somando-se aos problemas apontados acima, alterações produzidas no trato intestinal pela reação alérgica ao leite acabam por fazer com que o sangue seja liberado dos vasos para o intestino. Essa perda de plasma e de células vermelhas, explica Oski, leva a uma baixa nas proteínas do sangue e ao desenvolvimento da anemia. A perda de proteínas séricas, caso seja grande, resulta em inchaço no abdômen, nas mãos e nos pés. Segundo Keon, estimativas “conservadoras indicam que 15 a 20 por cento das crianças abaixo de dois anos de idade sofrem de anemia ferropriva, e muito disso pode ser causado por tal perda de sangue pela ingestão de leite de vaca.” Além desses males acima listados, adultos ainda podem sofrer de câncer de pulmão, ovário e próstata, associados à ingestão do leite, quando não o podem digerir com eficiência [Keon, Apud Felipe, Galactolatria, p. 161, ver notas].

Imaginemos, agora, uma escola com alto índice de crianças afrodescendentes, indígenas, árabes, judias ortodoxas, gregas, vietnamitas, japonesas e tailandesas, para citar apenas os povos que têm altíssimo índice de intolerância à lactose. Imaginemos que essas crianças, devido aos programas da merenda escolar estabelecidos pelos governantes que atendem prioritariamente aos interesses do agronegócio, sejam levadas a consumir leite ou alimentos feitos com leite e laticínios, todos os dias, além do que já comem em casa. De cada 100 dessas crianças, em média, 70 estarão sofrendo por causa da dieta laticínia, ainda que os pais, nutricionistas, merendeiras e professores não o saibam.

As professoras, por sua vez, se não descendem dos povos com índice elevado de persistência na produção da lactase, justamente o caso da maioria das brasileiras que não descendem de austríacos, dinamarqueses, suecos e suíços, também estarão sofrendo de desordens digestórias e das sequelas que elas representam na qualidade de seu humor, sua disposição mental e saúde em geral.

Mas, dado que a propaganda massiva do leite e derivados afeta também a autonomia psicológica dos educadores na mesma proporção em que afeta a das crianças e dos adolescentes, eles nem desconfiam que poderiam gozar de melhor disposição e saúde se abolissem de vez a ingestão de qualquer alimento feito com leite ou com derivados dele. As crianças não estão indo muito bem nas escolas, pois são obrigadas a comer laticínios lá e em casa. Na verdade, elas são “coagidas a beber um liquido jamais projetado para o consumo humano e particularmente problemático para crianças de cor [sic]”, escreve Keon [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 162].

A questão do leite, por mais estranha que a ideia possa parecer, é mais uma das imposições raciais no âmbito alimentar dos povos dominados em algum momento de sua história pelos europeus. Ela deve ser abordada nas políticas públicas com urgência, pois dela depende a recuperação da saúde física e da disposição mental de boa parte das crianças, jovens e adultos brasileiros, descendentes das etnias cuja genética resiste à digestão da lactose.

Não se deve adotar um programa de merenda escolar uniforme para todas as crianças. Isso desconsidera a incapacidade da maioria delas de digerir e assimilar convenientemente o leite de vaca. Padrões dietéticos caucasianos são eficazes para nutrir caucasianos. O leite de vaca só é digerível para quem produz lactase. Toda e qualquer pessoa obrigada a ingerir leite, quando seu organismo não dispõe da lactase, está sendo coagida a uma dieta insalubre, com desdobramentos que se estenderão por décadas, como é o caso das crianças que desenvolvem o diabetes Tipo 1, e daquelas que já apresentam hipercolesterolemia antes de entrarem na puberdade.

As evidências mostram que a genética digestória não é a mesma em todas as etnias. Os persistentes na produção da lactase após os quatro anos de idade podem ingerir, digerir e assimilar a lactose. Os demais povos, cuja produção de lactase cessa com o desmame, devem ser orientados a ingerir somente leites veganos. As sementes de girassol, de abóbora, de linhaça e de gergelim, as castanhas, as nozes, as amêndoas, o côco, o milho verde cozido, o arroz, a aveia, o alpiste e o painço, são matérias vegetais das quais se pode extrair leite nutritivo e saboroso.

A população com herança caucasiana é uma minoria ao redor do mundo, comparada aos mais de seis bilhões de humanos não descendentes de caucasianos. A maioria absoluta dos descendentes de etnias não caucasianas (afrodescendentes, asiáticos, indígenas, árabes e todos os listados acima) não digere leite de vaca, pois seu organismo cessa a produção da lactase assim que se forma a arcada dentária. Reiterando o que já foi dito e escrito, os dentes permitem a ingestão de alimentos sólidos, correspondendo a um período de amadurecimento do indivíduo para sobreviver sem depender do leite de seja lá qual for a espécie de fêmea, materna ou estranha, uma conquista evolutiva importante na ordem mamífera, conforme visto na quarta sessão. Ela permite a todos esses povos sobreviverem sem a ingestão do leite da vaca.

O leite é branco. No ocidente, os poucos povos brancos que o digerem sem dificuldade afirmam para os demais que esse alimento é ideal para todos os humanos, o que não é verdade. Oski é taxativo: “se o leite de vaca não fosse branco, ele jamais teria se tornado popular”. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 163].

Milhares de anos depois de a genética ter feito suas combinações em favor do melhor proveito para a vida dos indivíduos capazes de assimilar nutrientes do ambiente natural, eles são induzidos pela propaganda galactocrata a ingerir alimentos de origem animal, sabidamente nocivos à saúde e à longevidade. Humanos continuam pela vida adulta a “mamar” da vaca, como se fossem retardados biologicamente para fazer a ingestão, digestão e absorção dos nutrientes de fonte vegetal e precisassem passar a vida sugando caixinhas e saquinhos de plástico de onde “escorre” leite de vacas.

