Não, isso não é Photoshop. É o que acontece quando idiotas procriam cães

Não, isso não é Photoshop. É o que acontece quando idiotas procriam cães

Por Julie LeRoy / Tradução de Alda Lima

De vez em quando você se depara com algo tão peculiar, que não consegue nem mesmo entender do que se trata.

Em 2010, eu estava trabalhando como oficial do controle animal e encontrei-me no meio de uma disputa de vizinhos a respeito de seus cães soltos. Enquanto eu esperava o tutor do cão solto voltar para casa, o casal que iniciou a queixa me disse que tinha acabado de adquirir um filhote de pit bull, mas que não poderia mais ficar com ela. Eles perguntaram se eu queria vê-la. Eu concordei e lá veio Cuda numa coleira feita de barbante.

Quando a olhei, fiquei pasmo. Ela não era como nenhum outro cão que eu já vira. Tinha um corpo esmagado e uma enorme mandíbula com um sério prognatismo, e parecia uma mistura de gárgula com um porco. Ou de gárgula com um sapo.

Houve um silêncio constrangedor entre mim e o casal. Eles não falaram sobre a aparência estranha de Cuda. Eles só me disseram que a chamaram de Cuda porque seu prognatismo lembrava-lhes uma barracuda. Enquanto eu refletia sobre levá-la para casa, estava tomado por pensamentos negativos, tais como: “Será que ela vai viver?”, “O que há de errado com ela?” e “De que tipo de cuidados veterinários ela vai precisar e como vou pagar por eles?”

O casal insistiu sobre como precisavam deixar a cidade imediatamente porque estavam tendo problemas com as pessoas do bairro. Minhas preocupações foram diminuídas por um desejo feroz de proteger esta cadela. Eu sabia que se a levasse de volta para o abrigo, a equipe veterinária presumiria que ela não estava saudável e iriam eutanasiá-la. Embora eu não tivesse ideia do que ia fazer com este filhote de cachorro, mandei uma mensagem para o meu marido perguntando-lhe se poderia levá-la para casa. Ele (sensatamente) respondeu que já tínhamos quatro cães em casa, mas continuei mandando mensagens de volta explicando que ele não entendia.

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Pude sentir a raiva em seu texto quando ele finalmente, a contragosto, cedeu. Como eu ainda estava no trabalho, combinei de encontrar os vizinhos novamente naquela noite, perguntando-me se eles realmente iam aparecer — e quase metade esperando que não. Eu estava muito nervosa sobre pegar esta cadela.

Eles apareceram e de repente me tornei a tutora de uma cadela tão diferente que pensei que era a única de seu tipo que existia.

Hesitante, atravessei pela minha porta da frente e meu marido recuou ao ver Cuda. Ele me instruiu a levá-la ao veterinário o mais rapidamente possível para descobrir se ia mesmo viver. Cuda prontamente adormeceu no sofá, mesmo sem poder sequer chegar até lá sem a minha ajuda.

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O veterinário inicialmente achou que Cuda tivesse um problema neurológico, mas, após o exame, declarou-a saudável. Ainda assim, ele não tinha ideia de por que sua aparência era tão incomum. Aliviada por ela não estar com nenhuma dor, a levei para casa e a vida com Cuda oficialmente começou. Conforme ela cresceu, ganhou mais mobilidade, e logo estava brincando com nossos outros cães e gatos tão normalmente que nós nem sequer a víamos mais como um cão diferente.

Alguns meses depois estávamos assistindo o vencedor do concurso de cão mais feio do mundo na TV. Abby foi apresentada como um cão de cruzamento consanguíneo devido à sua espinha curvada e logo pensei, “Posso superar isso!”. Brincando, decidimos inscrever Cuda no concurso de 2011, por sua aparência ser tão única. Eu queria ver a reação dos outros a Cuda e, embora soubéssemos que ela também era fofa, sentíamos que ela tinha uma chance de ganhar.

Criei uma página no Facebook para ela e comecei a fazer campanha. Eu acreditava que Cuda era resultado de procriação consanguínea e que sua genética pobre contribuíra para sua aparência estranha. Quando eu era oficial de controle animal, notei que os criadores moravam uns ao lado dos outros, e que os cães muitas vezes eram relacionados entre si. Senti que suas imprudentes práticas de criação incluíam procriação consanguínea de cães intimamente relacionados.

