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O predador invisível que ameaça a vida de milhares de aves

Por Sandro Von Matter

Ave post 2015

Muitos perigos modernos ameaçam a vida de aves ao redor do planeta. Talvez você não se dê conta, mas a verdade é que, no mundo de hoje, a grande maioria deles é causada por nós. E nada mais natural, afinal, estamos no que os cientistas chamam de Antropoceno. Segundo Colin Waters, autor do estudo The Anthropocene is functionally and stratigraphically distinct from the Holocene, este é o nome que deve ser dado oficialmente ao atual período geológico, criado justamente pelo impacto da humanidade no planeta Terra.

Neste admirável mundo novo, os maiores inimigos das aves não são mais os predadores naturais, mas, sim, uma série de fatores decorrentes da expansão da civilização como, a destruição de habitats, a poluição dos oceanos, as torres de celular, as usinas eólicas (sim, elas também), os gatos domésticos e, um predador invisível, tão sorrateiro que “se esconde bem debaixo dos nossos narizes”.

Exatamente como o alienígena do filme Predador, lançado em 1987, aos olhos das aves, este predador voraz também pode se camuflar e permanecer totalmente invisível. Surpreendentemente, estas “criaturas” consideradas por especialistas como um dos maiores inimigos das aves são as janelas de vidro.

Claro que janelas não saem por aí caçando aves, mas a questão é que as janelas, as vidraças, os painéis de vidro e as gigantescas fachadas espelhadas são praticamente invisíveis para estes animais, que evoluíram para enxergar as cores de uma forma completamente diferente da nossa.

Ao se deparar com painéis ou janelas de vidro transparente, as aves são incapazes de detectar o obstáculo à sua frente. Já no caso de vidros espelhados, é impossível para elas distinguir a diferença entre o que é real e o que é uma imagem refletida. Para ilustrar este fenômeno, assista ao vídeo abaixo e, repare como a ave busca a segurança das árvores, sem perceber que se trata de um reflexo.

Esta incapacidade de perceber as janelas é a causa de milhões de mortes de aves, como mostra o estudo Bird–building collisions in the United States: Estimates of annual mortality and species vulnerability, publicado em 2014 na revista científica The Condor. Somente nos Estados Unidos, cerca de 988 milhões de aves morrem anualmente vítimas de colisões em janelas, um resultado no mínimo alarmante.

Segundo Scott Loss, um dos autores da pesquisa, os responsáveis por este verdadeiro genocídio não são apenas os arranha-céus. Na verdade, cerca de 56% das colisões com morte ocorre em edifícios baixos (de 4 a 11 andares de altura), 44% em residências (com 1 a 3 andares de altura) e menos de 1% em prédios com mais de 12 andares de altura.

No Brasil, são escassos estudos abordando o tema, mas qual seria o impacto sobre as populações de aves causado por colisões em janelas no país? Com base nas diferenças entre o clima e a diversidade de espécies dos dois países, é possível presumir a resposta.

Se as estatísticas para um país de clima predominantemente temperado, com apenas 844 espécies (segundo a Birdlife International), apontam a mortalidade de centenas de milhões de aves por ano, qual seria a estimativa para um país como o nosso, com predominância de clima tropical e nada menos que 1919 espécies de aves, de acordo com a última análise do Comitê Brasileiro de Registros Ornitológicos?

Seguindo este raciocínio simples e baseando-se no fato de que a instalação de janelas e painéis de vidros transparentes e espelhados se tornaram tão populares aqui quanto nos Estados Unidos, fica claro que, possivelmente, já enfrentamos uma epidemia silenciosa de colisões de aves em janelas. E é também possível supor que seriam, pelo menos, o dobro das colisões que ocorrem nos EUA.

Silenciosa por quê? Muitas destas mortes passam despercebidas porque é raro um bando de aves se chocar contra uma janela, ao mesmo tempo. O que geralmente ocorre são colisões individuais ao longo do ano. Dezenas de aves que morrem em decorrência desse tipo de colisão não são sequer encontradas porque acabam sendo devoradas por gatos, ratos ou descartadas pelo serviço público de limpeza. Em outros casos, as aves atordoadas deixam o local seriamente feridas, com lesões como hemorragia cerebral ou rompimento de órgãos internos, voando mais alguns metros e morrendo nas proximidades.

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Entre os poucos estudos realizados no país, é interessante citar uma análise de impacto ambientalcoordenada pelo pesquisador Dr. Miguel Marini, da Universidade de Brasília (UnB). Os resultados demonstraram que, ao longo de um ano, mais de cem aves de vinte espécies diferentes colidiram e vieram a óbito nas fachadas espelhadas do prédio da Procuradoria-Geral da República, em Brasília (foto abaixo).

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No local, foram registradas mortes de pombas, beija-flores, andorinhas, uma coruja, um gavião e uma gralha, além de espécies migratórias e, algumas que só existem no Cerrado como o papagaio-galego (Alipiopsitta xanthops), extinto em São Paulo e considerado espécie ameaçada em Minas Gerais.