Fala-se do leite de vaca como se fosse um alimento universalmente digerível e assimilável para qualquer etnia, indivíduo, sexo ou idade, como se todos os humanos houvessem herdado a genética bovina e estivessem naturalmente preparados para metabolizar derivados bovinos. Os europeus o impuseram aos povos da América e do resto do mundo ocidental, que agora o engolem ingenuamente, sem saber que ele pode causar os males que levam as crianças a terem um rendimento menor na escola e a deixá-las longe da carreira intelectual que poderiam fazer, caso não sofressem dos distúrbios digestórios que levam a distúrbios psicológicos e até ao retardamento na aprendizagem. Alguns fatores da desigualdade social, nas sociedades galactólatras, tais quais a brasileira e a norte-americana, podem não ter origem na condição social das crianças e de seus pais, mas nas fontes alimentares nas quais buscam os nutrientes. São fatores raciais, mas eles s manifestam em um lugar nunca antes imaginado por qualquer ativista antirracista: no prato, na dieta adotada pela própria família prejudicada. Uma política racial pode ser levada a efeito através da dieta. As crianças indígenas da Amazônia que estão recebendo preparados de leite em pó, podem estar ingerindo ftalatos [Cf. Hulse, Mad Cows and Milkgate, p. 116]. Resta aguardar para ver quantas dessas crianças indígenas conseguirão se reproduzir nos próximos dez a vinte anos.

As ouvintes e leitoras e leitores lacto-persistentes que digerem o leite aparentemente sem maiores transtornos podem imaginar quão pouco renderiam nos estudos, no trabalho e em seus projetos pessoais, caso passassem seus dias atormentada(o)s com dores de barriga, idas frequentes ao banheiro, dor de cabeça, mau-humor, irritabilidade, falta de concentração, fora as doenças já instaladas em seus corpos pela lesão final que os órgãos sofrem com a ingestão prolongada de alimentos inapropriados à boa digestão.

Quantos caucasianos conseguem concentrar-se em alguma coisa, aprender algo novo, interessar-se por alguma atividade, quando sofrem, crônica ou agudamente, daqueles males? Pois tudo isso é rotineiro na vida de uma criança, em cujo organismo a produção da lactase cessou. Muitas pessoas passam a vida sofrendo de “mazelas”, indo a médicos para ver se algum deles descobre seu mal, inutilmente. Os médicos Dr. Neal Barnard, Dr. John McDougall e Dr. Caldwell B. Esselstyn tratam seus pacientes de doenças crônicas e graves abolindo da dieta todo resquício de leite, carnes, refinados e processados, alimentos sabidamente impróprios para a saúde humana. (Cf. ESSELSTYN, Caldwell B. (2007). Prevent and Reverse Heart Disease. New York: Avery. BARNARD, Neal (1993). Food for Life: How the New Four Groups Can Save Your Life. New York: Three Rivers Press; e (1998), Foods That Fight Pain. New York: Three Rivers Press; McDOUGALL, John A. (2006). Digestive Tune-Up. Summertown, Tennessee).

Imaginemos uma terrível dor de barriga afetando a disposição de uma criança por meses ou anos a fio, roubando-lhe a alegria de estar na escola ou de brincar, deixando-a fraca, irritada, sonolenta e queixosa; ou, retraída, pela vergonha de ter de correr para o banheiro com frequência, negando-se a participar de boa parte das atividades em grupo, base da socialização e da construção da autoestima.

Se tudo isso pode ser evitado na biografia de uma criança, simplesmente substituindo os alimentos que contêm leite, laticínios ou derivados do leite, por outros, inclusive por leites feitos com matéria vegetal, como os leites veganos citados, por que continuamos a ignorar o mal que a nutrição laticínica causa a essas crianças e o bem que a nutrição vegana poderia lhes proporcionar? Se a grande questão é a do cálcio, os leites veganos citados são ricos nele, um cálcio mais absorvível do que o do leite de vaca. Além disso, as leguminosas, o arroz, a aveia e as folhas verdes contêm cálcio muito melhor absorvível pelo organismo humano do que o do leite bovino.

Os males decorrentes da má digestão do leite não se resumem apenas às desordens intestinais. A má digestão da lactose acarreta outros males, entre eles o risco de infertilidade feminina. Na ausência da lactase para digerir a galactose (um dos dois monossacarídeos dos quais a lactose é composta), essa pode não ser metabolizada convenientemente. Quando isso ocorre, a galactose pode danificar as células oócitas, ou mesmo interferir na programação normal da morte celular, causando falências ovarianas.

O câncer de ovário tem a falência ovariana prematura como seu maior aliado. Estudos realizados por Dr. Cramer apontam que pelo menos 20 milhões de norte-americanas têm deficiência da enzima GALT, necessária para quebrar a galactose presente “em grande quantidade no iogurte, nos queijos e em outras formas de leite bovino fermentado”. [Keon, apud Felipe, Galactolatria, p. 165].

Também o fundador do Comitê dos Médicos por uma Medicina Responsável, Dr. Neal Barnard, escreve em um dos Boletins: “Muitas pessoas, particularmente as de ascendência asiática e africana, não são capazes de digerir o açúcar do leite, a lactose. O resultado é a diarreia e gases. Para as que podem digerir a lactose, os produtos dessa quebra são dois açúcares simples: glicose e galactose. A galactose tem sido associada ao câncer de ovário e a cataratas.” [Apud Felipe, Galactolatria, nota 396].

O câncer de ovário, segundo Keon, está em quinto lugar no ranking do câncer em mulheres. “Outro estudo da Universidade de Harvard, envolvendo 27 países, publicado na American Journal of Epidemiology [Revista Americana de Epidemiologia] encontrou uma forte correlação entre o consumo per capita de leite de vaca e a incidência de câncer ovariano.”[Keon, apud Felipe, Galactolatria, nota 396].

