Os que fazem e os que só falam

O título sugere, erroneamente, que vou também endossar uma forma de preconceito fundada por aqueles que, deliberadamente e arbitrariamente, elegem a sua própria maneira de agir ou a sua habilidade desenvolvida, enfim, sua forma de ser nesse mundo, seja ela qual for, mesmo que exemplar para boa parte dos que estão ao redor, como balizadora para hierarquizar todos os demais que ali não se encaixam como inferiores ou como maneira de desprezar ou fazer pouco caso dos que não se enquadram no grupo dos que se acham no direito de eleger sem muita atenção os critérios do que é “certo”, louvável, digno e adjetivos não faltam para esse sectarismo que julgo inadequado e que não passa de uma autoproclamação para atribuir uma suposta superioridade aos que se negam a refletir sobre isso com um pouco mais de profundidade. Esse preconceito é recorrente nos diversos setores da nossa sociedade que parece sofrer de uma complicada doença ou carência tipicamente imatura de seus membros ensandecidos pela notoriedade, pela necessidade de pertencer a uma pretensa casta dos importantes, dos bons, dos detentores de potenciais que outros não seriam capazes de obter e muitas vezes desejam mesmo que “os de fora” não possam fazer parte dos “escolhidos”, pois, assim, não seriam mais tão bons ou tão importantes uma vez que estariam diluídos numa multidão. Então, fazendo uso dos recursos que dispõem, desde os de ordem intelectual, profissionais, práticos, artimanhas maliciosas e sejam quais forem, acabam por traçar linhas divisórias as mais intransponíveis possíveis para defender seus altares e proteger uma fragilidade e fraqueza óbvias. Muito duvidoso. Tudo isso não é muito diferente dentro do movimento que pretende livrar os outros animais da selvageria assassina imposta pela espécie animal a qual pertencemos.

O que virá a seguir pretende ser a exposição de algumas perspectivas e exemplos reais e hipotéticos, ainda que perfeitamente observáveis no cotidiano, e de forma alguma será uma defesa da estagnação, da inércia ou da indiferença, pois é vital que possamos sempre, cada qual no seu momento mais propício, desbravar novos caminhos, descobrir em si capacidades, habilidades, motivações entre outras qualidades antes adormecidas ou não desbravadas. Mas também é extremamente importante perguntarmos a nós mesmos se tais qualidades estão mesmo adormecidas em níveis mais profundos ou se estamos fingindo não tê-las, fingindo não dar atenção para questões urgentes como as que envolvem a tortura e assassinato de animais para os diversos propósitos que o bicho homem ainda insiste em dar prosseguimento mesmo que tenha alternativas e que seja possível viver sem fazer parte de toda essa maldade, pois como já disse Jonathan Safran Foer no seu livro “Comer Animais”, você até pode acordar alguém adormecido, mas é impossível acordar quem finge estar dormindo.

Retornando aos que fazem e aos que só falam, amparados no entendimento inicial desse texto, mesmo que essa classificação em dois pólos não tenha uma contrapartida justa com a realidade ou não tenha contrapartida alguma, vamos incluir alguns outros nesse universo forçosamente e beneficamente plural.

É sensato e mais comum, ainda que as exceções sejam também sensatas e nada incomuns, esperarmos que alguém tenha mais afinidade e competência na área em que se especializou ou que tenha optado em exercer, ainda que seja possível sempre ampliar os horizontes ou simplesmente levar a vida fora dos padrões mais disseminados uma vez que viver é infinitamente mais antigo que as regras, muitas delas toscas, que regem a história do animal humano.

Alguns enveredam para atividades embasadas em etapas diversas envolvendo as, por exemplo, teóricas e práticas, e que culminam em procedimentos mais práticos num sentido de intervenções corpo a corpo, vamos dizer. Outros, para produções de certo modo intangíveis, ainda que tenham o potencial de produzir modificações ou até revoluções nas estruturas de seu entorno, que pode ser seu grupo de amigos, familiares, sociedade, time de futebol, e tais entornos são muito numerosos, basta estar disposto e com a mente aberta para imaginá-los. Apenas para exemplificar rapidamente, para o primeiro caso poderíamos citar um médico veterinário e para o segundo um escritor ou poeta, ainda que em ambos os casos, dependendo da vontade de prosseguir cumprindo os requisitos demandados, seja possível a mesma pessoa desempenhar as duas atividades. Mas não é esse o ponto que quero destacar agora.

No contexto dos defensores dos animais que são signatários do preconceito irrefletido mencionado no começo desse texto, o médico veterinário que dedicasse parte de seu tempo, recursos e expertise numa assistência voluntária aos animais ao seu alcance seria uma pessoa que “faz”, não fica falando, de fato faz. Isso bem que é verdade e deve ser devidamente reconhecido e incentivado. Precisamos, os animais precisam, de muitos mais assim. Mas dessa premissa evoluir para uma conclusão que o coloca, o médico veterinário, acima, que tenha superioridade sobre ou seja usado como exemplo para desprezar os que “apenas falam” não faz sentido algum, uma vez que o poeta ou escritor desse nosso caso fictício, ainda que com muitas semelhanças na nossa realidade, não empreitou sua vida para atuar no âmbito do médico veterinário, mas no universo das palavras escritas e faladas. Seria absurdo esperar do poeta ou escritor um bom desempenho num procedimento cirúrgico. São universos diferentes e cada um exerce uma função própria. O contrário também é verdadeiro. Não é porque o escritor ou poeta produza obras literárias ou científicas fantásticas que colabore ou dê os fundamentos da causa animal, e precisamos de muitos desses até como meios para inspirar para a causa os médicos veterinários sensíveis às palavras dos que “só falam”, que ele estaria numa forma de pedestal acima do médico veterinário que faz seu trabalho com competência, mas não tem ou não desenvolveu aptidões na esfera das artes das letras. Não faz sentido algum pregar esse tipo de ranço. Incentivar o avanço de cada um, de forma construtiva e positiva, na direção de novas colaborações possíveis de se empregar já é outra coisa, e, tristemente, não vemos muito isso tanto quanto desejamos. Na verdade tudo faz parte de um intrincado complexo interligado de maneiras que mal podemos tentar adivinhar.

