O filho do Melara

O filho do Melara

Por Rafael Martinelli*

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Fui algemado e conduzido em uma viatura, segunda à noite. Eu e outros três ativistas da causa animal. Duas gurias. Fomos levados ao Palácio da Polícia. Instalados ao lado de dois ‘elementos’ pegos com uma arma e suspeitos também por tentativa de suborno. Éramos quatro veganos algemados, sentados num banco: a ‘dupla’ presa a uma barra de ferro, eu e meu companheiro, com as mãos às costas. As meninas, escoradas na parede. A sala: minúscula.

Depois de um dia de trabalho, estávamos fazendo uma instalação artística em um tapume no Parque da Redenção, em Porto Alegre. Ali naquele cercado onde estão programadas obras de revitalização do chafariz, numa dessas parcerias da Prefeitura com empresários.

O desenho, cuja foto anexo aqui, é lúdico e buscava provocar uma reflexão. Não é ofensivo, pelo menos a meu ver. E é bonito, acho, na sua singeleza e honestidade.

– Se a crença é sua, por que eu tenho que morrer? – perguntaria a cabritinha, prestes a ser sacrificada.

Não deu tempo de escrever a frase. Mas o desenho fala sozinho.

Rodo e pincel revelavam, aos poucos, o conceito das charges do Juan Corvalán, um dos braços artísticos da proteção animal gaúcha. Estávamos sob duas torres de iluminação, rostos descobertos. Avistamos uma viatura da Guarda Municipal a uns 50 metros. Poderíamos correr, se entendêssemos estar fazendo algo errado. Ficamos ali. Nada recolhemos das tintas, sprays e garrafas pet cheias de água, depositadas no chão, ao lado das mochilas. 

Quando a viatura parou, fui em direção a ela, para explicar o que estávamos fazendo.

– Vocês estão pichando aí? – perguntou primeiro o guardinha, abrindo a porta para descer do carro. 

– Estamos fazendo uma pintura – respondi.

– Mas isso é pichação. É dano ao patrimônio público – ele ‘informou’.

– Não sabíamos. Isso é apenas um tapume. Tapume é patrimônio público? – perguntei.

– Tem que pedir autorização.

– Pra quem?

– Pra Prefeitura, pra administração do Parque.

– Vamos pedir então.

– Mas vou ter que reportar ao nosso supervisor.

– Engraçado que quando precisamos da Guarda para ajudar em casos de maus tratos ninguém aparece – cobrou uma das ativistas.

– Não temos um grupamento ambiental ainda, não é conosco. Entendo a causa de vocês, é bonita, mas estamos fazendo nosso trabalho – respondeu, educadamente, um dos guardas.

– Fomos chamados, recebemos uma denúncia – ele nos explicou.

– Esse tapume é verde para não poluir visualmente o Parque – informou o outro guarda, também com toda categoria.

O clima – até ali de diálogo e respeito – me fez brincar:

– Ah, é o tapume gourmetizado!

Falas de rádio e quatro viaturas fecharam o ‘cerco’, com bastante giroflex ligados. Ficaram conversando ao longe por intermináveis minutos, quando um dos guardas, esses imprescindíveis funcionários públicos concursados para cuidar do patrimônio público, avisou:

– Vamos ter que ir para a Área Judiciária.

Não acreditei:

– Mas qual nosso crime?

– Isso é dano ao patrimônio, vandalismo – disse um dos ‘agentes da lei’.

– Levanta a camisa! – foi a senha para ver que seríamos um bode expiatório ou, como combina mais com o clima que vivemos hoje no Rio Grande, um ‘bode sacrificado’…

– Tem que algemar – disse outro.

– Algemar? Por uma intervenção artística?!? – me surpreendi.

Nisso um dos guardas, mais ao estilo Robocop, segurou meu braço delicadamente e puxou para trás. Quando fechou a primeira algema, eu falei maciamente:

– Essa ação é arbitrária e eu não reconheço teu poder de polícia.

