O argumento de que as práticas especistas estão corretas porque deus as permitiu

O argumento de que as práticas especistas estão corretas porque deus as permitiu

Por Luciano Carlos Cunha

O seguinte argumento é frequentemente utilizado para se negar igual consideração aos animais não humanos:

“Deus permitiu que os humanos explorassem animais não humanos. Fez os animais não humanos justamente com esse propósito. Humanos, diferentemente, foram feitos à imagem e semelhança de deus. É por isso que só temos o dever de respeitar humanos. Assim sendo, é correto utilizar os animais para comer, fazer experimentos, etc.”.

Vamos chamar o argumento acima de “argumento do comando divino especista”. A premissa maior desse argumento é que uma coisa se torna certa se for aprovada por deus. A premissa menor, é que deus aprovou desrespeitar os animais não humanos. Um primeiro problema com esse argumento é que há muita coisa que teria de ser provada antes, para que existissem boas razões para se aceitá-lo:

(1) Primeiramente, teria-se de provar que deus existe. Isso é assim porque a questão sobre se deus existe ou não é controversa. Não é um bom método basear a resposta para uma questão controversa (no caso, determinar o certo e o errado) com base em outra questão mais controversa ainda. Enquanto não ficasse provada a existência de deus, não teríamos boas razões para aceitar ordens de alguém que talvez não exista, principalmente quando essas ordens mandam causar sofrimento e assassinar. Imagine que, depois de causarmos sofrimento e morte cumprindo tais supostas ordens divinas, fosse descoberto que tal ser não existe, e que isso tudo era invenção de alguns humanos perversos. Teríamos então provocado uma grande injustiça, irremediável. Ao contrário, se fosse provado que deus existe, não teríamos cometido erro algum se não fizéssemos mal os animais não humanos, já que, segundo o argumento, deus supostamente permite, mas não exige fazer mal aos animais não humanos. Deveríamos, então, dar o benefício da dúvida, que manda errar pelo lado da segurança e, então, respeitar os animais não humanos.

(2) Mas, supondo que ficasse provado que deus existe. Não segue daí necessariamente que o argumento do comando divino especista é bom. Teria-se ainda que provar que deus realmente autorizou os humanos a causarem sofrimento e morte aos animais não humanos. Há, inclusive, teólogos como Andrew Linzey [1], que interpretam a vontade de deus como ordenando que déssemos, ao invés, igual consideração e direitos para os animais não humanos. E, interpretar a vontade de deus é uma coisa que, desde os tempos mais remotos, os teólogos não chegam a um consenso (principalmente quando estamos a falar de várias religiões diferentes). Novamente, deveríamos dar o benefício da dúvida e errar pelo lado da segurança. No que se segue, vou argumentar que não é relevante, para saber se temos obrigação de dar igual consideração aos animais não humanos (ou, para saber qual a decisão correta em qualquer outra questão), saber se deus existe ou saber qual a sua vontade:

(3) Supondo que ficasse provado que deus existe, e que ficasse provado que permitiu ou até mesmo ordenou que os humanos fizessem sofrer e matassem os não humanos. Segue daí que devemos seguir a vontade de deus? Seguiria somente se o certo/errado dependessem da vontade de deus. Mas, existe pelo menos uma boa razão para rejeitar essa visão, como percebeu Platão: ela é vulnerável ao dilema de êutifron [2]. O dilema consiste no seguinte: “determinadas práticas tornam-se certas e outras tornam-se erradas porque foram, respectivamente, aprovadas e reprovadas por deus ou; deus aprova determinadas práticas e reprova outras porque sabe que elas são, respectivamente, certas e erradas?”.

Em uma leitura mais desatenta, isso parece um jogo de palavras, mas, trata-se de um argumento que aponta um grave problema com a idéia de que certo e errado dependem da vontade de deus. Imagine que alguém opte pela primeira opção (que as coisas se tornam certas e erradas porque deus, respectivamente, as aprova e as reprova): então tem que admitir que, seja lá o que for que deus aprovasse, isso estaria certo, e seja lá o que deus reprovasse, estaria errado, já que é a vontade de deus que torna algo certo ou errado. Assim sendo, segundo essa visão, se deus aprovasse o estupro, estaria certo; se deus condenasse ajudar os pobres, estaria errado, e assim por diante. Mas, então, nesse caso, não haveria porque seguir as ordens de deus, já que elas seriam completamente aleatórias (lembre que, na primeira opção, deus aprova ou reprova determinadas coisas não devido às características dessas coisas, mas, simplesmente a esmo).