O casal que me deu Cuda encontrou sua página e contatou-me para me dizer que a haviam encontrado no site de vendas e trocas Craigslist, por meio de um anúncio publicitário para filhotes de pit bull sendo vendidos na casa de um homem. Eles pagaram U$ 50 por ela, mas só ficaram com ela duas semanas. Talvez tenham percebido que Cuda não se parecia com outros cães e mudaram de ideia. Talvez estivessem tão apreensivos quanto eu em relação ao seu futuro.

Com base na minha experiência com criadores nos bairros em que trabalhei, e pelo fato dos proprietários originais de Cuda terem a obtido de um criador de fundo de quintal, eu divulguei Cuda como sendo de procriação consanguínea em sua página.

Compartilhei a história de Cuda em todos os lugares. Logo, ela estava sendo destaque em páginas como a PeoplePets e em impressos na revista American Dog Magazine. Em 2010 não havia tantas páginas famosas de cães quanto hoje, e a popularidade de Cuda começou a disparar.

Quando descobri que Cuda tinha nascido de um criador de quintal e pensei um pouco em como ela quase acabou entregue a um abrigo, minha atitude sobre a colocação de Cuda no concurso mudou de levemente humorada a uma missão para educar as pessoas sobre estes criadores de fundo de quintal e exortá-las a não fazerem compras no Craigslist, e em vez disso adotar. Nossa campanha durou oito meses e comparecemos a muitos eventos de cachorros, saímos na imprensa local, e conhecemos um monte de gente que simplesmente se apaixonou pelo meu cachorro imperfeito. Nós até mesmo conhecemos a Princesa Abby e sua tutora.

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Vários meses depois que começamos nossa campanha, uma foto começou a circular na nossa página de um cão que pessoas alegaram ter passado por photoshop, ou então que tinha aquela aparência porque viveu dentro de uma caixa.

Eu sabia que ambas as afirmações eram falsas. Esse cão tinha a mesma forma física de Cuda. Finalmente rastreei o cão e descobri que o nome dela era Quasi, e vivia na Itália. Iniciei uma amizade on-line com sua proprietária, Fabiana Rosa, e ela me explicou que Quasi e Cuda compartilhavam uma condição conhecida como “síndrome da espinha curta”. Fabiana explicou que Quasi era incapaz de mover a cabeça e nasceu sem ligamentos no joelho esquerdo traseiro, que teve de ser reparado cirurgicamente. Fabiana fundou a  Progetto Quasi e se dedica a ajudar cães com necessidades especiais.

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Fabiana me enviou um artigo que fazia referência a um estudo de Hans-Jorgen Hansen chamado de “Evidência Histórica De Uma Deformidade Incomum Em Cães (‘Short-Spine Dog’)”, que foi publicado no Journal of Small Animal Practice. Descobri que esta síndrome era referenciada desde o século 17 em pinturas feitas por David Klöcker Ehrenstrahl, que se referia a seus modelos como “monstro lobo e cão” e “monstro raposa e cão”.

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O artigo de Hansen discute mais estudos dessas pinturas por críticos de arte que definiram esses cães como criaturas más e fantásticas, e o resultado infeliz de procriações consanguíneas. Todos eles concordavam que a síndrome era um fenômeno genético, que encurta a coluna vertebral e ligamentos, confere um perfil inclinado, patas frontais alongadas e patas traseiras curvadas. Eles também descrevem a ausência de uma cauda ou cauda cortada.

As discussões sobre cães de espinha curta foram referenciadas novamente em uma série de artigos escritos entre 1956-1961, discutindo um cão japonês nativo com a síndrome.

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Estes artigos foram citados em um livro chamado Genetics of the Dog (“A genética do cão”) por Elaine Ostrander, publicado em 2001. O livro traça a causa da condição à endogamia e também afirma que fêmeas tendem a ter cios mais longos que cães normais e que, se conseguirem carregar a gravidez até o final, elas geralmente só têm um único filhote.