– Ah é? – ele disse, já se atrapalhando com a algema.

Teve que trocá-la e então me algemou dentro da ‘técnica’. Não estava apertado. Mas como meu pulso é magérrimo, talvez nem funcione o ‘modo tortura’, sabe-se-lá…

– Vocês não são uma polícia comunitária? Vocês deveriam informar, orientar, não repreender dessa forma. Mas se querem fazer uma praça de guerra aqui… – ainda deu tempo de eu dizer, educadamente, como ‘cidadão de bem’ que sou.

Fui ‘conduzido’ para a viatura. O outro ativista também foi grampeado e trazido ao auto. Pelo menos as meninas não foram algemadas, o que seria um absurdo, já que não havia guardas mulheres na ação.

O pequeno exército de dedicados guardas (como diz na dublagem da abertura de Law & Order) se dissipou, para continuar com sua honrada missão de combater os terríveis delitos (como diz na dublagem da abertura de Law & Order). 

A viatura arrancou. E la nave va, pelos buracos de Porto Alegre. 

No caminho, nenhuma palavra. Estávamos sob tutela dos guardas que nos trataram dignamente. E aparentavam estar visivelmente constrangidos com a situação. 

Na frente do Palácio da Polícia, com toda dificuldade, desci da viatura, embrulhadinho para presente. Olhar meu colega ativista andando na frente, com os braços para trás, conduzido como um bandido, fez-me rir. Mas era de chorar. Melhor, corar. Pensem. Ninguém merece essa humilhação, esse constrangimento. Fiquei pensando numa frase que trago na minha caminhada: “melhor não fazer justiça do que cometer uma injustiça”. 

Ao entrar nas luzes do Palácio da Polícia, o ambiente cheio, todos olhando pra ti, pensando: “quem são os bandidos da vez?”… 
Instintivamente avisei:

– Prenderam o filho do Melara. Sou o filho do Melara!

Sei lá por que fiz isso, talvez minha intenção fosse mostrar a palhaçada a que estávamos sendo submetidos. Uns riram, outros fecharam a cara. Fomos levados a uma salinha dois por dois. Ali estavam os suspeitos pegos com arma, que falei antes. Ficamos ali, meninos e meninas. E confesso que em minutos estava gostando mais dos bandidos do que dos mocinhos. 

(e o cuspe que se cospe para cima cai na cara, mas a sociedade intolerante só vai entender quando tiver que se limpar).

Só nos tiraram as algemas, levaram a outra sala, e separaram as meninas dos ‘elementos’, após intervenção de uma agente da lei que vive em Porto Alegre, não no Reichstag.

– Tu vai dormir e lembrar da minha voz: vocês agiram errado. Assim vocês mandam aos movimentos sociais o recado de que com polícia, seja qual for, é guerra – eu disse a um guarda municipal, que se prestava a debater comigo, de vez em quando, na ‘salinha do crime’.

– Eu não participei da ação – ele se esquivou, mas disse orgulhosamente a assustadora expressão:

– Lei é lei!

Nesse tempo todo, ouvi pelas paredes muitos policiais civis boquiabertos com a ação da Guarda. 

– Mas pra quê trazê-los aqui?!?

Enfim, ali, esperando todos os ‘trâmites legais’, nos associávamos aos mais de 66,8 milhões de processos judiciais que tramitam no País. Nessas três horas, a Redenção ficou sem seus guardas, que estavam ali, sob um teto, preenchendo a papelada da burocracia. E, quando me mandarem uma carta, marcando o dia da audiência, uma juíza, ou um juiz, vão ter que tratar desse meu, desse nosso, ‘CRIME’, quando poderiam tratar de um crime de _________ (preencha você mesmo).

Outra hora conto mais que acabaram de me ligar avisando que acharam uma galinha, ainda viva, com as patas torcidas para trás, num despacho… 


* Rafael Martinelli é jornalista, ativista pelos animais, vegano

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