As populações do norte europeu (caucasianas) são as que apresentam maior taxa de persistência da lactase, pelo menos no que diz respeito aos sintomas clássicos que permitem sua identificação clínica. Para que não pensemos que a ingestão de leite por essa população é algo desejável, é bom levar em consideração também que “a Dinamarca, a Suécia e a Suíça, países que apresentam os mais altos índices de consumo de leite bovino”, segundo Keon, “também são os países com as maiores taxas de câncer de ovário do mundo”. Pesquisas recentes, conforme relata o autor, dão conta de que a galactose “é tóxica para as células reprodutoras ovarianas”. Também pode não ser mera coincidência o alto índice de infertilidade nos países onde a persistência da lactase permite a quebra dos dois elementos que formam a lactose, liberando a galactose. Segundo Keon, “o risco de infertilidade precoce pode ser maior nas populações que consomem leite e digerem a lactose em galactose.” [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 165].

Visto dessa perspectiva, o que poderia representar uma vantagem para as mulheres nórdicas e suíças de ascendência caucasiana, a persistência de seus organismos na produção da lactase após o desmame, acaba por mostrar-se de alto risco para elas, tanto no que diz respeito ao câncer de ovário, quanto à impossibilidade de gestar. Há pesquisadores trabalhando ainda com outra hipótese, relativa não à intolerância à lactose, mas à alergia ao leite, pois, “em mulheres suscetíveis, a alergia não diagnosticada ao leite pode levar à produção e acumulação de muco nas trompas de Falópio, impedindo a passagem do óvulo e sua nidação no útero”, esclarece Keon [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 165].

O termo “alergia”, esclarece Woodford, “foi cunhado em 1906 pelo pediatra austríaco, Dr. Clemens von Pirquet, que o empregou para descrever reações a vários agentes como o pó, o pólen e certos alimentos, em seus pacientes. Mas o termo não teve uso amplo até os anos 1950. Sabemos agora que as alergias são desencadeadas na presença de alergenos (também denominados antígenos). Eles são tipicamente proteínas de vários tipos. Embora normalmente essas proteínas não sejam prejudiciais, o corpo se defende delas, na crença de que o são e, assim, prepara-se para o ataque. Ele o faz, produzindo anticorpos, em particular os conhecidos como anticorpos IgE (também chamados imunoglobulina IgE) que tenta atacar e eliminar o aparente invasor externo. No processo, pode ocorrer uma grande liberação da substância chamada histamina. A histamina, por sua vez, pode causar uma série de distúrbios, tais quais urticária e asma e, em casos graves, até mesmo o choque anafilático e a morte. Não há dúvida de que em certas pessoas o leite causa essas reações, mas também há muitos outros alimentos e toxinas que podem criar esses efeitos. Na verdade, parece que pode haver muito poucas proteínas, quem sabe, nenhuma, totalmente não-alergênicas para todas as pessoas.”[Woodford, apud Felipe, Galactolatria, nota 398].

Mulheres em período de lactação podem induzir reações alérgicas ao próprio leite em seus bebês. Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, segundo Keon, mostraram que, “se a mulher consome, ainda que seja uma pequena quantidade de leite de vaca, as proteínas bovinas conseguem ser absorvidas pelo intestino e chegar ao seu leite, de onde serão passadas ao bebê, na amamentação.” [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 166].

Considerando o pequeno número de suíços, suecos e dinamarqueses não persistentes na produção da lactose (de cada 100 pessoas, sete, segundo dados apresentados por Keon em seu livro publicado em 2010), é possível entender o poder desse item sobre a dieta deles. Mas, considerando-se o percentual de outras etnias, beirando 90 em cada 100 pessoas, que sofrem distúrbios com a ingestão do leite, é possível concluir que a política alimentar galactocrática é uma política racialista, embora não seja racista. O que não parece nocivo para caucasianos acaba por ser apregoado como benéfico para qualquer outro indivíduo, independentemente de sua herança genética. Mais uma vez, quem colhe os benefícios dessa ideologia não são as crianças e adultos com distúrbios gástricos crônicos, são os poderosos vendedores de laticínios.

O consumo do leite de vaca na primeira infância pode ter consequências devastadoras para a saúde do indivíduo, incluindo a perda de até 30% na longevidade, afirma Oski. Crianças amamentadas apenas com leite materno apresentam um sistema circulatório saudável. Entretanto, a maioria das crianças com “doenças circulatórias” foi alimentada com preparados em pó, feitos à base de leite de vaca. Segundo Oski, as “diferenças entre o leite de vaca e o da mulher respondem pelas mudanças precoces nas artérias coronárias”, [Apud Felipe, Galactolatria, p. 166], provavelmente, conforme visto na Quarta Sessão, pela reação inflamatória da mucosa provocada pela xantina oxidase.

Além disso, quanto mais cedo a criança é exposta ao leite estranho, tanto mais cedo os sintomas da intolerância ocorrem [Felipe, Galactolatria, p. 166]. Segundo Oski, de cada quatro crianças com menos de três meses de idade expostas ao leite de vaca nos Estados Unidos na década de 70 do século XX, uma apresentava “sinais de alergia.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 166]. Para esse pediatra, pioneiro na condenação do leite bovino na dieta humana, definitivamente, bebês “não devem ser alimentados com leite de vaca integral em momento algum de sua infância.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 167].

Intolerância e alergia ao leite

Conforme visto, há dois distúrbios digestórios distintos em relação ao leite: a resistência ou intolerância à lactose, pela ausência ou insuficiência da enzima lactase e a alergia ao leite, reação associada especialmente à incapacidade de digestão das proteínas, da caseína e de seus derivados. A alergia persiste mesmo quando a lactose é retirada do leite ou dos produtos que têm leite e derivados em suas receitas.

