O voo da porca

Por Dr. phil. Sônia T. Felipe 

Uma porca, animal absolutamente senciente do que estão a fazer com ela, o que já fizeram ao corpo dela durante os 140 dias de manejo de sua dieta em confinamento completo em cercado com piso de cimento, estranha e entra em pânico ao ser transportada para o abate.

Inteligente do jeito que é (Jeffrey Moussaieff Masson, The pig who sang to the moon), essa porca percebe muito bem que há uma enorme diferença entre estar bem a seu modo suíno, que não inclui ser transportada em caminhão para lugar algum, mas ser deixada livre em campo natural para seguir suas buscas e se autoprover, e estar muito mal na vida, confinada, apertada com outros em um veículo que os transporta para a câmara de sangria, o caldeirão fervente de depilação e o esquartejamento.

Esse animal sensível e com memória espetacular, lembra-se, certamente, da experiência anterior de viajar em um caminhão atulhado com animais de sua espécie e idade. Sua viagem anterior ocorreu quando foi retirada da creche, separada de sua mãe e levada em um caminhão para o inferno no qual foi detida por quatro meses para criar massa cárnea lucrativa para seus “donos”. Aquela primeira viagem está em sua memória. E quando ela salta, ela tenta escapar de algo ruim que a aguarda quando o caminhão parar. Ela já passou por isso antes.

Seu voo em direção ao solo e à liberdade é a única forma de nos fazer ver que tem sensibilidade, consciência da ameaça à sua vida e emoções tão fortes de pânico que não as consegue conter. Lembra-me nitidamente os humanos que se atiraram do Edifício Joelma em chamas em 1974, um incêndio que matou 191 pessoas. Lembra-me também das 200 pessoas que se atiraram das duas torres em chamas, após a colisão dos aviões em 11 setembro de 2011 em Nova Iorque que matou quase três mil pessoas.

Só animais sencientes não alados podem fazer isto: tentar escapar da morte, desesperadamente, atirando-se pelo ar, quando não há meio algum de ser resgatado pela mão humana ou divina.

Essa porca tentou manter-se viva, arriscando-se perigosamente. Foi recapturada pelo motorista do caminhão.

Levada para a câmara de sangria, depilada em um tanque de água fervente e esquartejada, hoje ou amanhã terá pedaços de seu cadáver compondo sanduíches à mesa de humanos que se acham superiores a ela, humanos que dizem amar os animais, mas escolhem para estima apenas gatos e cães, nessa moral especista eletiva que parece não ter fim.

[A sequência de fotos pode ser vista em: http://www.mirror.co.uk/news/weird-news/pig-makes-daring-escape-freedom-3648705

Nota do Olhar Animal: Veja a notícia traduzida clicando aqui.


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