Neste matadouro na Tailândia matam-se porcos à paulada

Neste matadouro na Tailândia matam-se porcos à paulada
Jo-Anne McArthur fotografou um matadouro na Tailândia onde os porcos são mortos à paulada. JO-ANNE MCARTHUR/ WE ANIMALS PARA O GUARDIAN

Jo-Anne McArthur entrou num matadouro em Banguecoque, na Tailândia, para trazer cá para fora a “crueldade” que lá dentro se esconde. A fotojornalista seguiu os animais desde que são postos fora das carrinhas, documentou as más condições de trabalho, o transporte em “confinamento excessivo” e testemunhou o que já sabia — ali, matam-se porcos à paulada.

“Por muito difícil que seja, nós precisamos de ver a violência para sabermos o que estamos a comer. Porque isto é a realidade para milhares de milhões de animais, quer sejam mortos à paulada, quer sejam inapropriadamente electrificados antes de terem o seu pescoço cortado.” As imagens mostram trabalhadores a atordoarem porcos com ferramentas caseiras e, depois, a espancarem-nos com um bastão de madeira antes de lhes cortarem o pescoço e deixarem o cadáver a esvair-se em sangue — acções que contrariam as recomendações tailandesas de mortes “sem crueldade”.

Há 20 anos que a fotojornalista regista a interacção entre humanos e outros animais em cativeiro. Jo-Anne McArthur/ We Animals para o Guardian

A Tailândia é o segundo maior produtor de carne de porco na Ásia, uma indústria de mais de três mil milhões de euros (que ainda não foi afectada pela gripe suína africana que está a dizimar animais em quase todo o Sudeste Asiático). O guia tailandês das “boas práticas no abate de porcos” define “atordoamento” como “processos em que os porcos são deixados completamente inconscientes”, antes de começarem a sangrar. McArthur, apoiada por outros activistas do país maioritariamente budista, diz que, dentro dos pequenos e médios matadouros, as normas de protecção e bem-estar animal do país são entendidas mais como “sugestões do que como lei”.

O dono do estabelecimento que abate 500 suínos por dia estava lá quando a fotojornalista canadiana chegou com o equipamento fotográfico profissional, depois de ser aconselhada por activistas locais. “Não sei se ele pensou que as autoridades [fiscalizadoras] iriam ver as minhas imagens”, conta ao telefone com o P3, a partir do Canadá. McArthur disse ao responsável que se interessava pela forma como os alimentos são produzidos e que estava a fazer pesquisa – e fotografou “à vontade” durante um dia inteiro. “Ele contou que recebeu uns estudantes de medicina veterinária há pouco tempo e que muitos deles vomitaram.”

“Isso é o principal: nós tratamo-los como objectos, com completa desconsideração por qualquer dor física ou emocional que eles poderão ter neste processo.”
Jo-Anne McArthur

Em mais nenhum dos 12 matadouros que já fotografou viu mortes à paulada. Mas viu “práticas que magoam o animal”, aponta, em países como Canadá, Espanha, Turquia. Num vídeo de um grupo de activistas britânico, o Moving Animals, divulgado pelo Guardian este mês, trabalhadores num matadouro no Camboja também são vistos a baterem várias vezes nas cabeças dos porcos com uma vara de metal, de forma a imobilizarem o animal antes de lhe cortarem a garganta, sem o atordoamento necessário. Na Tailândia, Jo-Anne também testemunhou as feridas abertas na pele dos animais e o “confinamento excessivo” a que estão sujeitos, quer durante o transporte quer nas fábricas de produção.

“Isso é o principal: nós tratamo-los como objectos, com completa desconsideração por qualquer dor física ou emocional que eles poderão ter neste processo”, alerta. “O foco está em maximizar a produção e o lucro e não no animal senciente, que pode estar a sofrer imenso.”

Por Renata Monteiro

Fonte: Público / mantida a grafia lusitana original


Nota do Olhar Animal: A violência revelada nesta matéria é terrível e inaceitável, mas é apenas um agravante em relação à violência naturalizada pela indústria frigorífica, aceita por muitas pessoas e desconhecida por outras. O sofrimento imposto cotidianamente aos animais nas “linhas de produção” de carne não é menos repulsivo e imoral.

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