Com base no conhecimento científico adquirido ao longo das últimas décadas, é urgente e imprescindível que diretores de empresas, gestores públicos, síndicos e associações de moradores – além dos responsáveis por empreendimentos imobiliários e profissionais como engenheiros, arquitetos e paisagistas – incorporem, em seus projetos ou planos municipais, ações cujo objetivo seja prevenir ou minimizar a morte de aves por colisão.

Qual é a solução para as colisões em janelas e vidros?

A resposta é simples e a solução envolve muito mais o engajamento e a vontade – tanto de autoridades, como de qualquer um de nós – em exercer a cidadania e agir para resolver este problema do que, a invenção de novas tecnologias.

Os motivos das colisões já foram descritos por cientistas e são bem conhecidos: as aves se chocam em janelas simplesmente porque não as enxergam. Então a resposta para o problema é tornar as janelas visíveis para as aves. Mas como?

De acordo com a instituição American Bird Conservancy, é possível incorporar alguns elementos às janelas de residências e painéis de edifícios, diminuindo o risco de colisão. A aplicação de fitas, filmes, tinta ou decalques do lado exterior, além da instalação de redes na frente dos vidros são algumas das soluções, já que criambarreiras visuais que permitem que as aves sejam capazes de detectar a presença de um obstáculo. Na foto abaixo, veja as boas soluções implementadas para os prédios do Jardim Botânico no Brooklin (à esquerda) e da Universidade de Michigan (à direita), nos Estados Unidos.

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Diferente do que já foi recomendado por especialistas no passado, a Sociedade Audubon para Conservação da Natureza alerta para o fato de que fixar ou desenhar silhuetas de aves em janelas, como as de gaviões, raramente, evitam colisões.

Sabemos, também que a maioria das aves é capaz de enxergar a cor ultravioleta (UV). Isso significa que podemos tornar as janelas visíveis para as aves mantendo-as ainda transparentes para os nossos olhos, já que nós não evoluímos para enxergar a luz UV. Assim, curiosamente uma das soluções pode ser pintar ou adesivar as janelas, mas com produtos que reflitam a luz UV.

No entanto, nem todos as aves enxergam UV. O estudo A vision physiological estimation of ultraviolet window marking visibility to birds, realizado pelos pesquisadores Olle Håstad e Anders Ödeen em 2014, demonstrou que gansos, patos, pombos, aves de rapina e até corvos percebem o ultravioleta apenas sob determinadas condições de luz, o que torna ineficaz o uso de tintas UV para evitar a colisão de algumas espécies, destas famílias.

Além das que já citei acima, existem dezenas de soluções profissionais disponíveis no mercado comoadesivos perfurados que tornam janelas opacas do lado de fora mas, ainda transparentes do lado de dentro e vidros especiais com estruturas visíveis apenas para as aves. Mas, embora a regra geral seja torne os vidros visíveis e menos reflexivos, é extremamente recomendado – em especial para grandes projetos – que, antes de se optar pelo uso de qualquer tecnologia, um especialista da área seja consultado.

Quer tornar sua janela segura para as aves?

Desde 2009, desenvolvo projetos de pesquisa através do Instituto Passarinhar para entender melhor como funciona a visão das espécies brasileiras e criar métodos para evitar acidentes deste tipo. E, por isso, gostaria de compartilhar com você leitor uma dica  mais que especial.

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Vamos lá. Você precisa de uma régua, uma caneta marca texto e fita adesiva opaca. A solução com melhor custo/benefício é criar um desenho quadriculado sobre a parte externa dos vidros de suas janelas.

Com o auxílio da régua – nas laterais da janela -, marque com lápis ou caneta marcadora os pontos de fixação da fita adesiva no sentido vertical, sempre de 10 em 10 cm. Em seguida, cole as fitas. Inicie a segunda etapa: marque os pontos para fixação da fita no sentido horizontal, mas, agora, com espaçamento de 5 em 5 cm. Assim, você cria uma espécie de grade sobre a janela.

Lembre-se de que, ao final da instalação, as medidas dos quadrados vazios devem, obrigatoriamente, respeitar a regra de 10 por 5 cm. Esteja atento a isto: o espaçamento de 10 cm deve ocorrer entre as fitas coladas no sentido vertical e o de 5 cm entre aquelas fixadas no sentido horizontal.

Se por motivos estéticos você preferir não utilizar fitas adesivas, é possível optar por incorporar outros elementos janela, o importante é sempre respeitar o espaçamento citado acima.

Segundo os pesquisadores austríacos Rössler e Zuna-Kratky, que testaram centenas de métodos, 10 x 5 cm é o tamanho máximo que os espaços “vazios” devem apresentar, em um quadriculado, para que a instalação seja de fato eficiente contra a colisão de aves em vidros.

Gostaria de relatar uma colisão de ave?

Acesse a página do Instituto Passarinhar no Facebook e envie foto, localidade, data, horário e tipo de vidro ou estrutura onde ocorreu o acidente. Mantemos um projeto de monitoramento colaborativo de colisões em nível nacional, para quantificar os impactos em janelas no Brasil e buscar soluções inovadoras.

Fotos: Sandro Von Matter, EREN, ABC e Pash.

Fonte: Conexão Planeta

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