Para o veterinário Marcos Mourão, a compensação ao trabalho árduo realizado em prol dos animais deficientes é uma só: "Dar uma nova chance àqueles que já estavam condenados ao descaso e à morte" (foto: ONG Asas e Amigos/Divulgação)

ONG de Juatuba (MG) abriga animais com necessidades especiais

A história de várias vidas contada entre gorjeados de pássaros e grunhidos de macacos, iraras, antas, tamanduás… Entre um piado e outro, um assovio ou rosnado, um homem fala rápido e anda ligeiro em meio a aproximadamente 530 animais – 400 deles silvestres e 130 domésticos. Para dar conta da lida diária na ONG Asas e Amigos, o veterinário Marcos de Mourão Motta, de 53 anos, dorme pouco e come quando sobra tempo. E não é para menos. O santuário, localizado em Juatuba, na região metropolitana de Belo Horizonte, possui quase 5 mil metros quadrados e há 25 anos abriga animais com deficiência e vítimas de maus-tratos. Como o próprio Marcos diz, “aqueles desprezados tanto pelo governo quanto pela sociedade”.

Arara-azul, ameaçada de extinção: na ONG Asas e Amigos a ave encontrou um porto seguro contra o contrabando (foto: ONG Asas e Amigos/Divulgação)
Arara-azul, ameaçada de extinção: na ONG Asas e Amigos a ave encontrou um porto seguro contra o contrabando (foto: ONG Asas e Amigos/Divulgação)

A ONG é pioneira no país no abrigo de animais silvestres e assume uma batalha hercúlea contra o contrabando da fauna brasileira. A terceira maior atividade ilegal do mundo é responsável por tirar 38 milhões de animais de terras nacionais. Muitos deles já em vias de extinção. Quando têm a sorte de chegar até o abrigo, levados por órgãos de proteção ambiental, os bichos recebem o seu salvo-conduto. Ganham passaporte direto para a aposentadoria. “Infelizmente, a maioria deles vem com sequelas que impossibilitam sua reintrodução na natureza”, diz o veterinário. Ironicamente, estarão mais seguros presos em viveiros do que livres em seu habitat.

A coruja Murucututu, uma das maiores do Brasil: ela vive segura em um dos vários viveiros que abrigam aves (foto: ONG Asas e Amigos/Divulgação)
A coruja Murucututu, uma das maiores do Brasil: ela vive segura em um dos vários viveiros que abrigam aves (foto: ONG Asas e Amigos/Divulgação)

A luta pelos mais fracos começou cedo, antes mesmo de Marcos receber o canudo da formatura. “Eu já nasci com esse dom. Desde criança o meu olhar para os animais, especialmente os mais necessitados, é de compaixão”, diz. No início de sua carreira, pouco se ouvia falar em profissionais interessados em cuidar de animais silvestres na capital mineira e até mesmo no Brasil. Ainda mais aqueles que, por consequência da covardia humana, vinham com ‘defeito’, faltando patas, bicos, olhos. Para a maioria, o investimento daria muito trabalho e nenhum retorno. Para Marcos, a compensação é uma só: dar uma nova chance àqueles que já estavam condenados ao descaso e à morte. Em troca, recebe uma onda gigantesca de gratidão demonstrada euforicamente em cada lambida, abraço, mordida e, até mesmo, relinchos de felicidade.

Apesar da fratura que sofreu no pescoço, após ser atropelada, a égua Marrom pasta tranquilamente na ala dos cavalos resgatados, geralmente vítimas de carroceiros. Ciumento, o Bode fica ali por perto, tentando intimidar os visitantes para que não se aproximem do seu ídolo. Até mesmo os urubus, tão discriminados, têm na ONG um cantinho para chamar de seu. Já o macaco-prego, cego de um olho, é esperto como ele só e adora surrupiar as bijuterias de quem passa por seu viveiro. Para dar conta de tantos agregados, a instituição conta apenas com três funcionários contratados e três voluntários. As despesas mensais com manutenção, limpeza, ração, medicamentos, entre outros custos, chegam à casa dos 40 mil reais. Do montante, apenas 15% vêm de doações de padrinhos que abraçam a causa. O que sobra é bancado com recursos próprios, angariados nos atendimentos realizados na Clínica Cães e Amigos, no bairro Aeroporto, em Belo Horizonte.

Vítima de maus-tratos, o macaco-prego é esperto como ele só: mesmo cego de um olho, adora fazer brincadeiras em seu viveiro (foto: ONG Asas e Amigos/Divulgação)
Vítima de maus-tratos, o macaco-prego é esperto como ele só: mesmo cego de um olho, adora fazer brincadeiras em seu viveiro (foto: ONG Asas e Amigos/Divulgação)

Na clínica, Marcos conta com o suporte da mulher, a veterinária Teresa Cristina Brini Motta. “Quando abrigávamos apenas 60 animais tínhamos o incentivo de muita gente. Depois que o número passou dos 100, muitos acharam que eu era meio doido.” Bom humor é o que não falta ao veterinário, que, mesmo tão atarefado, faz o possível para não negar ajuda quando solicitado. Experiente em clínica e cirurgia geral, quebra a cabeça para confeccionar próteses para os vários casos de fratura que atende. “O importante é garantir qualidade de vida ao bicho”, diz. Marquinhos, um cãozinho faceiro, tem nas duas patas dianteiras as marcas do abandono. Teve a sorte de ser encontrado a tempo, quando agonizava no meio da mata, às margens de uma rodovia. Duas próteses o ajudaram a recuperar os movimentos e a confiança no ser humano.

Como ajudar

Informações: www.asaseamigos.com.br
Telefone: (31) 99303-1325

Por Daniela Costa

Fonte: Revista Encontro BH

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