Morte animal

Em outros textos desta coluna defino animal como todo ser que ao nascer é cortado de sua fonte de suprimentos e para sobreviver precisa aprender a interagir no ambiente natural e social de modo a obter o alimento e os nutrientes necessários e específicos para seu organismo. O corte do suprimento torna o animal um ser vivo livre. O movimento e a expressão passam a ser, então, a forma pela qual o neonato obtém o que precisa. Ou ele se move e vai em busca do alimento, orientado pela imagem de seus progenitores, ou ele expressa o desconforto da fome e obtém de sua progenitora (no caso dos mamíferos) o leite que o sustentará em vida até poder coordenar a mastigação de matérias mais densas.

A liberdade, na condição animal, é ao mesmo tempo dor e delícia. Essa mesma liberdade, por outro lado, é também fonte de sofrimento. Estar vivo num corpo que precisa deslocar-se para obter o que é necessário implica ser ao mesmo tempo dotado de uma mente capaz de diferenciar o que é bom do que não é. Essa diferenciação requer mecanismos refinados, na área cerebral, para que os estímulos dolorosos sejam interpretados como avisos de que o corpo está num lugar hostil à sobrevivência. A dor é inerente à vida, porque a cada movimento gastamos energia, e o que é queimado imediatamente produz um aviso para que tratemos de repor o que foi consumido. Assim, sentimos fome, sede, cansaço, medo.

Quando o corpo é jogado fora do espaço no qual encontra conforto, esse deslocamento causa dor. Estar consciente do que ocorre ao corpo é a condição para sentir dor quando ele é ferido. Sentir dor, portanto, é a forma pela qual o indivíduo pode saber de si, saber que algo está errado. A cada movimento em falso se produz dor. A cada arremetida do corpo para fora do espaço que ocupa, se sente a dor. Arrastado pela correnteza, sufocado pela lama, esmagado pelos escombros, arremetido pela força dos ventos ou de outros objetos deslocando-se no espaço onde se encontra, todo animal sente dor. Quanto maior o impacto sobre seu corpo e maior a consciência de que não tem como escapar, mais terrível a dor, pois, além dos ferimentos no corpo, há o abalo na mente, quando esta entra em choque por não encontrar uma hipótese para escapar do impacto.

Nas cidades e nos campos, todos os dias, animais humanos e não humanos vivem buscando ajeitar-se no espaço físico, social e emocional de modo a não produzirem dor e a não serem acometidos por ela. Quando ocorrem catástrofes nas quais os humanos são arrastados, soterrados, sufocados, afogados, queimados e feridos em meio aos destroços de suas casas e edificações, das avalanches de lama ou simplesmente da correnteza ou do fogo, junto com eles estão milhares de animais de outras espécies. Todos, com distinção apenas do modo específico pelo qual as experiências configuram suas mentes, possuem uma mente que lhes permite saber que a força que os arrasta pode arrasar seus corpos. Todos, sem exceção, sofrem o horror da ameaça física. Todos sentem que algo avassalador empurra seus corpos para fora da vida.

Buscar salvar os animais não humanos, em caso de catástrofes ou mesmo em casos de ameaça cotidianos, é da mesma ordem ética do salvamento de humanos.  Isso o fazem todos os que têm em sua companhia outro animal com o qual partilham suas alegrias e dores da existência na condição de terem nascido num organismo livre da matéria que o supre, um organismo obrigado pela lei natural a buscar a matéria na qual os nutrientes que o mantêm vivo se encontram.

As estatísticas contabilizam até agora o número de mortos humanos na catástrofe que se abateu sobre a serra carioca. Se chega a mil o número de humanos mortos, a quanto chegou o número de não humanos soterrados?

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


{article 105}{text}{/article}

Olhar Animal – www.olharanimal.org


Os comentários abaixo não expressam a opinião do Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.