Omitir-se de praticar o mal não basta

A palavra inato tem dois sentidos: algo que faz parte da natureza e nasce com o ser, e, algo que sequer chegou a nascer. Vou considerar hoje a questão da virtude. Ela deve ser levada em conta no primeiro sentido, o de que humanos são seres capazes dela, e no segundo sentido, o de que é possível que em muitos humanos ela sequer chegue a nascer.

As virtudes são muitas. Cito algumas, a bondade, a paciência, a persistência, a lealdade, a justiça, a ética. Essas seis formam um leque tão amplo que quase não é preciso falar de outras. Cada uma delas tem, pelo menos, duas formas de expressão: uma positiva, outra negativa. Somos bondosos, quando não fazemos mal aos outros. Pacientes, quando não exigimos velocidade de quem não pode competir. Persistentes, quando não desistimos de uma tarefa. Leais, quando não traímos. Justos, quando não tiramos do outro algo que ele não nos pode oferecer. Éticos, quando não tratamos os outros como se fossem meios para que alcancemos nossos propósitos.

Mas, para nos aprimorarmos moralmente, basta viver não fazendo o mal? Não. Os bebês, por exemplo, não fazem mal algum. Nem por isso eles se enquadram na categoria dos “éticos”. Para ser ético é preciso que haja liberdade para não fazer o mal e igualmente para fazer o bem. Quem não pode fazer mal não recebe automaticamente a designação de “ser ético”. E, ao inverso, muitas vezes sofremos algo mal por parte de alguém que não poderia ter evitado isso. Nem por isso dizemos desse ser que ele é mau. Para ser ético precisa preencher dois requisitos: poder fazer o mal e poder abster-se de fazer esse mesmo mal. Se um desses requisitos faltar, a ação sai fora do âmbito no qual ela seria julgada sob o ponto de vista da ética.

Essas são questões pertinentes, tanto para avaliarmos nossa interação com outros humanos, quanto para avaliarmos nossa interação com os animais não-humanos e ecossistemas naturais. Ainda é corrente a ideia de que, se não fizermos algo de mal, isso já é bastante, já “basta”, já podemos nos dar por satisfeitos. Então, é de se perguntar: basta para quem? Para o agente ou para o paciente moral? Não fazer o mal não basta, para aqueles que se encontram sob nosso domínio. Pode bastar para nosso ego, mas não basta para os que dependem de algo mais do que dos ditames do nosso ego para poderem se manter e expressar o bem que sua vida para eles representa.

Por isso, virtudes éticas exigem duas formas de expressão: a negativa e a positiva. Assim, não basta não ser grosseiro e rude com os animais. É preciso dar atenção a tudo o que lhes pode fazer mal e implementar práticas que levem à abolição de todas as formas de uso, abuso, exploração e destruição deles para benefício humano, e mesmo para benefício de outros animais. Não basta eliminar interações que forcem os animais a performances que exigem deles o que está acima de sua capacidade, ou que está além daquilo para o qual sua mente é formada. É preciso que, abolidas as práticas “impacientes”, pessoais e institucionais, criemos formas novas de interação com eles, que não exijam de seus corpos e mentes algo para o qual não nasceram. Não basta realizar uma tarefa ou participar de um projeto em defesa dos animais. É preciso persistir e seguir sem parar, fazendo cada vez um projeto novo que sintetize os resultados dos anteriores, tendo isso como meta definitiva de vida. Não basta não atraiçoar os animais [pesca, caçadas, armadilhas, gaiolas, jaulas], é preciso abolir todas as formas de traição adotadas há séculos para capturar os animais não-humanos. Não basta não retirar os animais dos ambientes naturais onde eles se encontram [não participar do tráfico de animais, por exemplo], é preciso ampliar os espaços naturais para que eles possam voltar a viver neles a seu próprio modo. Não basta adotar a ética para proteger certos animais [cães, gatos, tartarugas, baleias, pandas, por exemplo], é preciso que a ética nos leve a compreender que em todas as suas formas de expressão a vida tem valor inerente ou um bem que só quem nasce nela pode usufruir. É preciso vencer a tendência especista eletiva.

Enfim, para realizarmos a bondade, não basta não reduzir o tempo de vida dos outros, ou não destuir os meios pelos quais eles encontram o bem próprio de sua existência nesse planeta. É preciso fazer algo para que o bem que roubamos, a vida deles, pelo menos enquanto espécie, já que não é possível ressuscitar todos os mortos, lhes seja restituído. A virtude ética tem deveres negativos e deveres positivos. Vivemos um tempo em que as pessoas pensam que, por protegerem cães abandonados, ou baleias, por exemplo, já fazem mais do que o suficiente na defesa dos direitos animais. Ao mesmo tempo, algumas dessas pessoas que pensam que “defendem os animais”, mas de fato protegem apenas cães ou baleias, continuam a passar o garfo e a faca na carne que antes era de um porco, de um frango, de um boi. Vou tratar agora do mal que fazemos a esses animais, comentando somente um ponto, porque o espaço aqui é limitado: o tempo de vida que roubamos deles.

A média natural de vida de um suíno varia de 10 a 12 anos, ou, 3.650 a 4.380 dias; a de um bovino, de 17 a 30 anos, ou, 6.205 a 10.950 dias; a de galinhas e galos, de 15 a 20 anos, ou, 5.475 a 7.300 dias. Os porcos são mortos aos 140 dias de vida. Os bois, aos 750 a 1.825 dias de vida, dependendo da raça e do sistema de engorda. Os frangos, aos 43 dias de vida.

