Papagaios em cativeiro

Papagaios em cativeiro

É frequente e em alguns lugares crescente, o número de pessoas que ainda insistem em manter papagaios em cativeiro, como animais de estimação. A capacidade destes animais reproduzirem a fala humana leva à falsa crença de que ocorre uma interação proveitosa bilateral entre a ave e o humano. Constam na literatura casos de aves desta espécie que passaram a identificar um grande número de palavras e seu significado, atestando sua inteligência, o que não deve ser interpretado como uma justificativa para sua manutenção em prisão perpétua.

Há que se considerar que nenhuma ação humana irá compensar a falta de liberdade, a ausência de interação com a própria espécie quando se desenvolvem as habilidades naturais.

Papagaios geralmente se acasalam entre si formando casais estáveis por toda a vida, reproduzindo no mesmo local e criando os filhos por muitos meses após a saída do ninho. No cativeiro humano, geralmente mimetizam este comportamento e passam a aceitar apenas uma pessoa, rejeitando as demais pessoas da família com agressividade. Esta ave que foi “induzida a se acasalar com um pessoa” passará a ter uma vida atormentada, uma vez que não poderá desfrutar da companhia desta pessoa em tempo integral, como seria em vida livre com seu par natural. A pessoa tem que sair para suas atividades rotineiras como trabalhar e estudar deixando a ave só. Este afastamento do “parceiro”leva a graves distúrbios de comportamento com auto mutilação, chamado de síndrome do arrancamento das penas. Temos então, muitos papagaios recebendo ansiolíticos e anti depressivos. O nível de frustração chega ao nível de após arrancar as próprias penas, a aves passa a retirar a própria pele e atingir a musculatura, na maioria das vezes evoluindo para óbito. Além da separação do falso par, o aprisionamento em uma gaiola ou mesmo dentro de uma casa, leva estas inteligentes e sensíveis aves a um estresse adicional pela monotonia de não ter o que fazer.

Além da monotonia e da solidão, estas aves ainda têm que lidar com uma alimentação totalmente inadequada, uma vez que a maioria dos papagaios em cativeiro é alimentada com sementes de girassol. Estes psitacídeos evoluíram na América do Sul onde não há naturalmente esta semente. O girassol é um alimento totalmente inadequado a estas aves, pobre em minerais e proteínas, mas rico em óleos de baixa qualidade nutricional. Estas aves passam a desenvolver quadro de hipertensão arterial, aterosclerose, infarto do miocárdio, dificuldade em repor as penas e infiltração gordurosa no fígado. No ambiente natural, estas aves comeriam uma variedade enorme de frutas, sementes, flores e como fonte de energia os frutos das palmeiras e todo tipo de castanhas, ao invés do girassol. Existem no mercado, rações comerciais para papagaios em forma de grãos uniformes como rações para cães, que podem ser mais adequadas nutricionalmente mas pecam pelo tédio de se ter sempre a mesma comida com o mesmo gosto( as aves têm papilas gustativas) e que acentuam o tédio do cativeiro, sendo um fator adicional que desencadeia a síndrome do arranchamento das penas.

As pessoas costumam dizer que a ave está solta e não vai embora porque não quer, quando na verdade nunca foi estimulada a voar e atrofiou totalmente a musculatura das asas, além de ter um fígado muito aumentado de volume pela infiltração gordurosa, prendendo-a como uma âncora ao chão.

Multiplicam-se no país os criatórios comerciais de papagaios. Os adultos, quando fazem a postura, que é de normalmente dois ovos ao ano, têm seus ovos retirados do ninho e criados em chocadeiras. O que acontece é que as aves farão nova postura, que não ocorreria naturalmente, e isto é feito várias vezes, aumentando a “produção”. Frequentemente estas aves, frustradas por não conseguirem criar filhos naturalmente, entram em grande estresse, desenvolvendo grave depressão e agressividade ou apatia total.

Este processo, que visa somente o lucro, é alardeado como uma forma de combater o tráfico de animais, supondo que as pessoas comprarão animais de cativeiro e deixarão de buscá-los no ambiente. Falso. A presença das aves nos domicílios estimula o desejo de outras pessoas que são compelidas a comprarem animais do tráfico, que são vendidas a preços irrisórios. Além disto, não há fiscalização eficiente dos criatórios e não são raros os casos onde os próprios traficantes retiram os animais da natureza e os repassam aos criatórios para serem vendidos como se ali tivessem nascido.

Não há nenhum benefício para a ave estar na companhia do humano, a não ser o estranho prazer de poder admirá-la e ter a sua “posse”.

Papagaios que foram mantidos em cativeiro durante anos e anos, são passíveis de readaptação e reintrodução no ambiente natural, ou seja o fato de ter sido criada em cativeiro não exclui a possibilidade de terminar sua vida em liberdade.

As ações da Polícia Militar Ambiental, ao recolher através de denúncia, as aves no cativeiro doméstico, são na maior parte das vezes frustradas quando há um ação por parte do “proprietário”( na verdade o algoz). Os juízes, ao julgarem a ação, normalmente ordenam a devolução da ave, considerando que ela é indispensável à saúde mental de quem a aprisionou. Esta situação não mudará enquanto os animais forem considerados objetos ( semoventes) pelo sistema jurídico brasileiro.

Não nos enganemos. Aquela ave falante e aparentemente feliz no cativeiro é apenas uma sombra, um espectro, um arremedo triste do que seria em vida livre. A pessoa que a mantém em cativeiro deveria procurar sua auto suficiência, fazer uma auto crítica e procurar formas mais éticas e produtivas de conviver com suas carências e necessidades afetivas.

Por Leonardo Maciel

Fonte: Olhar Animal


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