O cuidado na ética: o fim, o princípio e a virtude

O movimento de defesa dos direitos animais existe desde a mais remota antiguidade, dado a conhecer através da escrita. No oriente, o princípio da ahimsa inspira as tradições filosóficas ayurvêdica e budista, e sustenta a proposta da dieta vegetariana. Esse princípio afirma o dever moral de viver sem causar mal deliberadamente a qualquer outro ser vivo.

Por mal deliberado entende-se (ver Aristóteles, Ética a Nicômaco) uma ação que poderia ter sido evitada, quando o agente moral tem possibilidade de escolher outras vias para encaminhar seu agir. Na filosofia ayurvêdica e no budismo o principal dever moral humano é a prática de ações isentas de violência contra qualquer ser vivo. Nessa perspectiva nasce o conceito de cuidado, tão caro na ética feminista contemporânea. O princípio da não violência requer capacidade de raciocinar de modo previdente, cauteloso e com vistas a preservar a integridade e o bem próprio dos seres que possam ser afetados negativamente pela ação ou por desdobramentos dela.

Mas há um sentido de cuidado que tem arrepiado as feministas que tratam da questão da violência contra os animais e da devastação dos ecossistemas naturais. Esse segundo sentido de cuidado remete à ideia de tratar o que foi ferido e violado. Se há algo ferido ou violado, em geral, houve uma ação de ferir e violar. As práticas de manipulação ou manejo de animais e da natureza, analogamente às práticas de manipulação do corpo e das emoções humanas, resultam em violação do bem próprio daqueles que são manipulados ou manejados.

Nesse sentido, todo e qualquer ato de manejo produz uma distorção do estado de bem-estar em organismos vivos, sejam eles constituídos, ou não, de consciência. Na tradição moral, pouco se deu importância aos atos destruidores do bem próprio dos seres vivos manejados pela transformação industrializada da vida animal e vegetal. Quando o estrago aparece, vozes se levantam para denunciar a destruição e propor formas de saná-la. A ética do cuidado, nesse caso, tem um caráter paliativo. Ela não dá conta de enfrentar o problema. Cada vez que aparece alguém para cuidar do que foi destruído pela mão alheia, uma mensagem é passada aos que praticam o manejo: pode estragar, que alguém chegará para fazer reparos no que for estragado. É esse conceito de cuidado que arrepia as feministas ecoanimalistas. Ele impera, hoje, nos movimentos de proteção dos animais urbanos. Ele também impera nos projetos de lei que visam “humanizar” o tratamento dispensado aos animais no sistema de produção industrial da carne, leite, ovos, lã, seda, mel etc.

Manejar a vida alheia é algo que não pode ser praticado sem resultar em estragos. Correr para sanar o estrago e não fazer nada para desconstruir a prática institucionalizada que o produz dá no mesmo que admitir a inocência de tal prática. Para que o conceito de cuidado, na ética animal e ambiental, não resulte em defesa de práticas paliativas que apenas fomentam a inocência em relação aos danos causados aos animais e ecossistemas naturais, é preciso recuperar o sentido mais antigo do princípio ético da não violência (ahimsa), que ilumina a filosofia oriental, base milenar do movimento de defesa dos animais e de ecossistemas naturais. Com base nesse cuidado as ações serão pensadas preventivamente, não reparativamente. Cautela e prudência são virtudes do sujeito moral agente, não violência é o princípio norteador de suas decisões. Respeito ao valor inerente da vida, o resultado ético final a ser alcançado. Juntamos, desse modo, uma ética da virtude ao principialismo, sem ignorar que o resultado da ação moral, o benefício para os que são atingidos por ela, conta igualmente, não apenas a virtude do agente e o princípio no qual ele sustenta suas decisões.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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