Moradora do Monte Cabrão, em Santos (SP), denuncia ‘desova’ de cães no local

Moradora do Monte Cabrão, em Santos (SP), denuncia ‘desova’ de cães no local
Ladi abriga em sua casa 33 cães resgatados no bairro. O trabalho de socorrista começou há quatro anos, quando avistou uma cadela paraplégica abandonada na estrada (Foto: Rodrigo Montaldi/DL)

Há quatro anos, Ladi Marina Ribeiro, de 53 anos, avistou na Rodovia Rio-Santos um animal se arrastando pela pista. Ao se aproximar percebeu que se tratava de uma cadela prenha que não movia as patas traseiras.

“Eu não sei nem falar o que senti. Como alguém abandona um animal naquela condição? O asfalto quente, a cadela sem conseguir andar. Carreguei até minha casa, cuidei e ela melhorou. Acho que a abandonaram porque ela é paraplégica”, conta. A cadelinha ganhou um nome que pode ser interpretado ao pé da letra: Socorro, que hoje está bem e saudável, mesmo com suas limitações.

Desde o episódio, Ladi, moradora do bairro Monte Cabrão, Área Continental de Santos, não conseguiu mais fechar os olhos para a constante desova de animais na região. “Aqui sempre foi um lugar onde as pessoas largam os bichinhos. Eles ficam perdidos pela  rodovia ou na entrada do bairro. Eu pego e levo para casa, mas não tenho mais como continuar fazendo isso porque não cabe mais nenhum”, afirma.

A casa de Ladi abriga atualmente 33 cães, além da família de seis pessoas. Para tentar aliviar a situação, ela montou uma página no Facebook para contar a história de cada animal e assim, buscar pessoas interessadas em adotá-los.

Há dois anos, a internet lhe trouxe Olga Vitória Regis, a moça que ela chama de anjo. “Graças a Olga eu consigo alimentar e tratar dos cachorros até hoje”, explica.

Ajuda

Assim que a Reportagem chegou ao local, encontrou uma mulher parada em uma moto abastecida de rações e produtos para cães. Era Olga. Ela contou que já realizava esse trabalho em outros lugares e desde que conheceu a situação da desova que ocorre no bairro, procurou Ladi e passou a lhe visitar semanalmente.

Desempregada, moradora da Ponta da Praia, em Santos, e sem transporte adequado para levar os alimentos e remédios que recolhe, dá um jeito de amarrar tudo na moto mesmo para que nada falte aos animais.

“Eu consigo realizar esse trabalho através de doações. Compartilho no Facebook, falo com amigos e trago tudo o que posso”, afirma Olga, que age sem nenhum tipo de apoio fixo. “Viu como ela me ajuda?”, fala Ladi.

Olga conta que a situação no bairro é crítica e que acredita que o abandono de cães aumentou porque as pessoas sabem que elas cuidam, porém alerta que estão sem recursos e sem estrutura adequada. “A gente não sabe quem abandona, mas supomos que sejam pessoas dos bairros ao redor. Não estamos mais dando conta porque faltam remédios, comida, produtos de limpeza. Precisamos de ajuda”, detalha.

Processo

Quando os animais são encontrados, é Olga quem realiza os primeiros procedimentos, como levar ao veterinário, vermifugar e castrar. Após o tratamento, eles voltam para a casa de Ladi, onde aguardam por pessoas que queiram adotá-los.

O maior problema, segundo ela, é que os cães deixados para trás, geralmente, não são os perfis procurados por quem adota. “Não são cachorros de raça, então as pessoas não se interessam”, explica.

Fiscalização

De acordo com Olga, falta fiscalização por parte da Prefeitura, já que alguns são vítimas de maus-tratos pelos próprios moradores. Mesmo denunciando os casos à Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semam), ela alega que nada foi feito nem mesmo fiscais foram verificar os locais indicados.

Também cita que não há um levantamento de quantos animais existem no bairro, o que prejudica o controle. “O ideal seriam campanhas de conscientização com a população para esclarecer o que está acontecendo e as penalizações”, declara.

Cachorros

Não é tarefa muito fácil para Ladi lembrar o nome dos 33 cachorros que cuida, mas, ela conta da Princesa, a cadela que adora chocolate. Também tem a Madona, pelo charme, o Amarelo, encontrado quase sem vida devido à sarna e vermes, mas que se recuperou tão bem que está até “gordo demais”, segundo ela.

O perninha, resgatado dentro de uma caçamba de lixo com metade do rabo cortado. Recuperado, só transparece a lembrança da maldade sofrida no passado ao mostrar a cauda amputada. Pé de pano, Minie, Kiko, Susi, Chokito, Biscoito, Canelinha, Mel, Roberto, Lola e ainda faltam.

Para cuidar de todos, Ladi conta com a ajuda da neta de 11 anos, Sarah Koschinky. Quando a avó adoeceu e precisou ficar de repouso por 15 dias, foi ela quem tomou a frente dos trabalhos e cuidou de tudo. “Lavo quintal, dou comida, passo remédio, tiro carrapato. Eu amo os cachorros, meu sonho é ser veterinária”, diz ela, que além da paixão pelos bichos, ama fotografia.

Como a casa fica em frente à maré, não é difícil treinar o olhar de artista.  “Gosto de fotografar as paisagens que vejo aqui e meu cachorros, lógico”, afirma Sarah.

Ajuda

Enquanto aguardam interessados em adotar os cães ou a promessa política de um local para abrigá-los, Ladi e Olga precisam de doação de ração, medicamentos e produtos de limpeza. “Um saco de ração de 15 Kg dura três dias. Cloro, panos de chão, desinfetante, acabam muito rápido”, explica Ladi.

Quem quiser ajudar pode procurá-las no Facebook: Ladi Ribeiro ou Jay Barbôsa ou através do e-mail: olga_vitoria81@hotmail.com.

Prefeitura

Em nota, a prefeitura reconhece a desova de animais nos bairros da Área Continental, mas informa que isso acontece por se tratar de bairros próximos às rodovias.

Explica que o bairro de Caruara conta com atendimento veterinário (incluindo Monte Cabrão e Iriri) há pouco mais de um ano. Há também o castramóvel que visita os bairros uma vez por mês.

Quanto ao pedido de um terreno maior para o acolhimento dos animais de rua feito por uma moradora do bairro, a prefeitura destaca que não há possibilidade de cessão de área para entidade particular.

Por Vanessa Pimental 

Fonte: Diário do Litoral 

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