Namíbia está capturando elefantes selvagens para venda internacional

Namíbia está capturando elefantes selvagens para venda internacional
Quarenta e dois elefantes selvagens na Namíbia foram vendidos para licitantes internacionais, mas o destino dos animais ainda não foi divulgado. Cerca da metade foi capturada até agora, com dois filhotes nascidos em cativeiro desde então. Esta mãe e o bebê foram fotografados na Namíbia há três anos. FOTO DE WOLFGANG KAEHLER/LIGHTROCKET VIA GETTY IMAGES

O Ministério do Meio Ambiente, Silvicultura e Turismo da Namíbia anunciou que o governo está em processo de capturar 57 elefantes selvagens vendidos no ano passado em um leilão internacional.

Para consternação de grupos ambientais e defensores dos elefantes, a Namíbia havia anunciado em dezembro de 2020 que leiloaria 170 dos seus elefantes para reduzir a população da espécie, que está tendo cada vez mais encontros violentos com os humanos. As autoridades dizem que o país tem cerca de 24 mil elefantes.

Em agosto do ano passado, o ministério publicou o seu primeiro, e até agora o único, relatório público sobre o assunto. O comunicado disse que os 57 elefantes, que ainda não haviam sido capturados, tinham sido “vendidos com sucesso” a três licitantes. Quinze animais permaneceriam na Namíbia e 42 seriam exportados.

Cerca de 37 elefantes já foram capturados, diz o novo comunicado, incluindo 22 para exportação. O documento, porém, não informa nada sobre o destino desses mamíferos, exceto que não irão para a China.

A venda dos elefantes selvagens da Namíbia gerou uma polêmica internacional

O governo da Namíbia “não pode dar detalhes [do destino] neste momento até que todo o processo seja concluído”, diz o porta-voz do Ministério do Meio Ambiente, Floresta e Turismo, Romeo Muyunda. “Esta é uma cláusula no contrato de venda que assinamos com os licitantes.”

Vender elefantes selvagens em cativeiro tem sido, desde sempre, um assunto controverso. Por um lado, porque existe um debate sobre se animais tão móveis e inteligentes podem ter vidas satisfatórias em cativeiro. Em segundo lugar, porque separar os integrantes de uma manada prejudica as relações entre os membros das famílias.

“Os elefantes têm necessidades básicas como viver em ambientes ecológicos e sociais estimulantes ou escolher as suas opções e os seus companheiros na busca de alimentos. Essas necessidades não podem ser atendidas em condições de cativeiro”, denuncia Michele Pickover, diretora da Fundação EMS, com sede na África do Sul.

Essa é uma organização sem fins lucrativos que se preocupa tanto com pessoas vulneráveis, como com o bem-estar dos animais. “Não há um ‘problema’ de superpopulação de elefantes na Namíbia. Na nossa opinião, isso tudo é sobre lucro”.

Em 12 de fevereiro de 2022, o jornalista namibiano John Grobler e um amigo fizeram registraram esta fazenda onde 22 elefantes selvagens aguardam pelo processo de exportação. FOTO DE JOHN GROBLER
Em 12 de fevereiro de 2022, o jornalista namibiano John Grobler e um amigo fizeram registraram esta fazenda onde 22 elefantes selvagens aguardam pelo processo de exportação. FOTO DE JOHN GROBLER

Um jornalista, um drone e uma manada de elefantes selvagens encurralados

O aviso do leilão de dezembro de 2020, na Namíbia, dizia que os elefantes seriam vendidos em manada e que não separariam as famílias. Os filhotes são visíveis nas imagens tiradas por um drone na fazenda onde os 22 elefantes capturados estão sendo mantidos para serem exportados

O jornalista namibiano John Grobler gravou um vídeo no dia 12 de fevereiro. Ele se preocupa que haja elefantas grávidas e que o estresse do cativeiro possa desencadear partos prematuros.

“Filmamos manadas de elefantes”, diz Muyunda, e “é possível que algumas elefantas estivessem grávidas”. Ele confirmou que dois bebês nasceram depois que os elefantes foram retirados da natureza e afirmou que “estão bem”.

Grobler foi acusado de supostamente invadir a fazenda, o que levou o ministério a emitir a declaração com o fim de “esclarecer o estado atual dos leilões”, confirma Muyunda. Grobler disse que estava em uma estrada pública quando enviou o seu drone para monitorar os elefantes. O dono da fazenda, G. H. Odendaal, recusou-se a comentar sobre o caso para esta reportagem.

É possível exportar elefantes selvagens na Namíbia?

Está sendo debatido se a Namíbia pode, efetivamente, exportar elefantes selvagens para um zoológico estrangeiro ou para um outro comprador fora da região sul da África.

O Tratado Internacional da Vida Selvagem (Cites, na sigla em inglês), que regulamenta a exportação de elefantes africanos selvagens, foi alterado em 2019 para evitar que elefantes em Botsuana, Zimbábue, Namíbia e África do Sul sejam exportados para qualquer país onde os animais não habitam ou tenham habitado antes de maneira natural, a menos que haja um benefício comprovado de conservação.

Isso quase certamente exclui as vendas para zoológicos na China e nos Estados Unidos, por exemplo.

Dan Ashe, presidente e CEO da Associação de Zoológicos e Aquários (AZA) dos Estados Unidos, disse em um correio eletrônico do dia 14 de fevereiro, que a associação desconhece qualquer envolvimento de seus membros no leilão de elefantes da Namíbia.

“Compartilhamos a preocupação com a falta de transparência em torno dessa iniciativa”, expressou Ashe. No entanto, acrescentou que os membros “não são obrigados a informar a AZA sobre possíveis importações de animais”.

O que vai acontecer com os elefantes da Namíbia?

Em outubro de 2021, o Serviço de Pesca e Vida Selvagem dos Estados Unidos se recusou a comentar se alguma instalação nesse país havia solicitado licenças de importação para elefantes da Namíbia.

A National Geographic apresentou nos Estados Unidos um pedido de acordo com a Lei de Liberdade de Acesso à Informação em 4 de outubro para conhecer todos os pedidos de licença potencialmente relacionados com este caso, mas não recebeu resposta nenhuma.

Depois da publicação original desta reportagem em NatGeo.com, em 15 de fevereiro, o organismo governamental responsável contatou a National Geographic para dizer que não há registros de inscrições, eliminando os zoológicos dos Estados Unidos como possíveis destinos para esses elefantes.

“As autoridades da Namíbia deveriam ouvir os especialistas internacionais em elefantes e cancelar essas exportações desastrosas antes que seja tarde demais”, adverte Mark Jones, que dirige as políticas da Fundação Born Free, um grupo baseado no Reino Unido que se opõe a tirar qualquer animal da natureza.

As exportações de elefantes da Namíbia serão discutidas no próximo mês em uma reunião da Cites agendada em Lyon, França.

Por Dina Fine Maron

Fonte: National Geographic

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