Não basta, para quem sofre da alergia ao leite, que o alimento não contenha lactose. Ele não deve conter traços de caseína nem de qualquer outra proteína do leite. Enquanto os intolerantes ou resistentes à lactose podem ficar tranquilos, quando o rótulo de algum alimento declara que ele “não contém lactose”, os alérgicos ao leite precisam ter mais cautela, pois são muitos os derivados do leite disfarçados sob outros nomes, usados no processamento de alimentos, entre eles, para citar apenas alguns que podem conter caseína: caseína hidrolisada, caseinato, caseinato de amônia, caseinato de cálcio, caseinato de magnésio, caseinato de potássio, caseinato de sódio, sabor artificial de manteiga, gordura de manteiga, gordura do leite, creme, coalhada, soro deslactosado, sólidos de leite em pó, proteína de leite, sólidos de leite, corante caramelo, aroma natural, substituto de gordura, etc. Keon lista outros derivados do leite, que entram na composição de alimentos processados, entre eles: soro, concentrado proteico de soro, soro desmineralizado, lactose, lactoferrina, lactalbumina, fosfato de lactalbumina, creme azedo, sólidos de leite azedo. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 167 e nota 405].

A proteína do leite de vaca é tão indigesta que chega a ficar parada no estômago humano por 60 minutos, sem que qualquer processo digestivo se inicie, como se o cérebro não conseguisse reconhecer a matéria alimentar, ou como se ele não se dispusesse a investir na digestão de algo tão maligno para a saúde humana. Ao contrário, a proteína do leite da mulher é digerida no estômago em 15 minutos. A primeira é uma proteína estranha. Ela segue sem ser digerida, do estômago para o intestino, onde começa a produzir as primeiras reações adversas. Segundo o médico Alan Greene, que deu a explicação acima a pedido de Robert Cohen [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 167], a asma e o eczema podem ser rastreados até a proteína não digerida do leite, o fator que dispara o gatilho.

Na Dinamarca, os médicos do Departamento de Pediatria do Hospital da Universidade de Odense constataram que “a maioria das fórmulas dadas aos bebês com menos de um mês de idade levam ao desenvolvimento de sintomas de rejeição alérgica às proteínas do leite de vaca. A maioria dos bebês testados teve dois ou mais sintomas. De 50-70% tiveram vermelhidão ou outros sintomas na pele, 50-60% tiveram sintomas gastrintestinais, e 20-30% tiveram sintomas respiratórios. A terapia recomendada foi suspender o leite de vaca.”[Cf. Felipe, Galactolatria, p. 168]. Simples. Abolicionista. Sem delongas.

Segundo o pediatra Dr. Oski, os sintomas recorrentes da alergia ao leite, especialmente em crianças, incluem: “congestão nasal, ataques de asma ou infecções do peito, vermelhidão da pele, vômito e diarreia persistentes ou recorrentes”. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 168]. Sete em cada 100 bebês examinados com esses sintomas persistentes ou recorrentes eram alérgicos ao leite da vaca. Nos Estados Unidos, segundo dados coletados nos anos 70, do século XX, cerca de 1% da população era alérgica à penicilina, uma alergia que começava após a ingestão do leite das vacas tratadas com penicilina [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 168].

Somente para os consumidores desavisados o leite parece um alimento saudável, sem riscos para a vida e a saúde humana. Mas na comunidade médica atualizada com as pesquisas realizadas nas três últimas décadas, o assunto já não passa mais “em branco”. O Dr. Robert Kradjian realizou um levantamento bibliográfico dos artigos publicados entre 1988 e 1995 sobre leite e laticínios. Apenas nesses sete anos haviam sido publicados 2.700 artigos, arrolados nos arquivos de medicina norte-americanos, 1.500 tratando especificamente do leite, e os demais tratando de questões zootécnicas, esotéricas ou de estudos ainda inconclusos.

Em maio de 1995, o Townsend Letter For Doctors, publicação de médicos para médicos, enfrentando a propaganda do próprio governo norte-americano, que estimula os cidadãos a consumirem mais e mais leite, arrola os malefícios desse alimento para a saúde humana. Em seu comunicado, a Carta de Médicos para Médicos afirma: “Na verdade, o leite de vaca, especialmente o processado, tem sido associado a uma variedade de problemas de saúde”. Entre os problemas atribuídos ao consumo de leite e laticínios por esse impresso médico, estão incluídos: 1) produção de muco; 2) perda de hemoglobina; 3) diabetes infantil; 4) doenças cardíacas; 5) aterosclerose; 6) artrite; 7) cálculos renais; 8) oscilação de humor; 9) depressão; 10) irritabilidade; 11) alergias [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 168].

A betacasomorfina-7 (BCM7), em estudos in vitro mostrou-se extremamente oxidativa do LDL, a lipoproteína de baixa densidade, conhecida como colesterol ruim. Segundo Woodford, a “oxidação do LDL é um processo fundamental no qual placas de gordura são depositadas nas paredes arteriais, levando a doenças cardíacas.” [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 169]. O efeito danoso da betacasomorfina-7 (BCM7) sobre o coração ocorre por duas vias: “um mecanismo relacionado aos opioides (talvez ligado à função imune), e suas propriedades oxidantes, operando como uma faca de dois gumes.” [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 169].

