Mudando a direção: De esposa de criador de gado para proprietária de santuário animal

Mudando a direção: De esposa de criador de gado para proprietária de santuário animal

Por Jéssica Ramos / Tradução de Aline Lacerda

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Esta é uma história de amor épica. E é também uma história sobre Renee King-Sonnen estender esse amor aos animais que ela – como a esposa de um criador de gado – foi indiretamente responsável pelo abate e exploração.

“Mamães-vaca corriam atrás do trailer” que levava seus bezerros embora

Como qualquer boa história de amor, precisamos saber como Renee King-Sonnen e seu marido, Tommy Sonnen, se conheceram. Há seis anos, a carreira de Renee como cantora e compositora fez com que ela e Tommy estivessem na mesma boate, diz o My Vegan Heart Blog. Nem é preciso dizer que Renee foi como música para os ouvidos de Tommy. O romance floresceu e Renee abandonou a cena noturna para novas pastagens: uma fazenda de gado de 96 hectares em Angleton, Texas, Estados Unidos, pois o homem pelo qual ela havia se apaixonado era da quarta geração de uma família de pecuaristas.

Renee admitiu ao Public News Service que ela estava um pouco receosa com relação ao gado no início, mas que começou a mudar sua atitude conforme foi conhecendo os animais e suas personalidades únicas. Ela cantava para eles, dançava ao seu redor e, mais que isso, passou a lhes dar nomes, conforme diz o My Vegan Heart Blog. Renee tinha se apaixonado novamente.

Era uma situação realmente maravilhosa. Mas a chegada do primeiro caminhão-reboque para recolher os bezerros mudou tudo. Como uma consumidora de produtos de origem animal, aquilo ainda surpreendeu Renee. Conforme ela explica ao Public News Service, “Mamães-vaca corriam atrás do trailer. Aquilo acabou comigo. Elas gritaram durante uma semana ou mais, todas, e eu fiquei me sentindo muito, muito mal.” Renee entrou em um sério conflito interno, mas sua compaixão e empatia emergiram. Então, quando o próximo caminhão-reboque chegou, ela não podia deixá-lo levar os bebês.

Mas agora o que ela iria fazer com as vacas?

Com a bênção de seu marido, a ideia de transformar o rancho da família em Rowdy Girl Sanctuary – um santuário animal sem fins lucrativos – nasceu. Em sua página na campanha de angariação de fundos, o chamado “crowdfunding”, no Indiegogo para a primeira fase do Rowdy Girl Sanctuary, Renee planeja salvar mais de 29 dos animais de Tommy; ele concordou em vendê-los a ela por 30mil dólares. E ela estima que ainda precisará de mais 5mi dólares para despesas gerais. Ela, atualmente, já levantou 13.143 dólares da sua meta de 35mil.

Além do nascimento do santuário, Renee também iniciou uma revolução pessoal: ela decidiu se tornar vegana. Sua experiência pessoal em presenciar o sofrimento de uma vaca com seu bezerro, juntamente com documentários assistidos, lhe ajudou na transformação. Como ela disse ao Public News Service: “Quer dizer, eu tive que ver, eu tive que testemunhar aquilo. Eu tinha que perceber que eu não podia fazer carinho no meu cachorro e no meu gato, e comer meu frango. Ser vegana mudou a minha alma.” Ela diz que agora vê os animais como indivíduos “com quem eu partilho o planeta”.

Alguém, não algo.

E parece que seu marido Tommy está passando por uma revolução similar. Sobre um post de 22 de fevereiro de 2015 na página do Facebook do Vegan Journal of a Rancher’s Wife com a imagem de duas vacas que se consolam momentos antes do abate, Renee escreve:

“Isso me fez chorar muito. Simplesmente não suporto isso! Estou muito feliz porque meu marido e eu já não participamos mais dessa indústria horrível. Estou muito feliz que eu sou vegana, e ele agora é vegetariano, e caminha cada vez mais em direção a uma dieta vegana por completo. Abençoado seja seu coração. Eu amo o coração dele por ele ser tão disposto a mudar, a trilhar este caminho comigo – Eu nunca poderia ser parte desta indústria, nunca, nunca mais!”

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Três ex-fazendeiros cultivando compaixão

Mas o amor romântico não é necessário para haver compaixão, bondade e empatia para encher a alma. Felizmente, estamos vendo ainda mais agricultores fazendo mudanças semelhantes.

Howard Lyman, outro pecuarista de quarta geração, de Montana, agora fala contra a indústria em diversos meios de comunicação, incluindo uma entrevista para o documentário Cowspiracy. Ele é o “Mad Cowboy” que não come carne.

Don Webb, ex-proprietário de uma fazenda de porcos, explica que saiu do negócio porque “eu simplesmente não posso impor isso a outra pessoa, fazê-la lidar com o cheiro de fezes e urina de suínos.” Talvez Webb não tenha sido movido pelo amor aos animais, mas ele sabia que a expor seus vizinhos a resíduos tóxicos que cheiravam mal e os deixavam doentes era errado, mostrando-nos como os direitos dos animais também são uma questão relacionada à justiça social.

Bob Cumis, outro proprietário de fazenda de porcos, também relutou em explorar seus 500 porcos. Cumis tem uma abordagem peculiar, e nos propiciou entrar na mente de um criador de porcos neste e neste post. Foi um ato muito honesto, corajoso e vulnerável partilhar suas verdades. Ele também trilhou seu caminho para fora de criação de porcos e, então, começou com o cultivo de hortaliças. E agora se tornou vegetariano.

Em uma de suas postagens em The Dodo, Cumis escreveu: “Quando iniciei a lida com os porcos, eu era um desastre ambulante, um trem desgovernado de depressão e ansiedade. Viver com os porcos, conhecê-los a ponto de agora falar “porquês”, me curou.” E ele também escreveu: “Devo me absolver, de alguma maneira, honrando suas mortes? Não. Eu não mereço absolvição pelo que eu fiz, nem pelo que vou continuar a fazer por mais um ano.”

Fonte: Care 2

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