Moçambique: Abate em massa de elefantes leva a protesto em Maputo

Moçambique: Abate em massa de elefantes leva a protesto em Maputo

Realiza-se esta terça feira uma marcha em Maputo pela vida selvagem. No momento em que são abatidos, em média, seis elefantes por dia.

Maputo acolhe esta terça-feira a Marcha Nacional Pela Proteção da Vida Selvagem, que na última edição juntou 2.500 pessoas, numa altura em que se estima que seis elefantes sejam abatidos por dia em Moçambique.

Em entrevista telefónica à Lusa, Patrícia Guerra, da organização, contou que o evento de terça-feira em Maputo está associado à Marcha Mundial pela Proteção de Elefantes e Rinocerontes, que começou há oito anos quando começou a registar-se uma forte redução destas espécies devido à caça furtiva.

Iniciada em 2013, a marcha moçambicana juntou na segunda edição, em 2014 (em 2015 não se realizou), cerca de 2.500 participantes, um número que a responsável considerou “fenomenal”, mas que não impediu que o número de elefantes no país continuasse a cair.

“O que queremos não é já chamar a atenção do Governo, achamos que o Governo tem vindo a desenvolver algumas estratégias e algumas políticas na área da conservação que têm funcionado. O que se pretende é evoluir e o lema deste ano é ‘educação no combate à extinção'”, afirmou.

O objetivo é “sensibilizar a sociedade civil, a todos os níveis, desde as crianças aos adultos, dentro e fora da cidade capital, para uma educação no combate à extinção”, esclareceu.

A marcha deste ano surge meses depois de um estudo revelar, em maio, que Moçambique perdeu 48% da população de elefantes em cinco anos.

O mesmo estudo apontava que o número de elefantes em Moçambique passara de 20 mil para 10.300, sobretudo devido à caça furtiva.

“A caça furtiva em Moçambique é uma realidade difícil de controlar”, disse então à imprensa Carlos Lopes Pereira, chefe de Departamento de Fiscalização e Combate à Caça Furtiva na Administração de Áreas de Conservação.

No global, lamentou o chefe do departamento tutelado pelo Ministério da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, “Moçambique perde dois mil animais por ano”, observando que este dado revela um rácio de seis elefantes abatidos por dia.

Um novo estudo divulgado na semana passada pela União Internacional pela Conservação da Natureza (IUCN), que gere a base de dados da população do elefante africano em todo o continente, aponta que atualmente haja em Moçambique 10.800 animais, quando em 2006 haveria 14 mil elefantes no país, uma redução de 25% em 10 anos.

Contactado pela Lusa por telefone desde Joanesburgo, onde se encontrava a participar na Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Selvagens (CITES), o conservacionista moçambicano Madyo Couto disse que mais importante do que discutir os números, “fundamental é olhar para a tendência (…) e o que significa essa tendência para o animal e o habitat”.

Em Moçambique, sublinhou, a tendência tem sido para uma redução do número de elefantes, para o qual tem contribuído o norte do país, em particular a região do Niassa, que sofreu muita pressão da caça furtiva proveniente da Tanzânia.

Admitiu que tem havido uma crescente consciencialização da sociedade civil, com o elefante a surgir como o emblema da conservação da vida selvagem, e mesmo do Governo.

“Em 2014, mesmo antes dos resultados desta contagem aérea (de maio), Moçambique passou uma lei (…) para tornar mais forte a sua resposta a esta ameaça”, o que “tem estado a surtir” efeito.

No entanto, admite que o combate à caça furtiva é difícil: “estamos a falar de sindicatos organizados do crime, (…) que estão sempre três ou quatro passos à frente” da lei.

Exemplificou com o caso da África do Sul, que tem investido grandes recursos na prevenção da caça furtiva no parque Kruger, “com exército, helicópteros, ‘drones’, com muita tecnologia”, e mesmo assim todos os anos perdem mais rinocerontes.

Madyo Couto lembrou o trabalho de proteção da vida selvagem não é só da área da conservação, mas envolve a polícia, a procuradoria, a justiça e os tribunais, e deve envolver também a cooperação transnacional, porque não é um problema nacional.

Sobre a Marcha Nacional pela Proteção da Vida Selvagem, Madyo Couto afirmou a última edição demonstrou que a sociedade civil moçambicana está acordada e está interessada nos recursos.

“O interesse dos cidadãos pelos recursos que existem no país deve ser valorizado”, disse.

Fonte: TSF / mantida a grafia lusitana original

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.