Fiz aqui alguns cálculos, para dar uma ideia da porcentagem de vida que tiramos deles ao abatê-los. Tomei por base o tempo médio mínimo de vida de cada uma dessas espécies, a saber: 3.650 dias de vida para o porco, 6.205 dias para o boi, 5.475 dias para o frango. Esses são os dias que eles poderiam ter vivido, em média, no mínimo, se não houvessem nascido na malha prisional na qual os humanos os confinaram.

Ao abater um porco, o privamos de 96,17% do tempo de vida que naturalmente teria. Comparemos agora essa privação, com o que representaria, caso fosse um humano, tomando como referência, digamos, 75 anos. Imaginemos que fôssemos nós os animais explorados e abatidos para fins alheios. Cada humano abatido teria sido privado de 72 anos de vida, ou seja, teria vivido apenas 3 anos até o abate.

Tomemos agora o tempo de 2 anos de vida de um bovino até seu abate. Se ele pode viver 17 anos, ou 6.205 dias, ao abatê-lo o privamos de 88.24% da vida que poderia ter vivido. Comparada com a vida média de um humano, isso corresponderia à privação de mais ou menos 66 anos de vida. O humano teria sido deixado vivo e engordado por uns 9 anos, quando, então, seria morto e comercializado em pedaços no mercado das carnes.

Por fim, tomemos o tempo de vida dos frangos, que, se não fossem forçados a nascer nas incubadoras, para virar carne, ou ser explorado mais adiante na produção de ovos, viveriam no mínimo 5.475 dias. Eles são abatidos por volta dos 43 dias de vida. Isso quer dizer que tiramos de cada indivíduo, ao matá-lo, 99,22% do tempo de vida no qual poderia ter existido. Isso equivale, na mesma comparação com a espécie humana, ao assassinato de aos 214 dias de vida, um bebê de uns 7 meses de idade.

No início escrevi que as virtudes éticas têm dois deveres: o de não fazer o mal, e o de fazer o bem. Se faz parte do bem de um ser vivo o tempo de vida no qual ele pode usufruir da condição da espécie na qual nasce, privá-lo dessa vida é um ato de violência, pois o priva da condição de existir na qual veio a esse mundo. Mas, já não basta, falando da perspectiva ética, que não tiremos a vida dos animais, quero dizer, que paremos de comê-los, quando nos damos conta do quanto ficamos devendo de vida ao planeta ao abatê-los para consumo [considerando que temos substitutivos excelentes de origem vegetal para compor a cadeia de aminoácidos que a carne oferece].

É preciso dar ainda o passo seguinte na direção da virtude: ações para recompor o estrago que estamos fazendo, especialmente nas últimas cinco décadas, quando inventamos as fábricas de animais e os forçamos a uma dieta que tornou menor o tempo de suas vidas, e multiplicou ad infinitum, em favor exclusivo dos lucros das empresas que os abatem, sua reprodução.

É preciso começar a pensar como seria possível devolver a essas espécies de vida e aos indivíduos que vierem a nascer, a vida que seria própria deles.

O primeiro passo é encerrar a produção de animais, seja lá sob quais forem os métodos, para fins comerciais. Isso não geraria desemprego, como ameaçam os que vivem dos lucros dessa atividade, porque todos nós continuaríamos a precisar de comida. A força de trabalho empregue hoje na indústria da carne voltar-se-ía a produzir alimentos subsitutivos da carne, quero dizer, alimentos de origem vegetal. Haveria muito trabalho, para toda gente, ao contrário do que se imagina. Quem sabe, muito mais trabalho e emprego do que hoje se tem, porque a maior parte do trabalho na indústria frigorífica é realizada roboticamente [tantos por máquinas, quanto por humanos].

Em segundo lugar, seria preciso criar espaços naturais, nos quais os animais das espécies hoje abatidas em sua mais tenra infância pudessem voltar a viver longamente, buscando seu próprio bem a seu próprio modo.

Em terceiro lugar, é preciso dar apoio aos grupos que defendem os direitos animais. E apoiar significa custear científica e financeiramente a atividade em defesa dos animais. Todo trabalho em defesa dos animais tem muitos custos, intelectuais e financeiros. As pessoas consomem a vida dos animais como se eles fossem um item como outro qualquer oferecido pelo mercado, mas eles são semelhantes a nós, humanos.

É preciso pensar uma vez, pelo menos, nos cálculos que apresento acima. O que pensamos do direito de outra espécie animal, de tirar a vida de humanos para atender a interesses estranhos a esses humanos, aos 7 meses de idade, aos 3 anos, ou mesmo aos 9 anos? Não há argumento possível para justificar tamanha crueldade. Todos os que a moral tradicional tem construído caem por terra com o desenvolvimento da produção de alimentos vegetais, a expansão das fronteiras comerciais que hoje permitem o acesso a todos os alimentos de origem vegetal que podem compor a cadeia de aminoácidos chamada proteína, presente nas carnes dos animais abatidos.

Não tratei ainda, com esse cálculo, das vacas e galinhas, usadas na extração do leite e de ovos. Também não falei, nem em relação a essas últimas, nem em relação aos citados acima, do sofrimento vivido por eles nos poucos dias, meses ou anos que são obrigados a viver sem propósito seu, apenas como objetos empilhados pela maquinaria do abate. Há muito para ser escrito e não posso abusar desse precioso espaço que a ANDA nos concede. Trato disso no próximo texto.

Fonte: ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais


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