Em 1982, um livro de veterinária chamado  Animal Genetics (Genética Animal), citou o The Baboon Dogs of De Boom (Cãos babuínos de De Boom) na África do Sul.

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Somente um ano ou mais depois, uma foto de um spaniel mestiço chamado Crumpet, localizado em um abrigo de Twinsburg, Ohio, apareceu na minha página.

Crumpet claramente exibia a síndrome da espinha curta e, através de pesquisas, eu soube que ele foi adotado em 2012, quando tinha 8 anos, por Maria Rall, que o rebatizou Mojo.

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Pouco depois, Mary Beth Goosman entrou em contato comigo por causa de seu cão, Watson, um border collie que ela adotou depois que ele acabou no The Animal Resgate League de Washington, quando ele tinha 8 anos.

Ela não tinha ideia de qual era seu estado, mas o amava incondicionalmente. Watson viveu até quase 14 anos, e faleceu em 11 de dezembro de 2015.

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A mãe de Quasi, Fabiana, me contou sobre Criket, que também vivia na Itália.
Criket era um border collie também e nasceu de um dos cães da tutora Anna Canese. Criket faleceu repentinamente em 06 de dezembro de 2015, aos 9 anos, de uma  torção gástrica, o que pode acontecer a qualquer cão e não é exclusivo para os de síndrome da espinha curta.

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Em 2014, um cão de espinha curta chamado Pig viralizou nas redes sociais. Pig é uma mistura da Chow-Chow, de propriedade de Kim Dillenbeck, que a encontrou quando era um filhote. O único problema sabido de Pig é que ela sofre de longos períodos de cio. Ela tem agora um pouco mais de um ano de idade e vive em Alabama.

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Não muito tempo depois da introdução a Pig, fui contatada por Brandon McDonald, de Wisconsin. Ele me contou sobre seu cão Cleo, uma mistura de border collie que ele adotou através do Angel’s Paw Rescue. Brandon tinha anteriormente adotado a irmã de Cleo, Molly-Faith, que também tinha síndrome da espinha curta, mas infelizmente ela faleceu aos 6 meses de idade, porque não conseguiu vingar. O resgate entrou em contato com Brandon para ver se ele não queria adotar Cleo e ele aceitou. Cleo está indo muito bem e chegando aos 4 anos de idade.

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Então veio Quasi Modo. Ela é uma mestiça de 10 anos de idade, pertencente à veterinária Virginia Sayre, na Flórida. Quasi realizou o que Cuda não conseguiu: Ela ganhou o concurso do cão mais feio do mundo, em 2014. Quasi Modo e Quasi são tão semelhantes na aparência e nome que são confundidos com frequência.

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Não muito tempo depois, fui contatada por Angela Wright Lonergan, do Texas. Ela também é a orgulhosa mãe de uma cadela de espinha curta, uma poodle chamada Izzy Belle. Izzy Belle e sua irmã, a quem Angela também adotou, pareciam iguais, até terem cerca de 4 meses de idade. Foi quando Angela notou que Izzy Belle estava desenvolvendo o que ela descobriu ser a síndrome da espinha curta. Izzy Belle é pequena, com apenas algumas libras, mas não tem problemas de saúde e tem agora 3 anos de idade.

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Vários outros cães de coluna curta saíram da toca ao mesmo tempo. Frankie pertence à Ann O’Brien, no Reino Unido. Frankie é um adotivo mestiço de terrier Jack Russell.

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Então temos  Odd Dog e Gobblin. Eles foram encontrados em uma caixa em Roma, quando tinham apenas cerca de 5 meses de idade. Provavelmente são irmãos. A mãe de Quasi, Fabiana, interveio e ajudou a alocá-los em suas famílias atuais.

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Veja o vídeo de Odd Dog ainda filhote aqui.

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Vários meses depois, fui contatada por um ávido socorrista de animais no México chamado Arturo González-Ortega Frías. Surpreendentemente, seus cães de espinha curta, Mina e Vlad, foram encontrados em duas ocasiões distintas. Arturo diz que Vlad é tímido com pessoas, enquanto Mina é extrovertida.

