Namorados: animais emocionados

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe   

Dedico essa coluna de hoje a todos os enamorados. Lendo com atenção, pode ser de grande ajuda para manter o vínculo amoroso com esse outro animal de quem se enamorou.

Na afobação que caracteriza nossa atividade mental, recebemos muitas informações sobre a qualidade e a perda de qualidade de vida em função do prazer e da dor, respectivamente. O prazer e a dor são duas experiências que configuram a existência de animais dotados de sensibilidade e consciência, portanto, animais sencientes. São experiências possíveis em função da organização do sistema nervoso central.

Entretanto, ao nos referirmos à dor ou ao prazer como critérios para julgar a qualidade da vida animal, humana e não-humana, precisamos também lembrar que, tanto a dor quanto o prazer deixam marcas na mente do animal. Essas marcas são causadas pela emoção que acompanha a dor ou o prazer. As emoções vinculadas a essas experiências neuro-mentais, por sua vez, não são qualificáveis de fora para dentro, isto é, passíveis de serem descritas, distinguidas conceitualmente, ou medidas, por alguém que não seja o próprio sujeito emocional.

Por que isso não é possível? Porque, embora o aparato neuro-sensorial que alerta o sujeito senciente sobre a existência de algo que está a ferir seu organismo seja constituído de modo semelhante em cada animal de cada espécie senciente, e a dor seja também semelhante, do ponto de vista puramente neurológico, a marca dessa dor naquele sujeito em particular não é igual às marcas daquele tipo de dor em outro sujeito. Isso deve-se ao fato de que cada dor sentida se faz acompanhar de um registro, uma memória dessa mesma dor no cérebro e na mente do sujeito dorente e sofrente.

Ao marcar a dor, o cérebro usa circuitos neuronais semelhantes em todos os animais de uma dada espécie. Mas, a teia do registro dessa dor é única em cada indivíduo. Essa individualidade faz com que animais de uma mesma espécie possam reagir de modo distinto a eventos dolorosos da mesma espécie, semelhante ao que ocorre com os humanos. Há quem fique irritado quando sente dor. Há quem deprima. Há quem grite e estrebuche. Há quem se encolha e fique no cantinho. Há quem fale agressivamente com as pessoas que estão prestando ajuda na dor. Há quem agradeça gentilmente, a ajuda. Essas diferenças devem-se especialmente à bagagem (ou memória dorente) na mente desse indivíduo, relacionada a dores sofridas ou presenciadas, desde a mais remota memória. O indivíduo reage não apenas à dor do momento presente. Seu cérebro gravou circuitos neuro-neurais próprios para instruir o sujeito a reagir quando sente dor. Ele reage então a todas as dores sofridas. E reage com maior força caso tenham sido mais fortes as emoções que marcaram a gravação das dores passadas.

Se na memória de um animal está registrada uma passagem de dor para a qual não recebeu ajuda, esse animal vai memorizar uma teia de reações fisiológicas e emocionais que espelham não apenas a dor que ficou sem ajuda, mas também as emoções desencadeadas então como consequência daquele desamparo. Se a dor e o abandono, associados, levaram a desdobramentos existenciais ainda mais dolorosos, no passado, essa dor ficou gravada naquela mente em toda a teia que inclui desdobramentos. No presente, caso o indivíduo sofra algo que se assemelhe à dor sofrida no passado, ele não sofrerá apenas essa dor atual. Ele sofrerá todas as dores causadas pelas marcas daquela dor primeira em sua mente. Isso não é sofrimento por antecipação, o que caracteriza a ansiedade. É sofrimento por ressuscitação da memória senciente. E ninguém faz tudo isso vir à tona por gosto. O cérebro desembrulha o pacote, cumprindo sua função de nos manter alerta e conscientes de tudo o que possa nos ameaçar mais uma vez, outra vez.

Quando interagimos com animais, humanos e não-humanos, precisamos ter em mente a vulnerabilidade de suas mentes, de sua teia emocional. Se, para um animal, ter a cauda levemente pisada pode não representar sofrimento, para outro, que teve sua cauda pisada rotineiramente como forma de punição por não fazer algo de acordo com a expectativa humana, o leve pisar na cauda desencadeia a projeção das imagens de todo seu sofrimento anterior, agregando esse desconforto atual à sensação de desconforto de ter sua cauda pisada, no passado, e das imagens de tudo o mais que seguia a rotina interativa dolorosa depois da pisada na cauda. O mesmo ocorre aos humanos. Basta observarmos a expressão corporal das pessoas quando estão ouvindo uma crítica. Há quem fique com os ombros encolhidos, a face inclinada para o peito, como se, junto com as palavras ouvidas, fosse norma receber também pancadas.

O sofrimento animal, portanto, não se resume ao desconforto causado por algum elemento ambiental ou social menos gentil. Estamos o tempo todo sujeitos a esses estímulos não prazerosos, e eles não constituem fonte de sofrimento. O sofrimento animal resulta do acúmulo de sensações desagradáveis que não puderam ser diluídas pela gentileza de um tratamento adequado para minimizar aquela dor. Em outras palavras, o sofrimento não é uma experiência puramente física. É uma experiência mental, emocional, algo que abala o espírito animal, tira-o da estabilidade, dilacera. Podemos sofrer com coisas muito pequenas, que, para os outros, não representam fonte alguma de mal-estar. Podemos resistir sem sofrimento a uma dor muito forte que causa imenso sofrimento a outra pessoa. Tudo depende da bagagem emocional, da saúde do espírito do ser dorente. Se esse espírito foi dilacerado nas dores passadas, estará muito frágil para suportar as dores presentes. A imagem dessas dores presentes aflorará carregada da memória das dores desamparadas passadas. Ela é o arquivo onde ficam registradas nossas experiências de interação com o mundo, e os tons desse registro são dados pelas emoções. Se forem boas, os tons serão alegres. Se forem ruins, os tons serão tristes.

Portanto, a luta em defesa dos direitos animais precisa levar em conta que as emoções são uma experiência fundamental animal. Sem emoções, esses movimentos internos que prendem ou soltam, não há senciência. A memória emocional é nossa bagagem privada. Ela nos constitui como sujeitos particulares. Ela nos dá a configuração senciente que nos torna o sujeito que somos.

Quanto mais estudo a mente e a consciência emocional animal, mais percebo o quanto precisamos aprender sobre nossa forma de vida: animada. O que nos anima, e o que nos animaliza são as emoções. Elas nos movem internamente para buscar interações, ou nos paralisam, com base na imagem do prazer e da dor que as interações passadas nos causaram. Quanto mais cientes disso, mais conscientes estamos, mais “emocionados” nos movemos no mundo. É preciso compreender tudo isso racionalmente, para poder ordenar esses conceitos e torná-los úteis na defesa ética dos direitos emocionais dos animais.

Fonte: ANDA 


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