Pesquisa investiga se invertebrados estão contaminados com óleo no Litoral pernambucano

Pesquisa investiga se invertebrados estão contaminados com óleo no Litoral pernambucano

Uma pesquisa conduzida pelas Universidades Federal de Pernambuco e Federal Rural de Pernambuco (UFPE e UFRPE) aponta que o óleo que atinge a costa do Nordeste desde o fim de agosto vem se decompondo em partículas microscópicas no oceano. Os estudos devem indicar se plâncton presentes na água estão sendo contaminados por esses fragmentos.

As análises foram feitas na baía da Praia de Tamandaré, na região da Área de Proteção Ambiental (APA) Costa dos Corais, no Litoral Sul pernambucano. A praia foi uma das primeiras a registrar novas manchas de óleo desde que os resíduos voltaram a aparecer no litoral pernambucano, em 17 de outubro. Os pesquisadores são ligados ao Laboratório de Ecologia do Plâncton, do Departamento de Biologia da UFRPE; e aos Laboratórios de Fitoplâncton e de Zooplâncton Marinho, do Departamento de Oceanografia da UFPE. 

O professor da UFRPE e um dos coordenadores do projeto, Mauro de Melo Junior, destaca a importância da pesquisa. “Estamos constatando que o óleo está sofrendo um processo de quebra e a ação constante de ondas, além do próprio processo natural dos oceanos. Isso tudo está fazendo com que esse óleo se fragmente em pequenas partículas. São pedaços muito pequenos que podem interferir em todo o sistema”, explica. Essa quebra pode ser comparada à que ocorre com os plásticos, que também se dividem nos oceanos em micro e nanopartículas.

Ainda segundo o professor, é cedo para afirmar se os invertebrados estão de fato contaminados. “Esses organismos têm no máximo 2 milímetros. Precisamos de um equipamento mais sensível”, acrescenta Mauro. Vários organismos estão apresentando manchas escuras pelo corpo e alguns estão com o trato digestório muito escuro, o que pode indicar vestígios do óleo encontrado no litoral. “As próximas pesquisas devem confirmar se é óleo ou não que está no trato digestório, mas tudo leva a crer que sim”, reforça. 

Os resultados definitivos deverão sair em um prazo de cerca de duas semanas após análises feitas no Laboratório de Biomoléculas e Estudos Ambientais da Unidade Cabo de Santo Agostinho da UFRPE. Um dos responsáveis por essa etapa, o professor Nilson Sant’Anna Junior detalha como os resultados devem ser obtidos. “O professor Mauro vai nos fornecer uma amostra do que foi coletado em Tamandaré e vamos fazer [no Cabo] uma extração líquido-líquido, por ser orgânico. Depois vamos pegar esse extrato e levar para um laboratório da UFRPE em Dois Irmãos”, explica.

Em seguida, os pesquisadores irão submeter o material a uma cromatografia gasosa – processo que separa compostos que podem ser vaporizados sem decomposição. “Vamos poder quantificar e identificar [nas amostras] os hidrocarbonetos que são presentes no petróleo”, acrescenta Nilson. Com o resultado, será possível afirmar, ou não, que os vestígios encontrados nos organismos planctônicos são resíduos de óleo. 

Novas amostras devem ser coletadas nesta terça-feira (29) na praia de Itamaracá, nas regiões de Jaguaribe e do canal de Santa Cruz, no Litoral Norte. Durante a semana, as análises devem se concentrar no estuário do rio Capibaribe e na região da foz do rio Una. Há previsão ainda de continuidade dos estudos na baía de Tamandaré.

Balanço divulgado pelo Governo de Pernambuco nessa segunda-feira (28) aponta que, nos últimos 12 dias, foram recolhidas 1.500 toneladas de óleo de 43 praias e oito rios de Pernambuco. Os pontos se concentram em 13 municípios do litoral. Todo o material foi encaminhado ao Ecoparque Pernambuco, antigo Centro de Tratamento de Resíduos Pernambuco, localizado em Igarassu, na Região Metropolitana do Recife. No local, o óleo é transformado em combustível usado em indústrias de cimento.

Amostra de organismos do zooplâncton. – Foto: Claudeiton Santana

Plâncton

O termo plâncton tem origem no grego “plagktos”, que significa “errante” e define o conjunto de animais, vegetais, vírus e bactérias flutuantes, principalmente microscópicos, que deslocam passivamente no meio marinho. O plâncton é principalmente classificado em: fitoplâncton que corresponde à fração vegetal do plâncton e o zooplâncton que representa a fração animal.

Segundo a pesquisadora e doutora em ciências marinhas Renata Polyana, do Laboratório de Zooplâncton Marinho da UFPE, os fitoplâncton são os nossos produtores primários e, por isso, considerados a base da cadeia alimentar, sendo uma fonte importante de alimento para o zooplâncton herbívoro.

“Esses organismos são importantíssimos para a existência da vida na Terra porque contribuem com, em média, entre 50 e 80% do oxigênio atmosférico produzidos por meio da fotossíntese, sendo eles os nossos verdadeiros pulmões! O zooplâncton é um grupo numeroso nos ambientes costeiros e marinhos, onde desempenha papel fundamental no funcionamento desses ambientes e nas redes alimentares, uma vez que é o alimento para animais a exemplo dos peixes”, explica.

De acordo com a pesquisadora, após esse derramamento de óleo bruto, o zooplâncton é exposto a componentes do óleo dissolvido e aos fragmentos do óleo bruto disperso. “O objetivo foi realizar um pré-diagnóstico do possível impacto do derramamento do óleo sobre os pequenos organismos do zooplâncton. Na amostragem realizada em Tamandaré, os pesquisadores puderam coletar amostras do zooplâncton contendo fragmentos do petróleo e isso acende um alerta para investigar o quanto está disponível para ser possivelmente ingerido”, reforça Renata.

A maior preocupação, acrescenta Renata, é o fato de que o zooplâncton pode biomagnificar. Ou seja, há a possibilidade de aumento da concentração do poluente ao longo da cadeia alimentar até os predadores do topo. Por isso, o estudo alerta para a poluição causada pela presença do óleo bruto nos ecossistemas costeiros.

“Vários estudos demonstraram que o zooplâncton pode absorver hidrocarbonetos de petróleo dissolvidos, porém há evidências crescentes de que o zooplâncton também pode ingerir fragmentos do petróleo bruto. A análise de algumas das amostras coletadas em Tamandaré reforça essa hipótese”, completa a pesquisadora.

É possível ainda que tal contaminação cause alterações na frequência de ocorrência e na abundância das espécies que são registradas em nossos ambientes marinhos. “Podemos ainda ter um diminuição na taxa de sobrevivência e na produção de ovos e larvas, influenciando diretamente o crescimento e a reprodução do zooplâncton. É importante destacarmos que os filhotes (larvas) de praticamente todos os animais de interesse comercial (camarão, lagosta, moluscos, peixes), como também as larvas de praticamente todos invertebrados marinhos compõem o zooplâncton”, finaliza Renata.

Os efeitos a curto e a longo prazo do impacto decorrente da presença do óleo nos ambientes marinhos serão monitorados pelos pesquisadores. Os resultados gerados representarão ferramentas úteis para elaboração dos planos estratégicos de manejo e gerenciamento sustentável dos ecossistemas costeiros atingidos.

Por Fabio Nóbrega 

Fonte: Folha PE

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