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Descobrir cães de espinha curta e seus proprietários me mostrou que Cuda não está sozinha, como uma vez pensei, e que pode viver uma vida longa. Os cães mencionados acima vão de jovens adultos a idosos. Eles vêm em qualquer raça, embora pareça que muitos deles parecem ser pastores.

Cuda foi diagnosticada com diabetes quando tinha 18 meses de idade, mas, desde então, um ultrassom revelou que seus órgãos são de tamanho normal. O veterinário não achou que seu diagnóstico era relacionado à síndrome da coluna vertebral curta.

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Esta rara anomalia genética trouxe pessoas de todo o mundo para minha vida, e seus cães são como uma família.

Três coisas aconteceram enquanto eu estava escrevendo este artigo. Como mencionado acima, perdemos dois de nossa família de cão espinha curta dentro de duas semanas. Suas mortes foram um grande golpe para todos nós, pais dos de coluna curta.

Mas então, outro dia mesmo, recebi um e-mail de uma veterinária chamada Karen Dashfield de Nova Jersey me contando sobre seu Borzoi Russo de 5 anos chamado Polliwog. Um criador a contatou quando Polly tinha apenas 12 semanas de idade. Curiosamente, ela traz mais informações dos traços genéticos para esta condição. Polly teve um irmão de ninhada incapaz de andar. Na segunda ninhada, tendo pouco a ver com Polly, houve dois filhotes natimortos com defeitos que pareciam relacionados à síndrome da espinha curta.

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Embora conheçamos atualmente 12 destes cães no mundo, não há dúvida em minha mente que existem mais.

Um veterinário uma vez sugeriu que eu doasse DNA de Cuda para ajudar na pesquisa humana de distúrbios da coluna vertebral. Entrei em contato com algumas universidades de ensino, mas jamais recebi uma resposta. Descobri que não estou sozinha em minha jornada. A veterinária Karen Dashfield, tutora de Polly, contatou vários geneticistas também.

Criar cães de parentesco próximo (também conhecidos como endogamia ou procriação consanguínea) é, na verdade, uma estratégia utilizada para desenvolver um cão de raça pura, explicou Dashfield. A consanguinidade é utilizada para ampliar características desejáveis observadas em uma linhagem particular. Infelizmente, esse método também amplia características indesejáveis em uma linhagem.

Cães de raças mistas tendem a herdar menos condições genéticas com base puramente no fato de que seus genes não são restritos dentro de uma linhagem rigorosa. Quando perguntado sobre os cães babuínos de De Boom, Dashfield sentiu que o motivo por não haver uma abundância de cães com síndrome da curta coluna foi provavelmente devido ao fato de que estes cães foram cruzamento de parentes próximos, devido às suas condições de vida remotas e concentradas. Um cão que transporta o gene da espinha curta poderia originar gerações de síndrome de espinha curta na mesma região.

Seria interessante que todos os cães de espinha curta fossem testados para ver se um gene recessivo era descoberto. Até que eu possa fazer isso acontecer, simplesmente estou grata por ter tido aquele momento em que encontrei algo tão especial que nem consegui compreender na hora.

Quanto ao meu marido, cuja primeira reação a Cuda foi de choque e descrença, ele prontamente se apaixonou. Cinco anos depois, Scott e Cuda são destaques do calendário Pit Bull Princess’s 2016 Real Men Rescue Pit Bulls (Calendário Homens de Verdade Resgatam Pit Bulls, da Pit Bull Princess 2016).

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DEDICADO À MEMÓRIA DE CRIKET E WATSON

“Se não houver nenhum cão no céu, então quando eu morrer quero ir para onde eles foram.”

– Will Rogers

Fonte: The Dodo 

Nota do Olhar Animal: Nem sempre os danos causados aos animais pela procriação forçada são tão visíveise tão pouco é necessária a consanguinidade par aque ocorram. Leia sobre o assunto no artigo “Você faz questão de um cão de raça? Pense duas vezes…“. No mais, o propósito dos cruzamentos quase invariavelmente é comercial, o que representa um problema em si, pois ao animal é atribuída a condição de uma mercadoria, a de um mero objeto, o que propicia ambiente para inflição de maus-tratos, para os abandonos, etc. 

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