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O lento progresso para uma Espanha sem tauromaquia

O PACMA considera que as medidas tomadas pelas chamadas “prefeituras da mudança” ainda são muito tímidas. Córdoba é o último município a retirar o subsídio público para as touradas, que geram uma rejeição cada vez maior entre os espanhóis.

Daniel Cabezas / Tradução de Flavia Luchetti

Espanha tauromaquia lento progresso

“Aqueles que rejeitam os touros o fazem por serem antiespanhóis”. A frase, pronunciada por Esperanza Aguirre em 2014, tratava de por em dúvida os pequenos passos que, naquela época, já se iniciavam contra a tauromaquia, especialmente após ter sido abolida na Catalunha em 2010.

As declarações de Aguirre, no entanto, pareciam ignorar todas e cada uma das pesquisas sobre o tema que vem sendo realizado na Espanha. É isso, ou a Espanha realmente está cheia de antiespanhóis, pois os dados demonstram que, ano após ano, o número de cidadãos que afirmam ter pouco ou nenhum interesse pela chamada festa nacional vem aumentando, ao mesmo tempo em que despencam os que se consideram aficionados.

De acordo com Silvia Barquero, do Partido Animalista (PACMA), “a queda vertiginosa das touradas na Espanha é evidente. As estatísticas mostram uma queda acumulada de mais de 36,62% em 10 anos, (período de 2003 a 2013) de acordo com dados do próprio Ministério da Cultura”, explica. “O que realmente cresceu foram as festividades populares, que entre 2013 e 2014 passaram de 13.815 a 15.848, festejos que acontecem em municípios de um ou outro partido. Cabe destacar que dentro destas festas populares estão incluídos os encierros, as sueltas de vacas, os correbous e o bous al carrer em Valencia”, indica Barquero, cujo partido, com mais de 200 mil votos, chegou a desbancar o UpyD (Unión Progreso y Democracia) nas últimas eleições gerais.

“Os touros que agora sobram e não serão utilizados para as touradas estão sendo enviados para os encierros, para as festas populares que significam igualmente um terrível abuso para os animais”.

A isto se acrescenta também o fato divulgado na semana passada: segundo a organização World Animal Protection, 84% dos jovens entre 16 e 24 anos sentem-se envergonhados de viver em um país com touradas. A mesma pesquisa, realizada antes das eleições gerais, destacou também que nos últimos três anos o apoio a tauromaquia caiu de 30% para 19%.

Com a tomada de poder das novas forças políticas, as chamadas “prefeituras da mudança”, o caminho em direção para o final da tauromaquia parecia render-se de maneira significativa, dado que na prática o total das candidaturas cidadãs tinha em seus programas medidas claras nessa direção, mas não está sendo fácil. Apenas dois meses após os comícios municipais, a Associação Internacional de Tauromaquia ameaçou levar perante os tribunais todo e qualquer prefeito que trate de proibir os touros por “atentado contra um Bem de Interesse Cultural”.

Mesmo assim, as mudanças chegaram. Apenas dois meses depois das eleições gerais, no mês de julho, a Prefeitura de Madri retirou a subvenção para a Escola de Tauromaquia. A quantia era modesta (61 mil euros), mas teve um efeito bastante simbólico ao ser removida. Mais significativa ainda foi a retirada das subvenções em cidades como Corunha, onde La Marea Atlántica praticamente deu o golpe final para a festa, que se  mantinha exclusivamente graças aos 91 mil euros anuais que recebia dos cofres públicos. Neste mesmo mês, Alicante e Palma de Maiorca se declararam “cidades antitaurinas”.

A última a se juntar a corrente, para alguns irrefreável, foi Córdoba. A prefeitura andaluza, governada pelo PSOE e IU com o apoio de Ganemos, a marca local de Podemos, acaba de aprovar uma moção para que Córdoba seja uma cidade livre de maus-tratos animais, incluindo o “não financiamento municipal a espetáculos públicos com animais”.

A medida afeta a corrida benéfica realizada anualmente pela Associação contra o Câncer e a decisão provocou um acalorado debate na sessão plenária, onde o vereador do PP e toureiro aposentado José Luis Moreno afirmou que “a tauromaquia não é maus-tratos. Essa luta entre a força de um animal e o talento de um homem é arte”.

Em estado vegetativo

Os ativistas antitaurinos estão esperançosos diante do que eles chamam um caminho sem volta. “A situação atual sobre a tauromaquia e as “prefeituras da mudança” é a vitória da democracia e da moral”, disse Leonardo Anselmi, diretor da Fundação Franz Weber e porta-voz da plataforma PROU, muito ativa durante o debate sobre a abolição na Catalunha. “Os governos da mudança chegaram para recuperar o tempo perdido não só em relação aos touros, os cavalos, as crianças doutrinadas e o próprio movimento animalista, senão também pela própria democracia, ferida ao condenar cidadãos e cidadãs a manter ligado, do tesouro público, o respirador automático que mantinha com vida ao corpo em estado vegetativo que hoje conhecemos como tauromaquia. Se não fosse pelos enormes e milionários subsídios e favores políticos, especialmente nas últimas duas ou três décadas, não teria havido touradas nem festejos populares, nunca mais”, concluiu Anselmi.

Embora o caminho em direção a abolição total seja lento, Anselmi reconhece que os movimentos das prefeituras da mudança caminham em boa direção. “Tivemos mais progressos em meio ano do que em meio século, e devemos isso a três atores: o movimento social com as ONGs e associações, a sociedade civil que em grande parte apoia esta ideia e os governos que se atreveram a romper a hegemonia do pistolão do lobby taurino”.

O PACMA, entretanto, não está tão otimista nem satisfeito com as medidas adotadas por estas prefeituras, ele as define como “tímidas” e “muito cômodas para os partidos que as levam a cabo”. “Há propostas realmente relevantes e necessárias, que requerem um compromisso que estes partidos não estão dispostos a assumir”, assinala Barquero. “Em Madri, se não formos mais longe, continuará sendo realizada a exposição taurina mais importante, a de San Isidro. A prefeita Manuela Carmena já expressou publicamente que vai respeitar, como também continuará permitindo a Feira de Inverno da praça de touros de Vistalegre, de propriedade municipal”.

Fonte: La Marea

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