Feita a revisão dos artigos publicados sobre o leite, o Dr. Kradjian escreve:

Como eu resumiria esses artigos? Eles são pouco menos do que aterradores. […] O foco principal dos artigos publicados parece ser as cólicas intestinais, irritação intestinal, sangramento intestinal, anemia, reações alérgicas em bebês e crianças, assim como infecções por Salmonella. Mais sinistro é o medo de infecção viral pelo vírus da leucemia bovina, ou pelo vírus similar ao da AIDS, e a preocupação pelo diabetes infantil. A contaminação do leite por sangue e células brancas do sangue (pus) e por uma variedade de químicos e inseticidas também é discutida. Entre as crianças, os problemas são alergia, infecção do ouvido e das amígdalas, incontinência urinária noturna, asma, sangramento intestinal, cólica e diabetes. Entre os adultos, os problemas parecem centrar-se mais na questão das doenças cardíacas, artrite, alergia, sinusite e nas questões mais graves da leucemia, linfoma e câncer. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 169].

Woodford afirma que a fórmula Pregestimil, da Mead Johnson, dada para recém-nascidos, causa um alto índice de diabetes em bebês, mas isso é mantido em segredo fora da Nova Zelândia, porque ela exporta a maior parte do leite consumido no resto do mundo [Felipe, Galactolatria, nota 413].

As proteínas do leite da vaca não digeridas no estômago da mulher lactante seguem livres para suas glândulas mamárias. De lá, são sugadas para o sistema digestório do bebê, provocando as mesmas reações alérgicas que ocorrem naqueles que ingerem diretamente o leite da vaca [Felipe, Galactolatria, p. 169]. Milhões de mulheres sofrem uma espécie de culpa, porque seus bebês têm reações alérgicas ao leite delas. A quantas dessas mulheres é dita a verdade? Toda mulher que amamenta deveria ser alertada para o risco que seu bebê corre de sofrer reações alérgicas às proteínas bovinas não digeridas, carreadas em seu leite.

Por outro lado, quantas mulheres são avisadas de que sua constipação intestinal, diarreias recorrentes, sinusite, cistite, amidalite, diabetes, hipercolesterolemia, cansaço, dor de cabeça, flatulência, e daí por diante, podem estar associadas ao consumo de leite e seus derivados, presentes em quase todos os alimentos processados?

Pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Washington “mostraram que, quando a mãe consome, mesmo uma quantidade pequena de leite de vaca, a proteína bovina consegue chegar ao seu intestino e entrar no leite em seu peito, de onde passa para o bebê lactente.” [Felipe, Galactolatria, p. 170]. Se a mãe não dá leite bovino para seu bebê, mas se alimenta de leite ou de laticínios e inclui na dieta dele fórmulas instantâneas à base do leite, as cólicas do bebê não cessarão [Apud Felipe, Galactolatria, p. 170], enquanto ela o alimentar no peito ou insistir em substituir seu leite por alimentos processados que escondem derivados da proteína ou do soro do leite de vaca.

Segundo Keon, os laticínios, junto com o trigo, estão no topo da lista de alimentos que mais provocam alergias em adultos [Apud Felipe, Galactolatria, p. 170]. Essa informação não é recente. A comunidade médica a possui desde o século V, antes de nossa era. Hipócrates, segundo Keon, já “observara que o leite de vaca podia causar vermelhidão na pele e problemas gástricos”. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 170].

Mesmo que por dois mil e quinhentos anos não houvesse tecnologia para decifrar o processo alergênico causado pelo leite, da metade do século XX em diante, não há mais desculpas para a desatenção dos médicos aos malefícios do leite de vaca para a saúde humana. “Em 1950, com o uso de microscópios”, relata Keon, “os cientistas foram capazes de ver como a proteína do leite de vaca e a de outros alimentos podem induzir uma resposta do sistema imunológico”. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 170].

O leite de vaca contém dezenas de proteínas capazes de provocar reações alérgicas. Keon lista as mais comuns: caseína, beta-lactoglobulina (BLG), alfa-lactalbumina (ALA), gama-globulina bovina (BGG), e albumina sérica bovina (BSA). “Quando ingeridas”, explica o autor, “proteínas alergênicas podem levar à produção de anticorpos locais e circulantes. As reações podem ser imediatas (manifestas em minutos ou poucas horas) ou tardias (de 24 a 72 horas). Os sintomas podem estender-se por muitos dias ou semanas.” [Apud Felipe, Galactolatria, p. 170].

Alergia ao leite e comportamento violento

Keon refere um estudo publicado na Journal of Orthomolecular Psychiatry [Revista de Psiquiatria Ortomolecular] que investigou a associação entre a alimentação e a disrupção da violência em jovens delinquentes. De cada 100 jovens estudados, 80 sofria de alergia ao leite de vaca. Dados mais detalhados da pesquisa dão conta de que era possível prever inclusive a intensidade da violência, associada proporcionalmente à quantidade de leite e laticínios que os jovens haviam ingerido [Apud Felipe, Galactolatria, p. 171].

Não apenas a violência juvenil, mas também o autismo, a esquizofrenia e a síndrome de Asperger, têm recebido alguma atenção na área da nutrição cerebral, por sua associação com a ingestão do leite de vaca. Vimos que as proteínas do leite, especialmente a caseína, podem passar parcialmente não digeridas para o intestino. Nessa condição, elas seguem como peptídeos bioativos pela corrente sanguínea até o cérebro. “Há evidências circunstanciais”, escreve Woodford referindo-se a pesquisas feitas por Dr. Hill, “de que a remoção do leite e dos cereais contendo glúten, da dieta, pode reduzir ou aliviar os sintomas do autismo em certas crianças.” [Cf. Felipe, Galactolatria, nota 423].

