O animalismo para além da mera ecologia

O animalismo para além da mera ecologia

Por Gustavo Nassar 

O fato de boa parte das florestas inglesas na Idade Moderna (1500-1800) terem sido mantidas preservadas por conta dos interesses envolvidos nas atividades de caça (esportiva e/ou alimentar) serve como uma importante advertência às tentativas de subsumir os direitos dos animais como um mero anexo da ecologia e/ou do direito ambiental. Pois não há contradição alguma no caso inglês citado: os direitos dos (indivíduos) animais prosseguem uma dinâmica e lógicas próprias.

Embora se correlacione em algum nível com o todo do movimento ecológico, sua autenticidade extrapola e muito a lógica de preservação ambiental. Apagar essa distinção – que confere um caráter específico e autóctone aos movimentos de libertação animal – é negar novamente aos animais sua condição de indivíduos, de sujeitos. Animais não são patrimônios a serem conservados. Não devem deixar de serem mortos, mutilados e ingeridos por conta de um desequilíbrio ambiental que a pecuária ou a pesca por ventura gerem (e geram!). A fauna é uma mera abstração conceitual, assim como pátria e nação, pronto a ser descartada quando se trata de um corpo oprimido pela dor.

O movimento de libertação animal, focalizando a individualidade do corpo (sen)ciente como seu ethos, aproxima-se assim muito mais do paradigma dos direitos humanos do que propriamente do direto ambiental.

Mas ainda assim, mais uma vez não pode ser subsumido aos direitos humanos: o animalismo contemporâneo são menos uma extensão do humanismo iluminista ocidental em direção aos animais não-humanos do que uma profunda desconstrução do conceito de “humano”, já que “humanidade” historicamente só ganha sentido em sua oposição excludente à “animalidade”.

O animalismo, para ser efetivo, deve saber sustentar sua condição anômala.

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