Os chimpanzés de laboratório da Libéria têm esperança, um ano após o abandono pelo Centro de Sangue de New York

Os chimpanzés de laboratório da Libéria têm esperança, um ano após o abandono pelo Centro de Sangue de New York

Por Britt Mann / Tradução de Alice Wehrle Gomide

Quando ela chegou, seu peso nem era registrado na balança. 

A chimpanzé de quatro meses de idade estava vivendo de arroz e um pouco de mamão. Seu corpo careca, desidratado no calor do Oeste Africano, foi coberto por uma camisa imunda de manga comprida.

A bebê tinha testemunhado a morte de sua família pelo caçador que a capturou.

Quando ela chegou, ela estava gritando.

Jenny Desmond pegou a chimpanzé em seus braços e pensou: “Ela vai morrer”.

Já faz seis meses desde que Lucy foi deixada com os Desmonds, por uma mulher que tentou entregar a chimpanzé em troca de dinheiro.

Hoje, Lucy tem uma barriga arredondada. Seus olhos são brilhantes, seu corpo está cheio de pelos. Ela ri, até mesmo quando dorme.

Recentemente, sua habilidade de escalada melhorou. Ela é, Jenny diz, “simplesmente uma linda pequena menina”.

Lucy agora tem uma nova família, embora uma pouco ortodoxa.

Seu irmão adotivo Rudolph tem quase a mesma idade. Ele foi confiscado pela Agência de Desenvolvimento Florestal da Libéria de um expatriado que estava aparentemente traficando chimpanzés.

Os jovens passam seus dias em um cercado ao ar livre sob o olhar cuidadoso de uma mulher local contratada para cuidar deles.

Em troca, Lucy e Rudy observam os chimpanzés mais velhos, também órfãos, através de uma grade. Escola de chimpanzés, diz Jenny.

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Quando a noite chega, os símios mais jovens retornam à casa dos Desmonds – um pequeno pulo de seu cercado – para tomarem suas mamadeiras. A hora de dormir envolve uma hora ou mais de brincadeira, abraços, fazer cócegas e rir antes dos bebês “apagarem”.

Se eles acordam com o barulho de uma tempestade, Jenny corre de volta para o quarto.

“Eles nunca, jamais são deixados sozinhos, exceto se eles estão dormindo pesado e nem sabem que eu não estou no quarto”, ela diz. Um pouco depois das 22 horas, os Desmonds vão para seu quarto. Após dar aos bebês outra mamadeira, Jenny, Jim e sua cachorra Princess se aconchegam no quarto ao lado deles.

“O Jimmy ganha um pedacinho da cama, bem no canto”, Jenny diz, com uma risada.

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‘COMO PODEMOS IR EMBORA?’

Quando os Desmonds chegaram à Libéria há um ano, eles não esperavam ficar.

O casal tinha um trabalho engatinhado para gerenciar o santuário de primatas na Conservação Colobus no Quênia – Jenny como uma consultora de bem-estar animal e conservação, e Jim como um veterinário de animais selvagens.

Em julho de 2015, o casal recebeu uma ligação da Humane Society of the United States (Sociedade Humanitária dos EUA). Eles foram informados de que 66 chimpanzés foram abandonados para morrer de fome em uma série de ilhas na Libéria. Eles poderiam ajudar?

Os animais foram usados para pesquisa pelo Centro de Sangue de New York (NYBC), uma organização sem fins lucrativos, por cerca de 30 anos. Quando o programa de pesquisa acabou, os animais foram aposentados e enviados para as ilhas de mangue mais à frente do laboratório.

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As seis ilhas, acessíveis somente por barco, não tinham comida ou fontes consistentes de água fresca.

Por cerca de 10 anos, o NYBC pagou aos antigos captores dos chimpanzés para transportar comida e água a cada dois dias. Então, no meio da pior epidemia de Ebola na história, o NYBC parou de pagar.