Esses foram apenas dois exemplos. Muitos outros poderiam ser dados, onde profissões ou aptidões diferentes acabam por serem indevidamente comparadas ou usadas maliciosamente para autopromover determinado grupo às custas de outro. Os resultados dessa prática que não me agrada em que os propósitos parecem ter um compromisso mesmo é com a autopromoção que amenizaria ou aplacaria um possível sentimento de desalento, fraqueza, pobreza de espírito ou por pura ignorância podem ser imprevisíveis, tanto para o bem quanto para o mal. Uma coisa é certa: existem alternativas para incentivar as pessoas a irem além sem fazer chacota com a sua área de escolha, inata ou própria de atuação. É possível sentir-se bem e ter sua atuação reconhecida sem ter que rebaixar os demais que optaram pelos outros caminhos indispensáveis que também fazem parte dessa complicada engrenagem.

Será que devem muitos ainda insistir nesse estranho interesse em rebaixar os que “só falam” em prol dos que “fazem”? Sabemos que o silêncio por si só já diz muito, chega a ser insuportável em determinadas ocasiões, comunicando muito mais que mil palavras ou ações. Então, se por via do silêncio alterações significativas podem ocorrer entre os envolvidos, como insistir em querer criar essas hierarquias sem função clara, além das duvidosas e já descritas lá no topo, uma vez que até o “não falar” repercute na realidade prática até com mais força que muitas ações que são irmãs gêmeas do “fazer”?

Claro que determinadas pessoas congregam ou combinam uma gama de aptidões, habilidades e disposição para, por exemplo, atuar na sua profissão em prol da causa (tanto o médico veterinário como o escritor), levantar bandeiras em manifestações, conversar, educar, escrever, participar de discussões, ser ativista em grupos organizados, advogar e a lista é longa. E isso é bom! Mas a questão principal permanece: isso concede algum direito de rebaixar quem atua de forma diferente seja por opção seja por singularidade? Será que o esperado não seria um incentivar, mesmo que através de provocações respeitosas, os passos adiante de quem pode caminhar, porém tendo consideração pela diversidade necessária e importante para todo o complexo que nos encontramos e dependemos dentro da causa animal? Qual poder mágico foi concedido ao acusador preconceituoso que o permite invadir o espaço íntimo e subjetivo de alguém para desvendar e julgar negativamente as suas formas bem peculiares de agir, simplesmente por serem diferentes das que o acusador pretensamente, arbitrariamente e deliberadamente elegeu como as “certas”, sejam elas quais forem? Conheço pencas de pessoas que no maior dos silêncios, sem fazer parte de organização alguma, o que faz com que sejam mal vistos ou desprezados pelos preconceituosos em questão, colaboram da sua maneira quando se indispõem em encontros gastronômicos familiares, o que causa um ruído no tabu estabelecido e dá visibilidade para a causa dentro desses núcleos, que em algum momento apresentam algum trabalho acadêmico para sua turma em sala de aula tratando da questão e despertando consciências ou, pelo menos, trazendo o assunto para o debate, que pedem para algum dono de restaurante incluir opções sem animais e explicam o porquê disso e o rol de atitudes quase invisíveis aos olhos de quem não quer enxergar para poder manter seu status superior fantasioso é enorme. Como mensurar os resultados ou repercussões de cada peça dessa formidável engrenagem? Quem aí se arrisca? Sabemos hoje que pessoas que fazem trabalhos fantásticos, de maior vulto vamos dizer, sem desprezar os também fantásticos silenciosos e indiscutivelmente vitais, seja no universo do “fazer” ou do “falar”, foram influenciadas ou tiveram suas vidas transformadas em momentos completamente singelos mas, ainda assim, fundamentais dentro do todo, como conseqüência de ter assistido um documentário ou filmagem apresentado por um amigo, em decorrência de um bate-papo na hora de um almoço qualquer, por ter tido a oportunidade de ajudar um animal em apuros e ter visto a “vida” ou gratidão em seus olhos, e aqui também a lista é extensa. Mais uma vez repito que não estou defendendo a estagnação ou inércia, pois passos adiante podem e devem ser dados, mas colocando em perspectiva um paradigma extremamente rico e necessariamente diversificado que exige reflexão e consideração antes que pessoas se achem no direito de pregar hostilidades e preconceitos descabidos.

Alguns podem não ter entendido a mensagem até agora e dizer ou pensar algo nesses termos, mesmo que esses termos não passem da minha fantasia para ilustrar: “então não vamos fazer mais nada e vamos ver no que dá. Vamos deixar nas mãos dos que não fazem nada, só sabem falar”. Para esse caso fantasioso, nada me restaria a não ser pedir que o texto seja lido novamente com mais atenção tendo em mente que cada coisa tem seu lugar e sua função numa saudável e necessária interdependência. É como uma orquestra completa. Cada instrumento, por mais inaudível que possa parecer para um ouvido não treinado, está cumprindo exatamente o seu papel na sinfonia. 

Fonte: ANDA


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