Meu bebê e minha mãe primeiro!

Por Sônia T. Felipe

Nada contra. Se, em caso de catástrofe, você abandonasse seu bebê ou sua progenitora à própria sorte e fugisse, pouco se importando se eles ainda estão vivos sob os escombros ou debaixo da lama, você não poderia esperar que as pessoas a achassem uma pessoa generosa. Muitas pessoas até diriam que você é uma pessoa desumana, na falta de termo melhor para designar uma pessoa humana que parece não se importar muito com a vida de seus entes queridos.

Esse caso vale apenas para um momento de catástrofe, porque nesses momentos estamos condenados às forças da natureza e salvar vidas é um ato não apenas heroico, mas também um dever moral, dado que você espera que ajudem você em situação idêntica.

O mesmo padrão moral que prioriza, numa catástrofe, a vida de seus parentes próximos em detrimento da vida de pessoas não ligadas afetivamente a você, não vale para configurar uma ética que trata todos os seres com igualdade em tempos não catastróficos, no dia-a-dia, no que chamamos de rotina. Neste caso, o da vida correndo normalmente, dispomos de algo muito precioso que não temos num momento de risco para a vida: da liberdade.
E a liberdade para fazer escolhas para além do dever afetivo de salvar a vida do próprio bebê ou da própria mãe, torna nossas escolhas morais, principalmente a escolha do que colocamos no prato, um dever de primeira ordem, porque elas implicam em dispor da vida dos outros para satisfazer nosso palato. Escrevo palato porque necessidade proteica não vale mais como desculpa para o consumo de alimentos animalizados. Até a OMS e várias associações de médicos de diferentes áreas da saúde, não apenas do coração, mas também do câncer, da nutrição há anos reconheceram que a dieta vegana é apropriada para qualquer idade, desde que se tome cuidado em não esquecer de comer o que importa e não se fique a comer por aí, junk food achando que isso tem algum valor nutricional (lógico, essa notícia do meio médico não deu na televisão, então todo mundo continua crendo que se não comer carnes e laticínios vai desmaiar e nunca mais voltar a si).

Quando falam do valor da vida, geralmente os que querem se defender do argumento abolicionista vegano insistem em dizer que a vida tem valor para mais ou para menos, sim, porque se a gente estivesse numa situação de risco a gente salvaria primeiro a mãe ou o filho.

As pessoas (e não são só as pessoas que não estudaram filosofia que fazem essa confusão, os livros estão cheios de exemplos do bote para desqualificar a ética que tenta afirmar a igualdade sem discriminação) confundem situação de risco, onde reagimos por impulso, porque temos uma fração de segundo para tomar alguma providência, com situação normal de vida, onde todas as vidas podem ser consideradas de igual valor, pois temos meios para poupar todas as vidas da morte sem colocar nossa própria vida, a vida do nosso bebê ou a de nossa mãe em risco.

Portanto, quando se trata da dieta animalizada, não estamos lidando com uma situação de risco para nossas vidas. Os únicos a serem mortos são os animais não-humanos. A catástrofe é vivida por eles. Então, temos o dever de salvar suas vidas. Não comê-los. Eis tudo o que importa.

Esses casos catastróficos são geralmente usados na filosofia para mostrar os limites da ética em situações nas quais não há mais liberdade para escolha. Repito: em uma catástrofe você não tem tempo para calcular o valor de coisa alguma, nem da vida, pois tudo se passa em fração de segundos. Então, num ato impulsivo, a gente arrasta consigo o que está vivo e ao alcance da mão. Raramente é a mãe. Raramente é o bebê. Se fossem, não haveria tanta gente de luto depois de uma tragédia. É que não dá tempo para nada.

Por isso não dá tempo para calcular se a vida da mãe vale mais do que a do cão. Não dá tempo. Mas, quando sobra o tempo para concluir que a vida da porca, da vaca, da ovelha ou da galinha tem a valiosidade que julgamos ter apenas na nossa, o que fazemos com o tempo para pensar sobre isso?

Eu não uso esses exemplos para construir a ética. Ela deve ser construída pensando-se que a maioria absoluta de nós jamais passará por uma situação dessas, mas viverá até os 80 ou 100 anos praticando todos os dias, em sua rotina, o que não deveria praticar: comer animais ou derivados tirados do corpo doído e doente deles, como é o caso do leite e dos ovos.

É para a vida cotidiana que a ética deve servir. E há tudo por resolver, raciocinando-se com tempo, sobre o valor da vida de todos os seres que compartilham conosco esse planeta.