A BCM7, escreve Woodford, “atrela-se a certas áreas do cérebro que apresentam alterações anatômicas e fisiológicas em pacientes com esquizofrenia, e a maioria tem se mostrado fisiologicamente anormais no autismo”. Woodford cita a pesquisa feita por Zhongjie Sun e Robert Cade, e sua conclusão de que, a BCM7 “pode cruzar a barreira sanguínea do cérebro, ativar receptores de opioides e afetar regiões do cérebro similares às afetadas pela esquizofrenia e o autismo.” [Cf. Felipe, Galactolatria, nota 423].

Segundo Woodford, um grupo de cientistas alemães constatou que a betacasomorfina-7 (BCM7), um desses peptídeos bioativos, é liberada principalmente pela má digestão da proteína A1 do leite bovino. Essa proteína A1 tem a histidina na posição 67 (num total de 209 aminoácidos que a compõem), o que a torna incapaz de resistir à hidrólise na digestão enzimática [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 171].

Liberada no intestino, a betacasomorfina-7 ou BCM7 “pode afetar o sistema digestório, sem necessariamente ser absorvida pela corrente sanguínea. A caseína e os opioides, tais quais a BCM7, podem reduzir a quantidade da passagem intestinal”, provocando constipação. Essa, por sua vez, pode ser a causa da intolerância à lactose, pois quanto mais tempo as proteínas não digeridas do leite ficam retidas no intestino, tanto maior será sua fermentação e mais reações adversas serão sentidas. Segundo Woodford, a BCM7 “é um poderoso opioide” e “um poderoso oxidante.”[Apud Felipe, Galactolatria, nota 427]. Em outra passagem, o autor escreve: “peptídeos opioides, tanto do glúten [gliadina] quanto da caseína, são absorvidos na corrente sanguínea e cruzam a barreira sanguínea do cérebro.”[Cf. Felipe, Galactolatria, p. 171].

Nosso estômago e intestinos produzem enzimas específicas para digerir cada componente dos alimentos que ingerimos: lipase para digerir a gordura, lactase para digerir o açúcar do leite, protease para digerir a proteína e assim por diante. A primeira fase da digestão das proteínas as transforma em fragmentos, chamados peptídeos. A segunda fase decompõe esses peptídeos em aminoácidos simples. Esse processo, explica Woodford, é denominado hidrólise, “do grego hydro = água + lysis = quebra, o efeito no qual moléculas de água se quebram no embate com proteínas e peptídeos”. Na sequência, “os aminoácidos formados são absorvidos na corrente sanguínea”. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 172].

Entretanto, nem todos os peptídeos são apanhados pela hidrólise, isto é, transformados em aminoácidos e absorvidos. “Alguns são excretados com as fezes e outros conseguem perpassar a mucosa dos intestinos e entrar na corrente sanguínea ainda na forma de peptídeos.”[Felipe, Galactolatria, p. 172]. A digestão mal feita da caseína, especialmente na variante betacaseína A1, produz o peptídeo com uma alça de sete aminoácidos, chamado betacasomorfina-7, ou BCM7. Cientistas alemães descreveram pela primeira vez as propriedades narcóticas da BCM7 [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 172].

A subespécie bovina Bos indicus, que constitui a quase totalidade dos rebanhos bovinos da Índia e de algumas regiões da África, que não sofreram cruzamentos com o gado europeu, não produz a proteína A1 ou betacaseína, apenas a A2, no leite. Mas os rebanhos orientais trazidos para o ocidente e cruzados com os rebanhos europeus são transmissores do gene que produz a proteína A1 ou betacaseína.

Cada rebanho possui uma maior ou menor prevalência das proteínas A1 e A2 no leite. Woodford afirma que “há diferenças consideráveis na prevalência do gene A1 entre linhagens, países, e, em certos casos, províncias”. “A proteína betacaseína-7, encontrada nos bovinos, contém 209 aminoácidos numa sequência fixa, formando uma corda convoluta. A diferença entre a variante A1 e a A2 encontra-se apenas em um desses aminoácidos. Enquanto o leite A1 tem o aminoácido histidina na posição 67, o A2 tem a prolina nessa posição.”[Cf. Felipe, Galactolatria, nota 432].

Segundo Woodford, os bioquímicos sabiam dessa diferença desde 1993, mas até então não se conhecia sua significância, justamente o fato de produzir o opioide betacasomorfina, com suas implicações danosas para a saúde humana, tanto mental, quanto do coração e do pâncreas [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 432]. Contudo, a A1 é própria apenas do gado ocidental, pertencente à espécie Bos taurus. Woodford afirma que os cientistas “creem que uma mutação ocorreu há 8.000 anos, de tal modo que a prolina na posição 67 tomou o lugar da histidina. A evidência genética dessa mutação é muito clara, ainda que possa haver erro no cálculo de alguns milhares de anos da ocorrência. Essa mutação foi disseminada em seguida através dos rebanhos ocidentais.”[Cf. Felipe, Galactolatria, nota 433]. Se uma vaca nasce do cruzamento entre indivíduos Bos indicus e Bos taurus, ela herda o gene da proteína A1 betacaseína, responsável pela produção da betacasomorfina-7, quando a proteína é mal digerida no estômago e intestinos humanos.

Um estudo feito por Corran McLachlan, um bioquímico reconhecido na Nova Zelândia e na Europa por seus estudos sobre alimentos processados, publicado em 2001 pela revista Medical Hypotheses (Hipóteses Médicas), vincula o consumo de betacaseína-7 a doenças cardíacas e ao diabetes Tipo 1, no ocidente. Esse estudo comparou os ocidentais com os quenianos (Masai e Samburu), com alto consumo de leite bovino, e não encontrou doenças cardíacas nem diabetes Tipo 1, entre esses [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 172]. O leite das vacas quenianas não produz a betacaseína-7. “O mais alto índice de doenças cardíacas, no período em que esse estudo foi realizado”, escreve Woodford, era o da Finlândia, justamente onde há uma ingestão alta de A1 betacaseína. A França, com a maior parte das vacas do tipo A2, tem um baixo índice de doenças cardíacas.”[Cf. Felipe, Galactolatria, p. 172].

