Por que a criação de cães é um problema, mesmo que o criador seja ‘conceituado’

Por que a criação de cães é um problema, mesmo que o criador seja ‘conceituado’
Foto: Wikimedia Commons

Embora aproximadamente 62% dos americanos tutelem animais de estimação, mais de 70 milhões de cães e gatos ainda permanecem sem moradia nos EUA. Desses 70 milhões de animais carentes, somente cerca de seis a oito milhões conseguem abrigos anualmente. Apesar de acolherem apenas uma parte dos animais que vivem pelas ruas, esses abrigos, em sua maioria, estão sempre superlotados e em luta constante pela sobrevivência com recursos limitados. Ainda assim, apesar do grande número de animais que necessitam de lares amorosos, somente 20% dos americanos adotam animais dessas instituições.

E os outros 74% desses animais, de onde vêm, então? Bem, dos criadores de animais.

Você pode encontrar praticamente qualquer raça de animal em abrigos locais, puros ou mestiços, mas as pessoas continuam a pagar centenas, às vezes milhares, de dólares por cães provenientes de canis.

Algumas pessoas acreditam que ao comprarem seus animais de algum criador em especial, estarão, de certa forma, adquirindo um animal “superior”, mas essa crença não só é falsa, como há uma série de outras razões pelas quais a criação de cães é considerada irresponsável e prejudicial, não importa o quando suas reputações possam ser boas.

O mito da superioridade da raça pura

As pessoas que procuram um novo animal de estimação estão dispostas a pagar quantias exorbitantes por um cão de raça pura, porque lhes dizem que o filhote foi criado em um ambiente amoroso e crescerá com temperamento amável e com problemas mínimos de saúde.

No entanto, não há como ter certeza, pois, em muitos casos, depende de cada cão. Embora haja criadores que tomam precauções para evitar a consanguinidade (que, geralmente, provoca  sérios problemas de saúde) e são seletivos em relação aos cães que criam, certificando-se cria-los em ambientes amorosos, não há uma “regra” definitiva que garanta que esses animais não irão apresentar, mais cedo ou mais tarde, problemas de saúde ou comportamentais.

Você não pode nunca esquecer que, no final das contas, os criadores estão tentando administrar um negócio, portanto, é de seu interesse divulgar os benefícios de possuir um animal de raça pura e até mesmo perpetuar o mito de que certos atributos positivos não podem ser encontrados em animais provenientes de abrigos. Ironicamente, a organização Humane Society calcula que 25% dos cães que se encontram nos abrigos são de raça pura.

O que diferencia um criador “conceituado”

Atualmente, quando nos referimos a criadores “conceituados”, é apenas uma questão de diferenciar os criadores que cruzam seus animais de forma “responsável” dos criadores que não agem da mesma forma. Muitos consumidores não pesquisam antes de adquirir um novo membro da família de quatro patas e acabam comprando seu melhor amigo nas  fábricas cruéis de filhotes. Outros, baseiam-se no certificado de inspeção do American Kennel Club (AKC) como garantia de que os cães que estão adquirindo são de raça pura e não possuem histórico de maus-tratos. No entanto, uma investigação realizada sobre o programa de inspeção do AKC revelou que muitos desses criadores certificados também submetem seus cães a condições similares às mesmas encontradas nas fábricas de filhotes.

Apesar de o AKC ser considerado a maior autoridade no quesito da padronização de cães de raça pura, o presidente da ASPCA, Ed Sayer, relatou ao jornal New York Times que grande parte dos locais de criação comercial investigados por sua organização eram registrados no AKC.

Grande parte dos animais que nascem em fábricas de filhotes sofrem de problemas graves de saúde em consequência do cruzamento imprudente. O jornal New York Times publicou a história de uma senhora que comprou um filhote de um criador credenciado pelo AKC para descobrir se o cãozinho era portador de alguma anormalidade em consequência da prática do cruzamento imprudente; o criador havia recebido o certificado satisfatório de inspeção do AKC duas semanas antes. Dois meses depois, o local foi invadido e todos os cachorros foram retirados da instalação de criação.

Quando perguntaram ao responsável do AKC sobre a quantidade de criadores que possuíam cães com o certificado do AKC no país, ele admitiu que não tinha registro desses números. Embora o AKC não acredite ser responsável por todos os criadores, a certificação fornecida a esses locais de criação precários está enganando os consumidores e, com certeza, a instituição deve ser responsabilizada pelos criadores que possuem sua certificação.

O problema da superpopulação

Criadores conceituados têm verdadeira paixão pela criação de cães e alguns realmente amam seus animais, mas isso não diminui o impacto que a criação comercial causa no problema da superpopulação de animais de estimação.

Segundo a ASPCA, 1,2 milhões de cães são, anualmente, submetidos à eutanásia nos abrigos por falta de espaço, recursos e pessoas que estejam disposta a adotar os animais. Não importa como você encare a questão, mas contribuir para o aumento do número de cães no mundo para atender à “demanda” de pessoas que estão dispostas a pagar milhares de dólares por um filhote de raça pura, enquanto há milhares de cães de raça à espera de um lar nos abrigos superlotados, é extremamente irresponsável.

A realidade é que todos os cães merecem um lar amoroso, mas quando eles são tratados como mercadorias e comercializadas com fins lucrativos, já não importa mais a boa intenção ou o conceito que os criadores possuam. Se quisermos acabar com o problema revoltante da superpopulação e proporcionar lares amorosos para os cães que realmente precisam, não há justificativa para apoiar a prática da criação comercial de cães.

Então, por favor, sempre adote, não compre!

Por Corrine Henn / Tradução de Renata Tepedino

Fonte: One Green Planet


Nota do Olhar Animal: Os maus-tratos na criação de cães para venda são frequentes, mas representam apenas um dos problemas que envolvem a atividade. Mas independentemente do tratamento dispensado aos animais pelos criadores e do “conceito” que eles têm, há muitos outros problemas. Um grave é a coisificação da vida animal e a transformação dos bichos em meras mercadorias, reforçando uma visão equivocada que acaba produzindo situações de maus-tratos. A preferência por “raças” resulta em sérios problemas congênitos (vide matéria abaixo). A não castração tem por consequência o aumento da procriação e do animais abandonados. Estes são apenas algumas das questões.

Você faz questão de um cão de raça? Pense duas vezes…

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