Se pensamos somente com base no padrão, “Ah! Mas numa catástrofe você salvaria primeiro sua mãe, por isso a vida de sua mãe tem mais valor do que a vida de um cão ou de um porco”, não saímos do lugar, porque justamente esse raciocínio é absolutamente nihilista do ponto de vista ético.

É para gente que não quer mudar nada em sua vida que tais frases servem para concluir que, se no caso de uma catástrofe salvaríamos primeiro nosso bebê ou nossa progenitora, então essa é uma prova contundente de que estamos autorizados a matar o bebê ou a progenitora dos outros animais, para nos servirmos de suas carnes, leite e ovos, porque a vida deles não tem tanto valor quanto a vida do nosso bebê ou da nossa mãe. Tudo junto e misturado. Isso nunca deu bom argumento, muito menos ajudou a elaborar uma ética. Só vale para derrotar a ideia de que a vida dos animais não tem menos valor do que a nossa. O pretexto é a malfadada e hipotética catástrofe.

Vamos separar as coisas. Facilita bastante. Uma coisa é o valor da vida para o animal que a vive, mesmo que ele não entenda nada de filosofia (como acontece, aliás, com a quase totalidade dos indivíduos da nossa espécie), e outra é o quanto consideramos valiosa a vida dos outros, humanos ou não-humanos.

Pela educação, um esforço imenso foi dispendido para nos fazer entender que nossa vida tem algum valor. Muita gente não entendeu ainda e se destrói ingerindo um monte de coisas venenosas, por puro vício. E para nos ajudar a entender o quanto nossa vida (a da espécie humana) tem valor, nos disseram que o valor vinha do fato de não sermos tão simples quanto o são os animais de outras espécies. Isso é especismo elitista, porque simplicidade não é o que marca a vida das demais espécies. Cada uma é apenas singular. Não é mais pobre nem mais rica. Apenas do seu próprio modo.

Então, fomos formatados num conceito especista elitista que nos convenceu de que apenas a nossa vida tem valor e a vida de todos os outros animais, especialmente a daqueles que também nos forçaram a comer desde antes de nascermos (para obtermos proteínas, cálcio etc.) tem um valor menor ou até mesmo valor nenhum. Confundiram nossa mente. Agora é hora de desconfundir. Sartre diz que não importa o que fizeram com nossa mente até nos darmos conta disso, o que importa é o que fazemos depois de tomarmos consciência.

O valor de uma vida não depende do quanto amamos ou sentimos ternura, ou cuidamos da vida do outro. Somos sete bilhões de humanos e cuidamos no máximo de dois ou três, e olhe lá, pois há quem abandone seus bebês e mais ainda seus progenitores idosos.

Então, se a vida valesse apenas porque nós sentimos alguma ternura por alguém, pobres de nós, pois nossa vida estaria em risco, pois também temos o amor genuíno de apenas duas ou três pessoas, que, por nos amarem, consideram nossa vida valiosa. Mas se essas pessoas deixarem de nos amar, nossa vida pode ficar triste, mas de modo algum perderá o valor do qual tratamos aqui.

Enfim, não é o sentimento de alguém por nós que torna nossa vida valiosa, muito menos nosso sentimento por algum animal ou a ausência de qualquer sentimento por ele que tornará sua vida valiosa ou não valiosa. Estar vivo está além de sentimentos, merecidos ou não.

O valor da vida pode ser entendido pelo bem próprio daquela vida levada adiante pelo indivíduo, que busca se completar, manter-se vivo, cuida de si e de outros também. Isso vale para humanos e não-humanos igualmente. Na hora de uma desgraça, obviamente, salvamos nosso bebê ou nossa progenitora, quando estamos perto. Se estivermos longe, salvamos o bebê dos outros, a mãe dos outros, o cão ou o gato que reside na casa dos outros.

Fora da desgraça poupamos sem discriminação especista elitista ou eletiva todas as vidas. Não fazemos isso porque somos superiores ou porque queremos colher glórias ou troféus (quem faz isso são os jogadores de futebol ou atletas de outras modalidades). Na modalidade ética fazemos isso porque entendemos que nossa vida tem tanto valor para nós quanto a vida de um porco tem para ele, mesmo que a vaca não entenda o que possa haver de interessante na vida de um porco. Eu também não entendo o que pode haver de interessante em muitos tipos de vida que os humanos escolhem para si. Mas respeito a vida de todos os animais, igualmente.


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