Necropsia em periquitos mortos no AM aponta hemorragia, diz veterinário

Necropsia em periquitos mortos no AM aponta hemorragia, diz veterinário

Sangramento pode ter sido causado por intoxicação ou traumatismo. ‘Morte de pássaros foi mancha na história de Manaus’, diz analista do Ibama.

Por Leandro Tapajós

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Alguns dos 200 periquitos encontrados mortos na Avenida Ephigênio Salles, Zona Centro-Sul Manaus, no dia 27 de novembro, passaram por necropsia no Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Cinco, entre as seis aves analisadas, apresentaram hemorragia interna. Segundo um analista do órgão, o resultado não é suficiente para fechar um diagnóstico, mas expõe indícios de que os periquitos de asa branca (Brotogeris versicolurus) podem ter sofrido intoxicação ou traumatismo.

O médico veterinário e analista ambiental do Ibama, Diogo Lagroteria, acredita que o fato ocorrido na última semana serve de alerta e pode gerar mudanças nos hábitos da população. “A morte desses 200 periquitos foi uma mancha na história da cidade, mas pode servir para alguma coisa. Talvez seja um divisor de águas na forma como a cidade enxerga e trata o meio ambiente”, acredita.

Dos 200 periquitos mortos, 40 foram encaminhados para análise. Seis foram para o Ibama. A necropsia realizada no órgão não é conclusiva, mas apresenta indícios que podem ser confirmados por meio de exames posteriores.

“Não vou entrar em detalhes, mas o que observei foi uma hemorragia acentuada. Essa hemorragia é compatível com muitas coisas, entre elas: intoxicação – que pode ser por veneno, zinco, cobre, tintas -, e traumatismo, quedas, pancadas. Ou seja, sem um exame toxicológico é impossível determinar a causa mortis com exatidão e responsabilidade. Somente após recebermos o laudo laboratorial, poderemos dizer o que realmente causou a morte de tantos animais. E informo que isto será feito.

Os órgãos ambientais têm tanto interesse em desvendar esse acontecimento quanto qualquer cidadão indignado de Manaus”, afirma Lagroteria, que acrescenta: “determinar a causa mortis e os culpados baseado apenas em ‘achismos’ é de uma irresponsabilidade enorme”.

Em entrevista ao G1, o pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Mario Cohn-Haft, explicou que a morte das 200 aves parece ter sido criminosa. “Bandos enormes passam por cima da avenida no final da tarde, e no amanhecer são sujeitos a atropelamento, especialmente por caminhões e outros veículos mais altos. Mas também os indivíduos, centenas ou até milhares, que dormem nas árvores no meio-fio são facilmente alcançáveis por estilingue, arma ou talvez algum tipo de veneno”, disse.

Atropelamentos

Outro ponto levantado por Lagroteria é o atropelamento de aves no local onde os 200 periquitos foram encontrados mortos. Segundo ele, todos os dias periquitos são atropelados.”E isso não é de hoje. A média é de quatro a cinco atropelamentos por dia. Agora façam as contas: cinco animais por dia vezes 30 dias do mês. Isso dá uma média de 150 animais mortos por atropelamento em um mês. Ou seja, em dois meses temos cerca de 300 animais mortos, somente por atropelamento e somente naquele lugar”, alerta.

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Outros animais, entre eles uma espécie de primata em extinção encontrado apenas em Manaus e dois municípios vizinhos, são mortos atropelados periodicamente. “Agora vejam o caso do nosso animal símbolo, o sauim-de-coleira. Somente na [Universidade Federal do Amazonas] Ufam, a média é de 12 animais mortos atropelados por ano. Em apenas um fragmento. Se pensarmos que na Ufam existe somente uma avenida e extrapolarmos isso para toda a cidade de Manaus, podemos imaginar que os sauins mortos atropelados por ano na cidade está na casa das dezenas e, quem sabe, centenas! Sem contar os animais que morrem eletrocutados, atacados por cachorros, capturados para serem vendidos! E o sauim-de-coleira é uma espécie que só existe na região de Manaus, além de ser considerada uma das espécies mais ameaçadas de extinção do mundo”, disse o veterinário.

Para minimizar as mortes, Lagroteria aponta como necessária a implantação de redutores de velocidade (lombadas de trânsito), recuperação de áreas degradadas para conexão de fragmentos florestais e grupos de animais, criação de projetos de educação ambiental e envolvimento comunitário.

“Temos uma legislação que protege a nossa fauna, basta fazê-la ser cumprida. Manaus tem um código ambiental, Lei 605 de 2001, que diz que os fragmentos florestais devem ter proteção especial. Diz mais: qualquer local onde haja espécie ameaçada de extinção é Área de Preservação Permanente (APP) e, portanto, não pode ser suprimida. (…)E todo dia áreas com sauim são desmatadas para que condomínios, indústrias e avenidas apareçam. Obviamente a solução não é proibir tudo nem impedir o crescimento da cidade. Afinal, a cidade precisa se desenvolver. Todos querem mais creches e avenidas que facilitem a nossa vida. A questão é como fazer isso de uma forma harmoniosa e respeitosa com o meio ambiente”, finaliza o veterinário.

Entenda o caso

Cerca de 200 periquitos foram encontrados mortos na manhã de quinta-feira (27) na Avenida Efigênio Sales, situada na Zona Centro-Sul de Manaus. A suspeita é de que as aves tenham sido envenenadas. O Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (IPAAM) apura o caso.

Os pássaros foram encontrados em frente a um condomínio residencial. Há cerca de dois anos, as palmeiras imperiais do condomínio foram teladas para evitar que as aves pousassem. Nesta terça-feira (2), as telas foram retiradas da copa das árvores pelo Corpo de Bombeiros. A medida foi adotada por exigência do Ipaam, após aves ficarem presas no local.

Um protesto foi organizado no último sábado (29) por Organizações Não Governamentais (ONGs) de proteção animal, que cobram providências do poder público sobre o caso.

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Fonte: G1

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