Há dois tipos de diabetes, explica Woodford: “Tipo 1 e Tipo 2. A Tipo 1 comumente aparece na infância, ou no início da idade adulta, enquanto a Tipo 2 é geralmente uma doença de idosos. Ambas estão relacionadas à incapacidade de metabolizar a glicose, e ambas estão associadas à insulina, mas elas são fundamentalmente diferentes. A diabetes Tipo 1 não produz a insulina necessária, porque as células do pâncreas responsáveis por sua produção estão danificadas. Ao contrário, a diabetes Tipo 2 a produz, ainda que em pouca quantidade, mas o corpo é ‘resistente à ela’. Isso quer dizer que a insulina, mesmo presente, não pode trabalhar direito para levar a glicose ao interior das células, onde ela é necessária.” [Cf. Felipe, Galactolatria, nota 434]. A caseína integral, afirma Woodford, é “diabetogênica” [Cf. Felipe, Galactolatria, nota 435]. Ainda, segundo o autor, a “betacasomorfina diminui a resposta insulínica do pâncreas, resultado de seu efeito opiáceo.” [Cf. Felipe, Galactolatria, nota 435].

A prolina, na posição 67, forma uma liga forte com os aminoácidos ao seu redor, não permitindo sua liberação no processo digestório. Conforme visto acima, quando a histidina ocupa essa posição, ocorre a liberação por hidrólise. A partir dela é que se forma a betacasomorfina-7 [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 173]. Dependendo da capacidade digestiva, pode ocorrer a liberação da prolina, analogamente ao que ocorre com a histidina. Mas, ao mesmo tempo, essa hipótese é considerada remota, pois a quantidade de BCM7 produzida seria pequena demais para tornar-se alvo de preocupações em relação à formação da betacasomorfina, explica Woodford [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 173].

Quando ainda não havia debate algum sobre os danos à saúde humana, associados ao consumo de leite bovino, o pediatra norte-americano, Frank Oski, na primeira edição de seu livro, em 1976, já afirmava: “Isto é fato: a ingestão do leite de vaca está associada à anemia ferropriva em bebês e crianças; ela tem sido apontada como a causa de cólicas e diarreias em boa parte da população mundial e também como a causa de múltiplas formas de alergia; uma hipótese tem sido levantada, a de que ela possa desempenhar um papel central na origem da aterosclerose e dos ataques cardíacos.”[Cf. Felipe, Galactolatria, p. 173].

A ingestão de leite, ao contrário do que a propaganda galactocrática nos fez crer, pode ser causa de desnutrição. Por um lado, devido ao fato de que a lactose não digerida não é quebrada nem transformada em energia para as células; e, por outro, porque as disfunções intestinais atrapalham o processo de digestão e absorção de nutrientes presentes nos outros alimentos ingeridos. Por fim, quando os distúrbios são diarreicos, o organismo perde os minerais e as vitaminas. Para assegurar a dose de ferro necessária à saúde humana, nem de longe o leite de vaca é uma fonte segura. A ingestão de grande quantidade de leite, lembra Oski,

[…] há tempos tem sido reconhecida como causa da anemia ferropriva infantil. Pensava-se que ela resultasse do fato de a criança não ingerir ferro suficiente em sua dieta. O leite de vaca contém menos de 1 mg de ferro por litro. Uma parte mínima desse ferro é absorvida pelo trato intestinal, porque ele se liga a outros elementos presentes no leite, tornando difícil sua absorção pelo intestino e sua entrada no sangue. Calcula-se que um bebê de um ano de idade teria que tomar 24 litros de leite por dia para obter a quantidade de ferro requerida. [Apud Felipe, Galactolatria, p.173].

A dor de barriga, comum e tida como natural na infância, atingia cerca de 10% das crianças. É preciso lembrar que tal estatística refere-se a uma população com tradição no uso do leite de vaca, a norte-americana. Oski cita os estudos feitos em São Francisco e Boston, nos Estados Unidos, na década de 70 do século XX, e lembra: a “alergia ao leite de vaca é, de longe, muito mais comum do que se costuma considerar.”[Cf. Felipe, Galactolatria, nota 442]. Se for feita a mesma pesquisa, hoje, entre asiáticos, africanos, americanos centrais e do sul, árabes, chineses e judeus, o número pode chegar a quase 80% das crianças. A medicina denomina esse distúrbio de “dor abdominal recorrente na infância”. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 174]. Teria sido mais honesto e producente denominar “dores abdominais infantis galactogênicas”, ou seja, causadas pela ingestão do leite. Quando os pesquisadores de Bostom e de São Francisco, que fizeram o estudo das crianças com dor de barriga recorrente, tiraram o leite e os laticínios da dieta dessas crianças, as dores cessaram. Terapia abolicionista. Simples assim.

Paradoxalmente, a Food and Agriculture Organization – FAO recomenda a ingestão anual de 215 litros de leite per capita [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 174, nota 444] e pressiona os governos da América do Sul a aumentarem a oferta de leite no mercado para atender a esse consumo considerado, por ela, “ideal”.

Mesmo com menor concentração de melanina na pele, os sul-americanos não descendem de austríacos, dinamarqueses, suecos e suíços, mais aptos à digestão do leite. A maioria absoluta, nessa região do planeta, descende preponderantemente de indígenas e, ou, especialmente no caso brasileiro, de africanos. Recomendar o aumento do consumo de leite é o mesmo que recomendar que os povos da América do Sul se tornem obesos, hipercolesterolizados, diabéticos, infartados e violentos.