Eles nunca foram donos dos chimpanzés, eles alegaram. Eles eram responsabilidade do governo da Libéria.

Aqueles que eram pagos para alimentar os chimpanzés se sentiram traídos. Eles tinham perdido seus empregos e lutavam para manter os animais vivos com alimentos doados e seus próprios fundos escassos.

Alguns deles conheciam os animais desde quando ainda bebês. Agora, eles estavam vendo os animais morrerem.

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Talvez o NYBC pensasse que ninguém notaria. Mas cientistas internacionais que visitaram a antiga residência dos chimpanzés durante a crise de Ebola, agora o centro de pesquisa do vírus na Libéria, notificaram a Humane Society.

Essa foi a primeira visita dos Desmonds ao pequeno país do Oeste Africano, o local de uma das guerras civis mais grotescas da África. Eles foram lá para implantar medidas de emergência: comida, água, controle de natalidade.

O casal já tinha trabalhando com símios traumatizados, órfãos e doentes em Uganda e na República Democrática do Congo. Mas eles nunca tinham visto algo assim.

Os chimpanzés estavam magros, seus pelos tinham buracos, seus olhos estavam sem brilho. Eles brigavam por comida. Eles estavam desesperados.

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Jenny se recorda daquela primeira viagem à “Ilha dos Macacos”.

“Nós estávamos em lágrimas”.

TRABALHO SEM DESCANSO

Os Desmonds planejaram ficar na Libéria por cinco semanas. Um ano depois, eles ainda estão lá.
Eles recusaram o trabalho no Quênia, com a casa na praia e os fins de semana livres, para supervisionar o projeto Liberia Chimpanzee Rescue (LCR – Resgate dos Chimpanzés da Libéria) em nome da Humane Society.

“Nós não temos dias livres, nós não temos horas livre”, Jenny diz.

“Nós sabíamos que seria a coisa mais desafiadora que já tínhamos feito”.

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Princess foi o fator decisivo. A cachorra resgatada, que já foi mãe adotiva de diversos animais ao redor de sete países, era uma parte não negociável do acordo. Se ela fosse permitida na Libéria, e pudesse ser evacuada em uma emergência, os Desmonds retornariam.

Naquele novembro, o trio se mudou para Charlesville, 75 minutos de distância de carro da capital, Monrovia.

Hoje, os Desmonds são guardiões de dois grupos: os chimpanzés aposentados nas ilhas, e os órfãos resgatados em terra.

Os órfãos, Jenny diz, não eram parte do plano.

“Isso foi um aspecto completamente novo deste papel, e é enorme”.

Os Desmonds e os órfãos vivem na antiga residência dos chimpanzés: o Instituto Libéria para Pesquisa Biomédica.

As jaulas que encarceraram os animais durante décadas estão enferrujando no local.

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O LCR vem recontratando muitos dos homens que mantinham os chimpanzés vivos nas ilhas. É uma oportunidade de reconciliação, até mesmo redenção.

Vestidos com uniformes brancos dos seus dias no laboratório, os homens jogam comida para os animais que uma vez eles mantiveram em cativeiro.

Juntar comida suficiente para alimentação diária é uma operação em escala militar. Frutas e vegetais são provenientes de fazendeiros e mercados ao redor do condado; outros alimentos são entregues no local, ou coletados de vilas ao longo do rio durante a viagem diária de cinco horas para as ilhas.

A comida custa US$ 200 por dia. O custo total de operação do projeto gira em torno de US$ 20.000 por mês, cobertos por uma rede de patrocínios, doações e angariação de fundos.

A cada manhã, a fruta é lavada em uma solução antibacteriana, cortada manualmente, e dirigida uma pequena distância até a doca. O produto é carregado dentro de botes motorizados, dirigidos por pelos menos três da equipe de 32 do LCR.

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Dois dos homens distribuem a comida enquanto um fica vigiando. Ultimamente, os cuidadores mantem distância dos chimpanzés. Os animais não são agressivos, mas eles são fortes.

