Opinião: A tourada não é um bailado

Há poucos dias, a líder do CDS (Partido Popular, de Portugal) brindou o país com a sua opinião sobre as touradas. Quando questionada por um jornal semanário se apoiava as iniciativas tauromáquicas promovidas pela Juventude Popular, disse que “se pensar muito, muito, muito, muito, muito, talvez [tenha pena dos animais]”, “mas eu olho para a tourada como uma expressão de cultura e olho para a tourada como um bailado”.

A comparação entre uma tourada e um bailado não é só infeliz, é mesmo um rotundo disparate. Ora, se os bailes do CDS são tão violentos quanto as touradas, fico mais descansado por nunca ter ido a nenhum. Ninguém acharia normal ver bailarinos e bailarinas a investir contra um pano vermelho, enquanto lhes são cravados ferros e bandarilhas nas costas. Só o absurdo desta imagem mostra como as coisas não são comparáveis, mas a intenção na verdade é outra: atribuir à tourada um naturalizado e incontestável estatuto de património cultural. Daí a tentativa de colagem a um verdadeiro ato cultural, como um bailado, para lavar a imagem dessa realização sangrenta.

A tourada não é cultura, é tortura. O touro não é convidado para uma dança, é vítima de violência gratuita, sujeito a uma lenta agonia que termina, na vastíssima maioria das vezes, com o seu abate no matadouro. Já agora, o touro nem sequer tem possibilidade de negar o convite para fazer parte da macabra “dança”.

Assunção Cristas prossegue na sua dissertação, tentando novas abordagens argumentativas para legitimar as touradas. O argumento que se seguiu foi o mesmo, exatamente o mesmo, que os aficionados das touradas empregam há décadas: apresentar exemplos de intelectuais insuspeitos que gostem (ou tenham gostado) de touradas. Assim, seguindo o cliché, Cristas disse que “se olharmos para grandes mestres como Picasso ou como Hemingway, pensamos que não estamos sozinhos nisto”. Retiradas do contexto histórico, assume a líder centrista que manteriam para sempre estas convicções.

A utilização deste truque para banalizar o gosto pelas touradas merece uma atenção especial. Em primeiro lugar, porque não é por alguém (mesmo Picasso ou Hemingway) gostar de touradas que esse espetáculo deixa de ser uma violência condenável. Isso contribui mais para desmerecer as considerações individuais do que atribuir pontos às corridas e às largadas de touros.

Mas há um pormenor curioso. É que a sobranceria com que Assunção Cristas deu o exemplo do “mestre” Hemingway acompanha o seu desconhecimento sobre o pensamento do escritor nesta matéria. Em 1932, Hemingway dedicou um livro inteiro às touradas, Death in the Afternoon. Como se espantaria a presidente dos democratas cristãos se tivesse lido atentamente o que o norte-americano escreveu: “Acho que, de um ponto de vista moral moderno, ou seja, um ponto de vista cristão, toda a corrida de touros é indefensável; há certamente muita crueldade, há sempre perigo, seja procurado ou de modo inesperado, e sempre existe a morte, e eu não deveria tentar defendê-la agora, só para dizer honestamente as coisas verdadeiras que eu encontrei acerca dela.” Hemingway teve a honestidade que faltou à líder do CDS.

O envolvimento de Assunção Cristas neste debate deita por terra a linha política que a própria tentou sancionar no seu recente congresso, onde procurou, de todas as formas e feitios, afirmar o CDS como um partido de futuro. Como se vê com este caso em concreto, descontado o marketing do fim de semana, não é por acaso que o CDS ocupa as cadeiras mais à direita do Parlamento português. É a força política do contraciclo conservador. Num momento em que a sociedade portuguesa está a evoluir, com uma crescente maioria de pessoas a considerar as touradas um anacronismo sem lugar no nosso tempo, os centristas decidem apresentar-se como advogados de defesa da indústria tauromáquica.

Felizmente, há uma mudança positiva na generalidade das mentalidades do nosso país. O exemplo mais recente vem dos estudantes da Academia de Coimbra. Chamados a responder à pergunta “Deve o evento garraiada continuar no programa oficial da Queima das Fitas?”, a resposta de 70,7% dos estudantes que participaram no referendo, realizado nesta terça-feira, foi um rotundo “não”. Uma esmagadora maioria entre os 5638 estudantes que participaram do ato eleitoral. Coimbra terá agora mais encanto sem a garraiada na hora da despedida.

Por Pedro Filipe Soares (Líder parlamentar do Bloco de Esquerda em Portugal)

Fonte: DN / mantida a grafia lusitana original

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