Metamorfose ambulante é outra coisa, pessoal

Metamorfose ambulante é outra coisa, pessoal

Por Marcio de Almeida Bueno

Pois vejo como é comum se achar atualmente colunistas da Imprensa se dedicarem a criticar o vegetarianismo e as iniciativas pró-libertação animal. Aqueles autointitulados ‘formadores de opinião’ e especialistas em qualquer coisa utilizam o próprio espaço que lhes é reservado no jornal para minimizar, quando não debochar, de iniciativas e posturas que consideram erradas, exageradas, imaturas – aquela coisa do ‘eu sei como as coisas devem ser, crianças, não esperneiem’.

Aqui no RS, aproveitando a exposição de grandes veículos – enquanto podem, pois muitas então ‘estrelas’ perderam o brilho do Ibope ao mudarem de estação – há casos que começam a virar folclóricos. Um cronista dos mais indigestos, que sua empresa insiste em vender como um ‘conhecedor da alma feminina, um Chico Buarque mais novo’, habitualmente ataca as vegetarianas. Na cabeça dele, está o vegetarianismo crescendo como uma solução vital para mulheres de meia-idade, mal-resolvidas, sexualmente insatisfeitas e com bastante tempo livre a preencher.

Obviamente existe o contraponto feminino a esse jornalista, uma colunista-escritora reconhecida pela ‘sensibilidade de mulher e de mãe’, exemplo para todas as quarentonas prafrentex, ativas, chiques, compradoras de livros, profissionais liberais e tal. E esta também levantou críticas ao vegetarianismo – puxa, como é uma ameaça crescente… – e, no passado, já defendeu as touradas. Tudo com o glacê de quem toma ‘um café’ em bairros fru-fru, passa as férias na Europa e demais obrigações da nobreza.

Da velha guarda, tem um articulista que defende a caça, ataca a proibição das carroças e faz a elegia da pecuária, sempre arrotando seu extenso saber e formação acadêmica superior à dos demais mortais – especialmente dos que pensam diferente de si. E ainda tem um cronista que, conforme a fase da Lua, vai defender apaixonadamente algum animal específico, cobrar providências para o caso de violência contra outro animal, para depois martelar seu verbo, coluna após coluna, contra o fim das carroças na Capital.

É verdade, a liberdade de expressão é para as ideias com as quais não concordamos, já disse alguém. Mas o ponto que eu levanto se refere a um posicionamento fácil e ausente, para então decretar sua opinião nem um pouco precisa, embasada ou isenta. Ao contrário, tais pessoas apenas sentam em lugares pré-numerados e dizem o que acreditam ser o razoável para o cidadão médio.

Enquanto o vegetarianismo e a libertação animal forem palavras feias, estarão estes autores apenas tomando parte no coro de um suposto bom senso. Mudando-se os tempos e as mentalidades, tenho plena certeza de que revisariam suas opiniões. Fosse na época da escravatura, comeriam alpiste na mão dos escravagistas e mostrariam indignação contra qualquer tentativa de reforma. No momento em que a abolição já estevesse estabelecida, ou em vias de, não seriam incautos a ponto de perder o trem das novas ideias – contanto que as velhas estivessem em nocaute técnico, incapazes de se levantar durante a contagem do juiz.

Pois os argumentos que ora apresentam geralmente oscilam entre a desqualificação e a realidade romanceada, desconectada da própria vida assim que terminar o expediente. Similar a quem enche a boca para se mostrar horrorizado com os transgênicos, mas come frango tranquilo. Ou quem se choca com o mercado de carne de cachorro em países orientais, mas aqui segue comendo outros exemplares da fauna, com orgulho quase patriótico. Enfim. Como muitos, esses formadores de opinião sopram suas flautas na direção em que o vento torna fácil qualquer melodia.

Fonte: ANDA


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