O que esta proibição da corrida de galgos pode nos ensinar sobre como tratamos os animais de fazenda

O que esta proibição da corrida de galgos pode nos ensinar sobre como tratamos os animais de fazenda

“Assustador, confrontante, horrível” – é dessa forma que o Premier de New South Wales (NSW), Austrália, descreveu as conclusões de seu inquérito sobre a corrida de galgos. Ele ficou tão chocado com o que acontece com os cães nessa indústria que ele tomou a decisão histórica de fechá-la. Mas as mesmas coisas ruins estão acontecendo com animais em outras indústrias… e, da mesma forma que os galgos, sua única esperança cuidar para que as pessoas descubram.
Aqui temos quatro coisas que podemos tirar do inquérito que levou à proibição da corrida de galgos.

1. Animais não são produtos “residuais”

Bezerros machos não desejados são enviados para o abate para que o leite de suas mães possa ser vendido para consumo humano.
Bezerros machos não desejados são enviados para o abate para que o leite de suas mães possa ser vendido para consumo humano.

Esta é uma indústria cujos membros não foram somente coniventes, mas participaram do massacre em massa de dezenas de milhares de galgos saudáveis simplesmente porque eles não são mais, ou nunca foram, capazes de competir contra outros cães. – Comissão Especial de Inquérito sobre a Indústria da Corrida de Galgos em NSW (GRNSW)

Infelizmente, galgos não são os únicos animais descartados quando não são mais considerados rentáveis. Animais bebês não desejados trazidos ao mundo pelas indústrias do leite e dos ovos também estão em perigo – que seus pais não podem protegê-los contra.

Quando nasce, um pintinho macho que não vai crescer e produzir ovos enfrenta a morte certa por maceração ou gás – com milhões de pintinhos mortos na Austrália a cada ano como “produtos residuais” da indústria de ovos. E na indústria de laticínios, um bezerro macho será retirado de sua mãe e morto na primeira semana de vida, tudo porque ele não pode produzir leite. Este é o triste destino de centenas de milhares de bezerros a cada ano.

2. Indústrias que lucram com os animais não deveriam estipular seus próprios padrões

A indústria vem há tempos dominando o processo que estipula os padrões legais sobre como os animais devem ser tratados nas fazendas industriais, e é por isso que animais altamente inteligentes ainda são legalmente sujeitos ao confinamento rotineiro e à crueldade.
A indústria vem há tempos dominando o processo que estipula os padrões legais sobre como os animais devem ser tratados nas fazendas industriais, e é por isso que animais altamente inteligentes ainda são legalmente sujeitos ao confinamento rotineiro e à crueldade.

É preocupante o fato que o GRNSW envolveu participantes da indústria no processo para estipular os padrões de bem-estar. – Comissão Especial de Inquérito sobre a Indústria da Corrida de Galgos em NSW

O Inquérito Galgo expôs um conflito de interesses que também está presente em outras indústrias de animais – órgãos da indústria tendo muita influência na estipulação dos padrões de bem-estar animal. E quando as indústrias intensivas fazem campanha pesada para continuar com suas práticas cruéis, isso normalmente resulta na legislação que não protege os animais da crueldade.

Na Austrália, esse processo levou à reprodução de animais para comida sendo deliberadamente excluídos das leis que protegem nossos animais de estimação em casa, puramente pelas razões comerciais. Como resultado disso, porcos e galinhas – da mesma forma que os galgos – são expostos aos atos legalmente sancionados de crueldade incluindo confinamento severo.

3. Animais são muito mais do que unidade de produção

Frangos criados pela carne podem ser mantidos em galpões altamente lotados com dezenas de milhares de aves.
Frangos criados pela carne podem ser mantidos em galpões altamente lotados com dezenas de milhares de aves.

A realidade é que, para muitos, talvez a maioria, daqueles que participam nesta indústria… os galgos são bens comerciais, não animais para serem valorizados e amados. – Comissão Especial de Inquérito sobre a Indústria da Corrida de Galgos em NSW

Assim como os galgos usados como veículos para lucros em apostas, um frango de uma fazenda industrial é somente um meio para o fim na indústria de “carne” de frango. Seletivamente reproduzidos para crescer muito rápido – esta taxa de crescimento não natural coloca uma pressão enorme em seus corações e esqueletos imaturos. Na Austrália, 20 milhões de frangos irão sofrer e morrer em galpões a cada ano como um resultado direto de como eles estão sendo criados.

Seus amigos que botam ovos não vivem nada melhor. Uma galinha criada em gaiola de bateria, que é aprisionada por toda sua vida, é valorizada por nada mais do que os ovos que ela bota. Quando ela não for mais capaz de botar ovos em uma velocidade ‘rentável’, ela é considerada ‘gasta’ e é enviada para o abate – com somente 18 meses de vida.

4. Animais deveriam ser protegidos da dor e da crueldade

A debicagem corta terminações nervosas sensíveis no bico de uma ave, fazendo com que este procedimento seja muito doloroso sem alívio da dor.
A debicagem corta terminações nervosas sensíveis no bico de uma ave, fazendo com que este procedimento seja muito doloroso sem alívio da dor.

É uma indústria onde… muitos treinadores parecem preferir métodos baratos e algumas vezes dolorosos para tratar as lesões dos galgos ao invés de usar os serviços de cirurgiões veterinários qualificados. – Comissão Especial de Inquérito sobre a Indústria da Corrida de Galgos em NSW

O Inquérito descobriu que “homens musculosos” não qualificados e medidas de autoajuda são frequentemente utilizados para realizar procedimentos médicos nos galgos. Os cães não estão sozinhos. Muitas pessoas ficariam chocadas em saber que animais de fazenda são rotineiramente sujeitos a mutilações cirúrgicas dolorosas – sem nada para aliviar a dor.

Galinhas enjauladas têm as pontas sensíveis de seus bicos cortadas, porquinhos em fazendas industriais têm seus dentes e caudas cortados, touros são castrados e marcados, ovelhas sofrem com a retirada da lã e o corte da cauda, perus têm as pontas de seus dedos cortadas e vacas leiteiras têm seus chifres arrancados – todos procedimentos que causam dor severa e desconforto.

O que aprendemos com a redução da corrida de galgos é que as expectativas da comunidade sobre como os animais devem ser tratados estão mudando rapidamente. Conforme a sociedade expande seu círculo de compaixão, as práticas cruéis rotineiras em muitas indústrias de animais não são mais aceitas sob o holofote do escrutínio público. E se pessoas suficientes exigirem mudança, os líderes políticos irão ouvir.

Imagine se todos os animais recebessem as mesmas considerações já estendidas para os galgos dentro e além de NSW… o mundo seria um lugar muito melhor.

Por Animals Australia / Tradução de Alice Wehrle Gomide

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