“Na Espanha se naturalizou o maltrato animal”

“Na Espanha se naturalizou o maltrato animal”

Mercedes San José é a única conselheira de Tordesilhas que votou contra a mudança constitucional da proibição da morte no Toro de La Vega. A representante de Tordesilhas defende uma consulta popular: “Provavelmente haveria alteração no sentido de eliminar a morte”. “Tordesilhas se converteu em um ícone de maltrato animal e isto não lhe deixa crescer”.

Tradução de Nelson Paim

Mercedes San José é a única conselheira do município de Tordesilhas (Valladolid) que respalda o decreto de lei que proíbe desde junho matar publicamente ao touro do torneio de la Vega. A prefeita de Toma la Palabra não apoiou o recurso que o município apresentou ao tribunal constitucional para conseguir que o ritual termine em uma estocada mortífera ao touro.

San José se diz surpreendida por ver-se nesta confusão. “ Se me dizem que fazem dois anos não acredito”. A conselheira chegou à política pela via social: “Sou filha de preferentistas e passamos dois anos na porta do banco”, mas agora tem que justificar sua postura contra maltrato animal quando Tordesilhas deve decidir se celebra ou não o festejo adaptando-o a nova lei.

Que posições defendem com relação ao Toro de La Veja?

Tordesilhas Toma La Palabra apostou que o Toro de La Veja se celebre sem ser um sacrifício cruel de tal maneira que ao touro não se mate. Adotamos esta postura em uma assembleia e a decisão finalmente foi celebrar o torneio de uma forma evoluída.

Acreditamos que estamos frente a uma revolução intelectual onde a intolerância contra o maltrato animal está crescendo e Tordesilhas se converteu desgraçadamente no ícone do maltrato. Isto tem levado a uma série de problemas para o município que não lhe deixam crescer nem expandir a riqueza e o potencial que possui.

Há divisão social no município?

É um tema muito controverso na cidade, mas entre os vizinhos de Tordesilhas se geraram os mesmos enfrentamentos que podem gerar em Madri quando se celebra a Feira de San Isidro. Em uma cidade, evidentemente, o tema está mais destacado porque todos nos conhecemos. Mas, salvo raras exceções, isto não resulta em problemas de convivência. Somos uma sociedade diversa como qualquer outra, a mim dá pena que Tordesilhas se conheça por isto. Aqui iniciou o modernismo, temos muito potencial humano, artístico, histórico e cultural que merece cuidado e isto ninguém conhece.  

Qual a sua proposta?

Nós havíamos planejado que fosse feito um referendo. E que fossem dadas informações e fossem postos todos os pontos de vista: pró taurinos, anti taurinos, veterinários especializados, etc.

Nossa proposta era de colocar na mesa, com serenidade os prós e os contras deste evento. Sem dúvida não encontrei nenhum apoio no município. O prefeito me disse que queria fazer um referendo, mas não se levou nunca adiante. Agora nos encontramos com o decreto da comissão de Castilha y León e já é tarde para poder perguntar ao povo. Me dói muito o que nos impuseram porque Tordesilhas tinha uma oportunidade de deixar para trás sua má fama.

Tem recebido pressões de corporações ou outros coletivos da cidade?

Não, ao menos não diretamente. Em um dado momento sempre há pessoas mais radicais e o enfrentamento se faz mais forte, mas eu não enfrento, é um desgaste inútil.

Tem aumentado, desde o exterior, a pressão sobre o que está se passando em Tordesilhas?

Tem-se exagerado bastante. A Tordesilhas tem feito um dano que não o merece. A imagem do município piorou muitíssimo. Os tordesilhanos têm sido muito atacados. Lhes telefonam tarde da noite. Tem recebido ameaças… Tudo isto tem levado a esta reação dos moradores. Sem dúvida, a pressão desde o exterior tem feito que as pessoas se mantenham em uma postura, não tanto para defender a tradição senão para rechaçar esta pressão externa.

Mas também há uma parte da população que defende esta tradição

O tema do touro é sociológico e antropológico. Quando uma pessoa está acostumada a uma tradição lhe resulta estranho que alguém venha querer acabar. Estas pessoas pensam: “É a tradição, é o que temos visto toda a vida, vão retirar tudo de nosso”. Se a isto somar as ameaças e os insultos, evidentemente se cria uma consciência de grupo. De sentir-se atacado.  

É Tordesilhas o centro de um problema mais amplo?

O Touro de La Veja poderá ser o torneio mais sangrento, mas não o mais cruel. O maltrato animal, não somente dentro da tauromaquia, senão a todos os níveis, é demasiadamente tolerado neste país. Se nós avaliarmos, a Europa tem um atraso de 40 anos com relação a outros países. Neste momento os animais são utilizados para o serviço do homem, o que é lógico até certo ponto, mas tudo evolui tudo muda e estas necessidades também.

Fonte: El Diario

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