ONG tenta libertar ursos acorrentados na Albânia

ONG tenta libertar ursos acorrentados na Albânia

Tradução de Alice Wehrle Gomide

Os dois ursos albaneses de cinco anos de idade carregam cicatrizes físicas e mentais dos seus dias de abuso e cativeiro – Pashuk tem marcas da corrente apertada ao redor do seu pescoço, enquanto Tomi é um alcoólatra.

O par permanece temporariamente em um zoológico em Tirana após ter sido resgatado de seus carcereiros, no meio de uma nova tentativa de libertar os ursos marrons que estão cruelmente cativos no país balcânico.

Existem cerca de 250 deles andando livremente pelas montanhas da Albânia, de acordo com o grupo internacional dos direitos dos animais Four Paws. Mas outras muitas dúzias, entre 50 e 80, foram tiradas da natureza quando ainda filhotes.

Exibidos em jaulas em restaurantes ou acorrentados em praias, o papel dos ursos é divertir e atrair turistas e clientes endinheirados – que podem posar com os animais por um euro por fotografia.

O antigo dono de Tomi, que possui um restaurante 80 km ao norte de Tirana, permitia que os clientes servissem ao seu novo amigo peludo cerveja e “raki”, uma bebida local tradicional.

“Café e álcool, não havia nada melhor para acordá-lo, assim como com os clientes”, o empresário, com cerca de 40 anos de idade, disse à agência de notícias AFP, se negando a dar seu nome.

Tomi, que agora anda agressivamente de um lado para o outro, será enviado com Pashuk e outra ursa fêmea para a cidade vizinha Kosovo, que construiu um santuário para ursos após ter passado por um problema similar.

“Tomi está sempre estressado e isto pode ser explicado pela sua abstinência de álcool”, disse Sajmir Shehu, do Four Paws.

Em março, as autoridades da Albânia fizeram um acordo com Four Paws se comprometendo a libertar seus ursos e adotar uma lei tornando a posse privada de animais selvagens um crime contra o meio-ambiente, punível por prisão.

Até agora, multas de 20 a 30 euros por manter esses animais dificilmente eram um impedimento. Mas a Albânia quer atrair mais turistas – e não quer mais causar controvérsias sobre abuso animal.

O Ministro do Meio Ambiente, Lefter Koka, insiste que o tempo de impunidade acabou: “Crueldade para com os animais não pode ser uma atração turística”.

“Nós já identificamos mais de 50 ursos em jaulas”, Koka disse ao AFP.

Vários deles já foram enviados para parques e santuários em outros países europeus, enquanto dois filhotes estão indo para a Alemanha.

Mas e as outras dezenas de ursos que são incapazes de redescobrir uma vida selvagem completa?

Esses animais estão “estressados, passivos, eles mordem, eles perderam todos os reflexos para se alimentarem sozinhos, eles estão tristes”, disse Zamir Dedej, o diretor geral da Agência de Proteção Ambiental da Albânia.

“Nosso espaço é limitado e nós não podemos mantê-los aqui por muito tempo”, disse Mirjam Kastrato, diretor do pequeno zoológico em Tirana, que é cercado de torres de concreto.

Um parque iria custar mais de quatro milhões de euros, uma soma exorbitante para a Albânia, um dos países mais pobres da Europa.

Entretanto, Koka está determinado a continuar com seu projeto “Floresta de Ursos”, o qual ele imagina ser na montanha Dajti, 10 km a oeste de Tirana.

A tradição da exibição de ursos cativos possui uma longa história nos Balcãs. Na Sérvia, uma frase comum para dispersar uma multidão curiosa é: “O que está acontecendo? Uma ursa fêmea está dançando?”.

Apesar de tal captura ter sido proibida na Albânia sob o ditador Enver Hoxha, o período de anarquia que viu o colapso do comunismo no começo dos anos 90 abriu a porta para essa prática.

A natureza, assim como as fábricas, foi saqueada. Faisões, assim como as águias – o emblema do país – desapareceram quase completamente das montanhas. Assim como os ursos, eles eram oficialmente protegidos. Mas ninguém protestou.

Koka diz que os cidadãos precisam de educação para que a Albânia consiga preservar e restaurar sua rica vida selvagem – e parece que mudar as mentalidades pode levar algum tempo.

“A Mesa do Urso”, um restaurante chique em Tirana, atrai membros da elite da cidade, e já recebeu a primeira dama dos EUA Laura Bush entre seus clientes famosos.

Antes de se sentar para comer, a moda é ser fotografado com Mark e Liza, 22 anos de idade, que durante uma década só conheceram sua jaula.

Fonte: The Nation

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