Pensando em comprar um cachorro neste Natal? O horror por trás do comércio de animais ‘de companhia’

Pensando em comprar um cachorro neste Natal? O horror por trás do comércio de animais ‘de companhia’
Todos os anos são recolhidos 140.000 cachorros e gatos abandonados na Espanha." FAADA

As organizações defensoras dos animais enviam uma mensagem para estas festividades: “Não compre, adote. Há muitos animais abandonados em busca de um lar”.

Um filhote convulsionando em estado angustiante; vários cães e gatos doentes e sem atendimento veterinário; uma total falta de higiene e até cartões de segurança social fraudulentos. Este foi o cenário que os agentes da Guarda Urbana e os técnicos da Oficina de Protección de los Animals (OPAB) encontraram quando fiscalizaram as instalações do Mundo Cachorro SL em outubro de 2015.

Deste inferno resgatou-se um total de 135 animais, dos quais 127 passaram à custódia pública no centro de acolhimento da Prefeitura de Barcelona. Foi preciso atender vários deles em caráter de urgência, e muitos foram hospitalizados com sintomas evidentes de doenças. Ao final, nove animais morreram.

Esta semana foi dada a sentença, pioneira na Espanha, que condenou os proprietários do comércio a um ano e um dia de prisão, inabilitando-os profissionalmente durante três anos e um dia, ou seja, impedindo-os de vender animais durante esse período. Segundo Eva Fornieles, coordenadora da Área de Animais Domésticos da Fundación para el Asesoramiento y Acción en Defensa de los Animales (FAADA), “é um avanço o caso ser tratado pelo Código Penal. É um avanço conseguir uma inabilitação: terão que passar três anos sem se dedicar a nada que tenha relação com animais”.

Espanha é o país da Europa com maior número de abandono de animais. Cada ano são recolhidos 140.000 cães e gatos

Anna Estarán, advogada especialista em Direito Animal, especifica para a FAADA: “Os donos do comércio não serão presos, porque não têm antecedentes, mas se reincidirem, correm o risco de serem presos. Também não podem ter animais. Embora pareça uma punição que não é proporcional ao enorme dano causado, essa sentença é um grande avanço para acabar com os maus-tratos a que muitos animais estão sujeitos em lojas e outros negócios, onde prevalece apenas o lucro, em detrimento do bem-estar e da saúde tanto de cachorros e gatos, como de outras espécies de animais”. Para Estarán, “é um começo, ao menos, pois pela primeira vez na Espanha os proprietários de uma loja são condenados por maus-tratos a animais e proibidos de continuarem com um negócio que causou tanto sofrimento aos animais que eram vendidos.

Os inquéritos foram produzidos após uma série de denúncias que chegaram à FAADA, de pessoas que compraram cães ou gatos que adoeceram ou morreram. Anna Estarán explica que “este tipo de denúncias é constante no nosso dia a dia”. Mas em temporadas ocorrem picos, principalmente quando alguma dessas lojas realiza esse tipo de ação. Em algumas ocasiões nós assessoramos as pessoas para que denunciem, e em outros casos, como nesse, denunciamos a partir de nossa organização.

O QUE HÁ POR TRÁS DA VENDA DE ANIMAIS?

Eva Fornieles e Anna Estarán asseguram ao jornal El Salto que esse tipo de acontecimento não é um caso isolado. A internet facilita todos os tipos de transações, e a venda de animais não é uma exceção. A FAADA pede que se coloque um fim nesse tipo de vendas de animais pela internet, uma vez que “não garantem o bem-estar e o destino dos animais e ainda transgridem as normas vigentes”.

O comércio de animais considerados “de companhia” é um negócio muito rentável. Na Europa, a venda de cães e gatos ultrapassa 1.300 milhões de euros por ano. Calcula-se que 42% dos cães e 22% dos gatos são legais, segundo a FAADA. Dados da Comissão Europeia apontam que há uns 60 milhões de cães e 66 milhões de gatos que vivem como parte de nossas famílias.

São muitos animais. De ondem saem? Infelizmente, conforme explica a FAADA, muitos dos animais vendidos na internet ou em lojas provêm das chamadas “fábricas de filhotes”, autênticas “fábricas” de cachorros que operam a partir da República Checa, Romênia, Hungria e Eslováquia, mas também de macrocriadores da Espanha. Nesses lugares “criam-se dezenas de raças diferentes e prima-se pelo lucro em vez do bem-estar do animal”, segundo Anna Estarán.

