Moradora de condomínio denuncia discurso de ódio contra cachorros em MG

Moradora de condomínio denuncia discurso de ódio contra cachorros em MG

Um condomínio com centenas de residências, com amplo espaço para convivência e para caminhadas e contato com a natureza, o Condado das Lagoas, em Lagoa Santa, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, está muito perto do que a Elisa* considerava o ideal de moradia. Dentro do local há, até mesmo, uma área de preservação permanente (APP) que conserva a vegetação nativa e atrai animais diversos. Ocasionalmente, raposas passam por ali. 

Tudo parecia tranquilo e harmonioso até que, neste sábado,12, uma condômina deixou que seu cachorro de estimação fugisse, sendo atacada por ele ao tentar capturá-lo. O fato, que parecia perto de ser resolvido quando agentes da vigilância sanitária foram chamados, reverberou em uma raivosa discussão virtual em defesa do uso da violência contra cães soltos.

Ao procurar O TEMPO para denunciar o episódio, Elisa, que preferiu ter sua identidade preservada por medo de represálias, relatou que o entrevero aconteceu em um grupo de WhatsApp depois de um cachorro fugir e morder a própria dona. Então, veio o comunicado informando para que todos deveriam permanecer em suas casas até que a gerência de apreensão de animais retirasse o cachorro do lugar, restabelecendo a ordem.

Tudo parecia encaminhado até que um dos diretores do condomínio começou a proferir o que Elisa classifica como “discurso de ódio contra os animais”. “Ele disse que, se estivesse armado e visse o cachorro solto, atirava para matar e que vai passar a andar com cassetete dentro do carro. Ele falou que mataria, que daria pauladas, que ia meter bala, que não ia esperar para ver se o cachorro é manso ou não”, conta. 

Em um áudio encaminha à reportagem é possível ouvi-lo defender o extermínio dos animais que estivessem sem seus tutores: “Se eu estou armado, se eu to armado com porrete (ou) com arma de fogo… Eu abro fogo, eu abro fogo. Ninguém suporta isso mais não. Chega de cachorro na rua, chega de cachorro avançando nas pessoas, chega de cachorro… A gente dentro de casa com medo de cachorro. Tem senhores, tem crianças na rua. O condomínio foi feito para ficar livre, não foi feito para ficar sujeitando (sic) a animal solto na rua não” .

A moradora, indignada, sustenta que tratava-se de uma retórica que incentivava a agressão fundamentalmente contra cães e soava a ameaça. De acordo com ela, aliás, não é o primeiro caso de violência contra animais no lugar: já teria ocorrido um episódio em que um morador agrediu um cachorro com um cabo de vassoura. A história foi trazida à tona pelo próprio membro da diretoria: “Outro dia alguém fez drama, reclamos (sic) porque um morador, andou com porrete nas mãos e se defendeu de um ataque de um cão manso”, escreveu em uma mensagem no WhatsApp a que a reportagem teve acesso.

“Isto é um absurdo! Este cão hoje, se tivesse armado, passava fogo nele para me defender. Nós temos direito a ser livres e andar no Condado sem medo”, completou. Em outra mensagem, inteirou: “Cuidem de seus cães presos em vossas casas, este meu conselho. Não quero andar de protege na mão quando for caminhar”.

“É estarrecedor um diretor de um condomínio ter esse tipo de discurso. Entendemos o medo, mas não é esse o comportamento esperado e isso não é aceitável”, reclama, dizendo que, ao defender um condomínio em que os moradores possam viver em tranquilidade, o tom da conversa causa outra sensação: a de medo. “As pessoas aqui andam com seus cães tomando todos os cuidados, com coleira, com focinheira… Mas, agora, as pessoas estão temerosas de passear com seus animais”, garante. Pior: mesmo em casa, há receio de ataques: “Depois de tudo que li e ouvi, eu tenho medo que façam algo contra meus cães, que ficam dentro de casa. Mas, como temos portões baixos, pois estamos em um condomínio, fica o receio de jogarem comida com veneno nas casas…”.

Elisa narra que, no grupo, houve quem reagisse àquela retórica. A conversa, rapidamente, tornou-se uma pouco efetiva discussão virtual. “Algumas pessoas tentavam acalmar os ânimos, falar sobre a importância de proteger a todos, falando que a violência não era esse o caminho. E ele (reagia) dizendo que era ‘mimimi’. A gente entende o medo, medo de ataque contra crianças… É algo legítimo. Mas não é esse o caminho”, diz.

Além de denunciar o episódio a O TEMPO, ela procurou ajuda de protetores de animais e entrou em contato com parlamentares ligados à causa, como os deputados estaduais Fred Costa (PEN) e Noraldino Junior (PSC).

A condômina também detalha não ter feito registro de ocorrência junto à polícia. “Não quero deixar o caso ainda mais grave dentro do condomínio”, pontua. No entanto, ressalta que pelo menos mais um membro da diretoria concordou com aquele discurso, não completamente e tampouco na mesma intensidade. “Um deles disse que não saberia como reagiria, que poderia reagir assim (matando o animal)”, observa.

O que diz o suspeito

O suspeito de ameaçar os animais disse que não é contra os animais e que nem quer exterminá-los e que a intenção é que as pessoas cuidem de seus animais. “Aconteceu que uma pessoa foi atacada por um cachorro, foi para o hospital, nós acudimos. Nós estamos pedindo que as pessoas cuidem dos cachorros, ninguém está atacando cachorro não.  Se o animal vier para cima é  para se defender, mas não tem nada disso de agredir ou atacar”. 

Ele disse que muitas crianças e idosos caminham no condomínio e se torna um perigo para os animais. “Aqui tem pista de caminhada, tem cachorros que andam livres, tem idosos que andam livres. E esses cachorros atacam essas pessoas, então o que estamos fazendo é orientando as pessoas a saírem com os cachorros com a coleira, só isso”. 

Segundo ele, a orientação de abater os animais é só em caso de autodefesa. “Se o cachorro vier para cima da gente, como aconteceu com a senhora, ai é se defender, em sentido de autodefesa apenas, de não deixar o carrocho te matar”, concluiu. 

Por Alex Bessas (Com Natália Oliveira)

Fonte: O Tempo

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