Necrorexia

Criaram um termo, recentemente, para designar a preocupação obsessiva de certas pessoas com o conteúdo do seu prato: ortorexia. Esse termo faz par com anorexia, doença de ordem geralmente nervosa, que leva especialmente as mulheres a se recusarem a ingerir alimentos de qualquer natureza, por temor de ganharem peso, perderem a silhueta, ou de contraírem doenças.

Ortoréxica seria a pessoa que tem apetite somente pelas comidas “certas”. Na internet circulam textos falando da ortorexia como uma síndrome neurótica. E, para meu espanto, há quem cite os vegetarianos e veganos como exemplo de ortorexia. Mas o texto ao qual me refiro não para por aí. Desqualifica as pessoas que seguem as dietas acima, listando uma série de comportamentos doentios como características dessas pessoas, entre eles, a incapacidade para a convivência social, para estabelecer vínculos afetivos, e daí para pior.

Não fosse a internet uma rede que acolhe qualquer lixo, sem com isso desqualificar os trabalhos sérios que somente por existir a internet acabam sendo acessíveis a qualquer cidadã(o) brasileira(o), poderíamos nos sentir ameaçados com mais essa “descoberta” científica: a da síndrome da ortorexia. Vamos agora deixar de lado os casos de pessoas que têm na comida a única forma de expressão de seus males físicos e emocionais.  Essas precisam realmente de ajuda terapêutica. Mas esse não é o caso dos veganos.

Vamos seguir com a reflexão sobre a escolha dietética em si mesma. Todos pensamos que o que vimos comendo é algo “escolhido” por nós. Engano. O que estamos comendo com a maior naturalidade nos foi uma vez colocado no prato sem investigar nosso gosto e, menos ainda, nossa escolha moral. Comer, ao contrário do que se pensa, é um dos atos mais sérios da moralidade humana. Pois, também ao contrário do que parece ser pensado, comer pode implicar fazer mal a outros, além de fazer mal a si mesmo. E os outros aos quais podemos fazer mal ao comermos não são nossos familiares, mas os animais e ecossistemas naturais. É preciso perder a inocência ao comer. Bebês comem o leite materno. Essa inocência não precisa ser perdida. Os nutrientes do leite materno foram produzidos no corpo da mãe pelo estímulo da presença do bebê. Nada é tirado da mãe. Nada é devido pelo bebê. Quando ele termina de mamar, não há desequilíbrio, a menos que o organismo de sua mãe esteja desnutrido.

Mas, quando colocamos em nosso prato alimentos que só foram produzidos porque se causou dor, sofrimento e morte àqueles de quem tiramos a carne, o leite, os ovos, o mel, perdemos a inocência. Nosso ato de comer é o que dá origem à dor, sofrimento e morte de outros seres vivos, que, igualmente, só desejam uma coisa: continuar a viver e fazer isso em paz.

Quando se instalam na consciência os desdobramentos éticos da dieta que considera normal e desejável incutir nas pessoas a ideia de que não há maldade alguma no ato humano de comer, não há como voltar atrás e fingir que não sabemos o que estamos fazendo ao consumirmos alimentos de origem animal. O mesmo vale para alimentos de origem vegetal produzidos com agrotóxicos. O problema, em ambos os exemplos, não é apenas o da saúde dos comedores humanos. É o da destruição gratuita da vida animal e das condições ambientais do florescimento de todas as demais espécies vivas nesse planeta que nos foi dado habitar.

Se cuidar do que se põe no prato, tirando dele toda matéria de origem animal, é ortorexia (uma neurose), e se o resultado desse ato diário não priva o comedor humano de saúde, e, além disso, concede aos animais o direito de não serem mortos nem explorados para servir de alimento para humanos, então a ortorexia, ao contrário do que fazem pensar os textos que circulam na internet, deveria ser fomentada. Que todos, ao se alimentarem, busquem fazer isso de forma correta, ética, tanto em relação à natureza, quanto em relação aos animais, que todos se reeduquem para ter apetite apenas por alimentos limpos da dor e da morte animal.

Por outro lado, estranho que na internet não haja um artigo sequer tratando da necrorexia [do grego nekro, morto, cadáver; e orex, apetite], o apetite por alimentos mortos. Tal forma de expressão do apetite é que deveria estar sendo seriamente discutida na comunidade médica, entre os nutricionistas, e na mídia. Ninguém ergue a voz para falar da necrorexia. Comer comidas mortas, “múmias” ou comida mumificada, além de pedaços dos cortes feitos dos corpos dos animais mortos, e secreções das glândulas mamárias de fêmeas de outras espécies, não parece amedrontar ninguém, nem arrepiar os profissionais da saúde que se dizem tão preocupados com o destino do organismo humano afetado por doenças originadas da dieta morta.

Sugiro a todos os veganos que comecemos a questionar a necrorexia que assola o hábito alimentar e a dieta humana ao redor desse planeta. Assim, poderemos discutir a obsessão compulsiva dos comedores humanos por gordura saturada e transaturada, por carnes, açúcar e farinhas refinados, e assim por diante, alimentos sabidamente mortos. Em vez de desqualificar a escolha vegana das pessoas conscientes, seria mais produtivo tratarmos de analisar o apetite por comidas mortas, induzido pela propaganda massiva desses alimentos nos meios de comunicação em geral, e reforçado pelo cardápio necroréxico oferecido em praticamente todos os restaurantes, cafés e lanchonetes de nosso país.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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