“Consideremos que devam ser proibidas a compra e a venda de animais. Os números de abandonos não baixam, a adoção não sobe. Continuar a permitir a venda enquanto não param de abandonar não faz sentido”, aponta Eva Fornales.

Estarán indica que estes lugares “são macrogranjas de cachorros, criados sem nenhum tipo de controle sanitário, sem nenhum tipo de bem-estar; as cadelas não param de dar crias, não têm descanso, os cachorros ficam doentes”. “As mães”, continuamente, são mantidas por toda vida em pavilhões muito pequenos, sem iluminação, sem condições higiênico-sanitárias, e sem nenhum tipo de atendimento veterinário.

Mas isso não ocorre somente em países do leste da Europa; na Espanha também há muitos casos, e a facilidade que a internet propicia contribuiu para a expansão do comércio ilegal também entre particulares. “É algo que estamos descobrindo com o passar do tempo, que há criadores desse tipo também na Espanha, embora seja muito difícil saber números, porque estamos falando de negócios ilegais”, reconhece a advogada.

Sem ir mais longe, e graças também à denúncia dessa advogada da FAADA, Barcelona abriu um processo há alguns meses para multar em 150.000 euros as plataformas Milanuncios e Vibbo, por difundirem anúncios ilegais nesse sentido.

Qual é a solução? “Consideremos que devam ser proibidas a compra e a venda de animais. Os números de abandonos não baixam, a adoção não sobe. Continuar a permitir a venda enquanto não param de abandonar não faz sentido”, aponta Eva Fornales, lembrando que “outros países se atreveram a dar o passo”.

Assim, na Espanha cada comunidade autônoma tem competências com a lei de proteção de animais, por que as regulamentações variam muito de um lugar a outro. Entretanto, em outros países, como Suécia, Croácia ou Finlândia, não é permitida a venda de cães e gatos em lojas. Nos Estados Unidos, a Califórnia também proibiu a venda (em São Francisco) e o mesmo ocorre no Canadá (em Vancover).

O advogado Daniel Dorado, presidente do Centro Legal para la Defensa de los Animales, concorda com a advogada Anna Estarán: “A proibição da venda de animais seria uma medida correta, mas seria pouco realista pensar que se conseguirá de maneira imediata. Não obstante, existem medidas que dificultam a compra e o comércio de animais, e que poderiam ser aplicadas sem uma grande oposição: proibição de exibição de animais em vitrines (para desincentivar a compra compulsiva), proibição da venda de animais que não tenham determinada idade ou que não estejam castrados, impostos especiais, etc.”, salienta ao El Salto.

É preciso parar a demanda

A Espanha é o país da Europa com maior número de abandono de animais. A cada ano são recolhidos 140.000 cachorros e gatos e, consequentemente, os centros de acolhimento estão permanentemente em colapso.

Na maioria das comunidades autônomas a política é matar esses animais para que não fiquem pelas ruas. Além disso, proíbem quem quer ajudar, como no caso dos aposentados de Calahorra, em La Rioja, que foram multados pela Prefeitura por ajudarem a alimentar e castrar gatos da comunidade, como relata sua filha Tamara García, em vez de incentivar o método CES (capturar, esterilizar e soltar) ou CER (capturar, esterilizar e retornar).

A FAADA reflete que “esses negócios não proliferariam se não houvesse uma demanda da população que não tem consciência do que existe por trás deste comércio de seres sencientes”.

O advogado Daniel Dorado volta a concordar com a opinião da responsável da FAADA, e esclarece que “enquanto não existir uma maior conscientização sobre o assunto, avançar para o fim da venda de animais será extremamente difícil. Por isso é importante que se realizem campanhas a favor da adoção e da esterilização de animais”.

Agora, principalmente quando as festas de Natal estão próximas, a FAADA lembra “a importância de nunca dar animais de presente e, caso seja uma decisão tomada pela própria família, de modo consensual com todos os membros e muito ponderada pela responsabilidade que implica seu cuidado, que se opte sempre pela adoção de um animal abandonado”.

Por María R. Carreras / Tradução de Bina Foloni

Fonte: El Salto

Os comentários abaixo não expressam a opinião da ONG Olhar Animal e são de responsabilidade exclusiva dos respectivos autores.