Na primeira opção, nem haveria porque admirar a sabedoria moral de deus e nem dizer que ele é bom, porque, qualquer coisa que ele escolhesse estaria certa, e qualquer coisa que tivesse vontade de fazer seria boa. Isso seria completamente arbitrário. Imagine que alguém dissesse: “essa prática se tornou certa porque Chuck Norris a aprovou, e ele a aprovou à esmo, sem razão alguma para isso”. Ninguém levaria esse argumento a sério. Mas, se tal argumento é ruim no caso de Chuck Norris, é ruim no caso do apelo a qualquer outra autoridade, incluindo deus. Além disso, não há nenhuma boa razão para supor que certo/errado deveriam ter algo a ver com a vontade aleatória de alguém, mesmo que esse alguém fosse o criador do mundo.

Assim sendo, a maioria das pessoas que acredita em deus opta pela segunda opção. Assim, salva-se a sabedoria de deus e sua bondade: “deus aprova determinadas coisas e reprova outras porque sabe que elas são, respectivamente, certas e erradas. Ou seja, são certas ou erradas devido às suas propriedades, e não, que elas se tornam certas ou erradas porque deus, respectivamente, as aprovou ou reprovou”. Assim sendo, deus reprovaria, por exemplo, o estupro porque sabe que o estupro é injusto (e não, que o estupro se torna injusto porque deus quis). Normalmente, também menciona-se que “deus jamais aprovaria estuprar, pois deus é bom”.

Mas, veja o que isso tudo implica: implica que então as coisas são certas ou erradas com total independência da vontade de deus. Deus, se existir, apenas as reconhece como tais. Inclusive, implica que há um padrão de bondade que é independente da vontade de deus segundo o qual até mesmo deus pode ser avaliado (pois essa é a única maneira de fazer sentido a frase “deus é bom”). Assim sendo, nem deus teria poder para tornar justa uma coisa injusta. As decisões são certas ou erradas devido às razões contrárias ou favoráveis possíveis de serem endereçadas com relação a elas (por exemplo, o fato de as vítimas de estupro serem extremamente prejudicadas com o estupro é uma razão para se mostrar que o estupro é errado, e isso é assim independentemente da vontade de qualquer um, incluindo deus).

Mas, e se alguém objetasse então que deus sabe que é certo causar sofrimento e morte aos animais não humanos, e que, por isso, aprovou tais coisas? Novamente: se tivesse sido provado que deus existe, e que essa é realmente sua vontade (duas coisas realmente muito difíceis de se provar), ainda teria-se de provar que esse alguém, que está a ordenar as práticas especistas, é deus. Como garantir que não é um demônio muito poderoso que está a fingir ser deus e a enganar todos nós? Mas, supondo para efeito de argumentação, que tivesse ficado provado que, deus existe; que sabemos exatamente como interpretar sua vontade, e que esse alguém que pensamos ser deus é realmente deus (a dificuldade aqui é então, muito mais do que imensa): que razões deus teria para oferecer com vistas a provar que é correto não dar igual consideração aos animais não humanos? Para termos boas razões para acreditarmos que algo é correto, é preciso que alguém que está a defender isso nos mostre as razões. Os argumentos a favor do especismo estão discutidos nas outras perguntas desse blog. Se são argumentos bons ou ruins é totalmente independente de se eles são ou não endereçados por deus. Nem deus, se existir, teria poder para tornar bom um argumento ruim. Portanto, não há outro jeito: temos de partir para a análise dos argumentos e jogar fora o apelo à autoridade, seja lá qual for.

Notas:

[1] Ver, por exemplo, os artigos de Linzey disponíveis em: http://www.pensataanimal.net/arquivos-da-pensata/81-andrewlinzey/72-os-direitos-divinos e http://www.pensataanimal.net/arquivos-da-pensata/81-andrewlinzey/260-evangelho-animal

[2] PLATÃO, Êutifron. Disponível em http://www.consciencia.org/eutifron-dialogos-de-platao

Fonte: blog Especismo Não!


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