Para as crianças, o destino será o tormento diário com a barriga inchada, o humor irritado, a desconcentração na aula, a diarreia, a dor de cabeça, as inflamações de garganta, sinusite, diabetes Tipo 1, obesidade, quando não, agravamento das síndromes conhecidas como autismo, esquizofrenia, hiperatividade, incapacidade de memorizar e, não menos alarmante, reações violentas.

Essa ordem da FAO, obviamente, tem sido bem recebida pelos galactocratas, pois estimativas de crescimento da produção e do consumo foram publicadas pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento – Projeções do Agronegócio Brasil 2010/11 a 2020/21. Segundo as projeções, crianças de até 10 anos, no Brasil, deverão consumir 146 litros de leite por ano, adolescentes de 10 a 19 anos, 256 litros, adultos a partir dos 20 anos, 219 litros [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 174]. No ano de 1997, o cálculo estimava um consumo de 136 litros per capita.

Obviamente, os especialistas que fazem as projeções do agronegócio não estão interessados na literatura aqui trabalhada. Se o negócio da galactocracia move mais de 20 bilhões de reais por ano, só no pagamento do trabalho de extração do leite no Brasil, quanto move o negócio dos remédios contínuos que as pessoas precisam tomar quando se tornam diabéticas, hipertensas, sofrem de aterosclerose, enfartam, ganham peso, não conseguem dormir, não se concentram, têm diarreias, enfim, são medicadas para os males causados pela dieta baseada num alto teor proteico de origem animal?

O pediatra Dr. J. Dan Baggett, de Montgomery, Alabama, relata que, em sua experiência clínica, além das doenças e males citados, tratou de muitas crianças com os sinais e sintomas da artrite reumatoide, algumas em estado tão avançado que chegava a preocupá-lo e aos pais delas. Sua afirmação é contundente: “Sem exceção, durante os últimos oito anos, tive a felicidade de aliviá-las e de vê-las recuperarem sua boa saúde simplesmente eliminando qualquer traço de leite de sua dieta.”[Cf. Felipe, Galactolatria, p. 175]. Dieta abolicionista. Simplesmente, a única eficaz.

No organismo humano, o leite de vaca não causa apenas distúrbios intestinais e inflamações recorrentes, tais quais a amidalite, a otite, a sinusite, a cistite e a artrite. Ele é um dos maiores inimigos da saúde bucal. A composição do leite bovino, escreve Oski, é perfeita para alimentar o bezerro [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 175]. Mas os bezerros param de ingerir leite de vaca depois de formarem a arcada dentária. A ausência de dentes é o sinal mais evidente de que o organismo não está apto para receber alimentos sólidos mastigáveis. Quando eles nascem, são o aviso de que esse mesmo organismo precisa daqueles alimentos sólidos, pois é neles que continuará a encontrar os nutrientes necessários para o resto da vida, até então concentrados e secretados no leite materno. Isto vale para todas as espécies mamíferas: deixar de ingerir leite é sinal de maturidade para a vida independente.

Quase todas as mães, para garantir que o bebê durma bem e não passe fome, acabam por lhe dar uma última mamadeira à base de leite antes de dormir. Mas, explica Oski, quando dormimos, a “secreção de saliva decresce”. O mesmo ocorre com os bebês. Desse modo, os restos do leite, não engolidos antes de o bebê adormecer, ficam na boca, “grudados nos dentes”, azedando. Exatamente esses restos de leite azedado são excelente nutriente para as bactérias que vivem na boca. Elas respondem pela “formação das placas dentárias que levam à degeneração da superfície lisa dos dentes”. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 176]. É assim que o leite “come os dentes”, na expressão do próprio Oski.

Corroborando a tese de que o consumo humano de leite de vaca tornou-se uma “necessidade” ocidental, não por seus nutrientes, mas devido à propaganda sutil e à escancarada que bombardeia os galactômanos submetidos à influência das recomendações dietéticas norte-americanas e da FAO, na qual o leite e laticínios sempre são apresentados como fontes indispensáveis de nutrientes para uma dieta humana “balanceada”, o pediatra e psiquiatra Dr. Ellen Mackenzie, declara:

O leite de vaca, líquido alimentar contendo proteína muito adequada para bezerros antes de formarem os dentes, foi tão apregoado como ‘um alimento natural, quase beirando a perfeição’, que até mesmo alguns médicos o consideram um substituto adequado numa dieta variada. A mística da garrafa do leite integral, homogeneizado, pasteurizado (a maioria das fórmulas disponíveis são mais caras, carregadas de germes e alergênicos), é imensamente poderosa. As famílias voltam a dá-lo, apesar de sua própria experiência ou das advertências médicas sobre alergia, doenças respiratórias ou anemia. [Apud Felipe, Galactolatria, p. 176].

O psiquiatra Dr. H. L. Newbold, segundo Oski, constatou que os sintomas de “insônia, ansiedade ou depressão podem ser provocados por alimentos”. Sua observação o levou a buscar identificar os alimentos alergênicos associados com mais frequência àqueles distúrbios. Tanto em adultos, quanto em crianças, o alimento mais frequente, o primeiro da lista, é o leite de vaca integral. Sua conclusão não deixa dúvidas: “O primeiro alimento a ser tirado da dieta é o leite de vaca e todas as receitas e produtos que o contém”. [Cf. Felipe, Galactolatria, p. 176]. Dieta abolicionista, mais uma vez.

Para citar:

FELIPE, Sônia T. Malefícios do leite bovino para a saúde humana – Parte 1. Palestra apresentada no Curso de Extensão Implicações éticas, ambientais e nutricionais do consumo de leite bovino – uma abordagem crítica. Florianópolis: UFSC, Auditório do Centro de Ciências da Educação, 07 junho 2013, das 18:45 às 21:30.

Clique aqui para baixar arquivo em PDF.


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.