Segurança – tanto para os humanos como para os animais – é a principal razão pela qual os Desmonds desencorajam turistas que querem visitar as ilhas com pescadores locais.

“Se um chimpanzé quer virar uma canoa, ele pode fazer isso em dois segundos”, Jenny disse.

Um chimpanzé pode roubar o pedaço de fruta de seu amigo em alguma ocasião. Mas pela maior parte, eles são bem comportados.

Jenny vai nas viagens de alimentação ao menos uma vez por semana, observando os cuidadores em ação desde o barco. Por uma doação de US$ 50, visitantes podem ir junto.

“Agora, os chimpanzés estão simplesmente sentados lá. Eles estão cuidando do pelo ou brincando – eles não param o que estão fazendo só porque a comida está chegando, eles sabem que a comida sempre vem”, Jenny diz.

“É algo realmente lindo de se ver”.

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QUEBRADOS, NÃO AGREDIDOS

Os animais possuem poucos sinais físicos do que eles enfrentaram na instalação de pesquisa, o agora extinto Vilab II.

Os chimpanzés, capturados da natureza ou trazidos por traficantes de animais, viram suas famílias serem mortas e tiverem seus bebês arrancados deles. Eles viram seus amigos serem tranquilizados e levados embora em carrinhos.

Como sujeitos de pesquisa, eles foram infectados com hepatite e o parasita que causa “cegueira do rio”, entre outros patógenos. Eles passaram por biópsias do fígado, incontáveis testes sanguíneos, e tiveram infecções pulmonares que não sararam.

Algumas tinham sido anestesiados até 400 vezes.

Quando uma equipe de filmagem visitou as ilhas, os chimpanzés se recusaram a vir até a praia até que o tripé fosse recolhido. Eles pensaram que poderia ser uma arma tranquilizadora, Jenny acredita.

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“Eu acho que os chimpanzés levaram um longo tempo para realmente confiarem que ninguém estava vindo para levá-los de volta ao laboratório”.

“Eles ainda devem pensar, cada vez que a gente vem, ‘Eu me pergunto se alguém vai nos levar para longe’”.

REPÚDIO

Jenny diz que a natureza das pesquisas com chimpanzés é desumana, mesmo se não for maliciosa.

Outros veem os experimentos como um mal necessário. O website do NYBC declara que mais de um milhão de vidas foram salvas através das vacinas e terapias com células tronco desenvolvidas no Vialab II.

O NYBC sustenta que não deve nenhuma responsabilidade aos chimpanzés. E ignorou os pedidos do Fairfax por comentários.

Os chimpanzés abandonados continuam a aproveitar o apoio de congressistas, celebridades e uma forte petição com 200.000 assinaturas pedindo ao NYBC que pague suas dívidas.

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A Humane Society relata que o NYBC possui mais de US$ 475 milhões em ativos, e uma receita anual de mais de US$ 300 milhões.

“O Centro é bem mais do que capaz de continuar a fornecer apoio vitalício para os chimpanzés em Libéria e previamente já tinham prometido fazer isso”.

Recentemente, a organização mudou seu website e colocou: “O NYBC está disposto a discutir esses assuntos com qualquer organização legítima de direitos dos animais”.

“Eu acho que eles estão percebendo que isso não vai sumir”, Jenny diz.

“Eles podem continuar a lutar contra, ou eles podem se responsabilizar e fazer algo a respeito. O momento que eles queiram fazer isso, nós estamos prontos para conversar com eles. Nós nunca fechamos essa porta”.

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EPIFANIAS MÚTUAS

Não foram os chimpanzés que uniram Jenny e Jim, mas cerveja. O casal, criado na Califórnia e no Maine, respectivamente, se conheceu em uma cervejaria em Boston.

