Moçambique: Caçadores ilegais enriquecem perante impotência para travar o abate do rinoceronte e elefante

Celebra-se, nesta segunda-feira (22), o Dia Mundial do Rinoceronte, numa altura em que esta espécie está ameaçada de extinção devido ao abate impiedoso protagonizado pelos caçadores furtivos. Estes e os seus mandantes enriquecem fraudulentamente, lesando o Estado e a biodiversidade. Anualmente, jovens morrem à procura do dinheiro fácil e ilícito.

No primeiro semestre do ano passado, segundo António Abacar, administrador do Parque Nacional de Limpopo, pelo menos 461 rinocerontes foram mortos, dos quais 288 no Parque Nacional Kruger e os restantes no Parque Nacional de Limpopo, e foram apreendidos 26 chifres.

Os dados foram avançado esta segunda-feira num seminário sobre “caça furtiva em Moçambique”, promovido pela Procuradoria-Geral da República de Moçambique (PGR).

António Abacar disse que 280 indivíduos oriundos dos distritos de Magude e Massingir, nas províncias de Maputo e Gaza, foram presos em conexão com a caça ilegal do rinoceronte. Trata-se de um prática ilegal organizada e transnacional, através da qual redes criminosas geram para si biliões de dólares a cada ano.

De acordo com Abacar, Moçambique tornou-se um corredor de caçadores furtivos do rinoceronte e de contrabandistas de chifres e pontas de marfim. Consequentemente, para além de constituir uma ameaça para a biodiversidade, arrastou as autoridades locais para os esquemas de corrupção.

O administrador explicou ainda que a procura do marfim do elefante, do corno do rinoceronte, de animais exóticos, de alimentos, de madeiras especiais e de plantas para a medicina tradicional está a ameaçar muitas espécies de animais selvagens e culturas protegidas de extinção, facto que preocupa o Governo.

Por seu turno, Douglas Griffiths, embaixador dos Estados Unidos da América (EUA), contou que, recentemente, visitou o distrito de Massingir e o Parque Nacional do Limpopo, tendo constatado que Moçambique está a envidar esforços para a preservação do ecossistema do Parque Transfronteiriço do Grande Limpopo.

Todavia, ele ficou estupefacto ao notar que a área é também o epicentro de assaltos por parte de redes criminosas transfronteiriças. “Muitas pessoas na comunidade falaram-me das suas preocupações com o dinheiro e as armas vindas do exterior para aquela área”.

O embaixador disse ter ficado a saber igualmente de que um fiscal daquela zona protegida foi abatido no ano passado num ataque frustrado à sede do parque, onde o marfim confiscado é armazenado.

Os supostos assassinos, narrou Douglas Griffiths, ainda estão a monte, “embora muitos na comunidade saibam quem são. Da mesma forma, mandantes das redes de caça furtiva constroem casas palacianas e conduzem carros luxuosos. Os jovens que eles mandam, morrem frequentemente nessa procura de dinheiro ilícito”.

Segundo o embaixador, “o tráfico ilegal de partes de animais, da madeira, da drogas e de seres humanos rasga o tecido da sociedade. Leva frequentemente à violência e a convulsões sociais. E uma vez implantado, é muito difícil de erradicar”.

A caça furtiva, disse o diplomata, coloca em causa a soberania nacional e o Estado de Direito nos países afectados. Também roubam das comunidades as suas riquezas naturais, o património cultural, bem como potenciais ganhos do turismo.

Assim, ele apelou para que se junte forças para estancar “a criminalidade crescente em Massingir e outras vilas de Moçambique”. E anunciou que o Governo dos EUA vai investir, a nível mundial, mais de 60 milhões de dólares para estancar estes crimes.

Beatriz Buchili, Procuradora-Geral da República, reiterou que a caça furtiva constitui uma preocupação para o Estado moçambicano. É preciso formar os magistrados do Ministério Publico, as forças policiais e os outros intervenientes da sociedade em matérias de prevenção e combate à caça furtiva. Urge uma reflexão “com vista a encontrar melhores soluções para protegermos a fauna…”.

Fonte: Verdade (Moçambique) / mantida a grafia original

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