Os cavalos nasceram para tração

Por Marcio de Almeida Bueno   

Essa foi uma frase que ouvi recentemente, justamente de uma pessoa preocupada com os maus-tratos que a grande maioria dos cavalos sofre por ocasião de sua labuta diária puxando carroças. No seu entender, havia uma troca de trabalho por comida e cuidados, nos casos em que o carroceiro tem bom senso. Não concordei.

Lembrei-a de que ‘lá fora’ as pessoas realmente acreditam que o cavalo nasceu para puxar carroça. Está à disposição da humanidade como a laranja serve para fazer suco, a água para ser bebida ou para lavar a calçada, o ar para respirar etc. E, de alguma forma, foi-lhe dado um conjunto de quatro patas e robustez que o homem, dentro de seu caráter de usuário, já adonou-se para daí extrair o máximo. Um usufruto sagrado, para muitos que acreditam que tudo está aqui por um motivo, por desígnios superiores. Seria uma desfeita não aproveitar isso.

Em um segundo nível, como estava ela, havia pessoas que refletiram sobre a questão, pesaram as partes, incluíram ingredientes do tumulto social em que vivemos e escolheram a opção 2. Coloca-se o cavalo para trabalhar, já que o dono vai estar trabalhando também, cuida direitinho, e ninguém se incomoda. “Sou do tempo em que muito carroceiro dormia na baia, junto com o cavalo”, comentou. Um escravo de barriga cheia.

Romântico demais. Apontei que o cavalo iria de bom grado se enfiar nos arreios, se ‘natural’ fosse. E se ‘natural’ passasse a ser a regra, como arrotam muitos dos comedores de carne e bebedores de leite, mortes impunes fariam parte do dia-a-dia, sexo entre familiares seria aceitável, e liderança tomada à força estaria escrita na pedra da lei.

O cavalo é domesticado a ferro e fogo, ferrado nos cascos, com dentes arrancados ou limados, obrigado a correr e puxar peso o dia todo com ferros na boca, à base de muito chicote e espancamento. Não imagino quem se disponha a encarar essa vida, de forma voluntária, somente para pagar a própria comida – capim e água?! Como se a maioria dos cavalos, pelo menos aqui em Porto Alegre, não fosse esquelética…

Em um terceiro grupo, estão os abolicionistas. Aqueles que perceberam o erro em todo o sistema e conseguem ver que, sobre as ferraduras, está um animal retirado de sua liberdade para servir a um humano. Aqueles que lutam para que, no futuro, tudo isso seja visto como um absurdo, como um crime cometido contra cada animal que nasceu para trabalhar, que nasceu para sentir dor, que nasceu para ficar preso, que nasceu para não escolher o que fazer. Que nasceu para morrer. 

Fonte: ANDA


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