Como recém-casados, eles viajaram ao redor do mundo. Os amantes de animais visitaram a vida selvagem local em cada oportunidade, conseguindo um bico de voluntários em um santuário de orangotangos em Bornéu.

Jenny diz que ela estava trabalhando em vendas e marketing – “o que eu amava” – enquanto Jim estava trabalhando em um laboratório – “o que ele odiava”.

Foi em Bornéu que Jenny teve seu momento de epifania proverbial. Ela não precisava ser uma bióloga ou guarda-florestal para trabalhar com animais. Ela poderia trabalhar em resgates.

Jim foi inspirado por um veterinário no santuário que estava pesquisando a transmissão de doenças entre humanos e animais. Talvez ele pudesse mudar de área.

O casal não brincou na hora de procurar conselhos sobre carreiras. Eles escreveram para a primatologista internacionalmente renomada, Jane Goodall.

“Eu não sei o que eu pensei”, Jenny diz. “Como, se ela iria me responder – é, até parece. Mas ela respondeu”.

Para fechar sua experiência em conservação, o casal se mudou para Uganda para gerenciar a Fundação Internacional Rinoceronte.

Um dia, eles receberam um chimpanzé órfão.

Matooke viveu com os Desmonds por muitos meses, Jenny diz. Hoje, ele é o alfa do seu grupo.

“Eu acho que foi isso que realmente fechou o assunto para nós”.

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O casal retornou para os EUA, onde Jim passou cinco anos estudando para conseguir um diploma de veterinário, e Jenny completou seu mestrado em trabalho social.

“Isso foi meio assustador porque nós tínhamos esperança que isso tudo compensasse, e que a gente pudesse voltar”, Jenny diz.

Ela é honesta sobre os desafios da vida na Libéria.

Fornecimento de eletricidade e água aleatório, conexões instáveis de telefone e internet; equipamentos antigos; fornecer aos chimpanzés uma dieta variada e nutritiva em um país que quase não consegue alimentar suas próprias pessoas. A chuva torrencial, o calor sufocante. Dois bebês exigindo atenção constante.

E mesmo assim, o casal pode alcançar um feito inédito: estabelecer um santuário de chimpanzés na Libéria.

Seweet Pea, Portea, Guey, Rudy e Lucy – os primeiros residentes do santuário incipiente – são os sortudos.

Jenny sabe de 10 chimpanzés que precisam de resgate.

“Eu tenho certeza que existem muito mais que a gente ainda não está sabendo”.

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‘A LIBÉRIA TEM A CHANCE DE FAZER ALGO INCRÍVEL’

Um santuário não é somente um repositório para carinhos quentes, reais ou metafóricos. É crucial para a conservação da vida selvagem na Libéria.

A lei liberiana dita que é ilegal matar, ser dono ou comercializar um chimpanzé, mas sem um local para levar os animais confiscados, é muito difícil para as autoridades agirem.

Agindo como um impedimento, o santuário irá fornecer proteção indireta para 7.000 chimpanzés caçados pela carne ou traficados como animais de estimação, fora de suas fronteiras.

Enquanto a chuva cai, os Desmonds estão planejando a próxima fase do projeto: construir um santuário em terra, e construir infraestrutura nas ilhas. Os chimpanzés terão um abrigo, e receberão cuidados médicos. Enquanto isso, os Desmonds não deixam as ilhas.

Quando Lucy e Rudy tiverem 18 meses de idade, eles serão integrados aos outros órfãos no local.

Um dia, tudo indo conforme planejado, o grupo terá uma ilha para chamar de sua.

COMO VOCÊ PODE AJUDAR

Assine a petição pedindo para que o NYBC volte a pagar os custos.

Doe através da campanha Go Fund Me.

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Assista ao vídeo em https://assets.stuff.co.nz/video/production/1468532762567-Stuff_1%20(1).mp4

VIDEO: Jenny e Jim Desmond passaram um ano tentando trazer os chimpanzés abandonados de volta à vida.

Fonte: Stuff

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