Por que o nascimento de um filhote de girafa no zoológico de Denver (EUA) não é algo que deveríamos comemorar

Por que o nascimento de um filhote de girafa no zoológico de Denver (EUA) não é algo que deveríamos comemorar

O nascimento recente de Dobby, um filhote de girafa no zoológico de Denver, no Colorado, e a transmissão ao vivo de uma girafa prenhe chamada April no Animal Adventure Park em Harpursville, Nova York, foram manchetes e encheram nosso feed de notícias nas mídias sociais. As pessoas estão obcecadas, compartilhando fotos da adorável Dobby e perguntando quando April vai finalmente dar à luz. E apesar de todos nós certamente amarmos filhotes de animais e estarmos na expectativa do milagre do nascimento, há algo um tanto triste sobre essas histórias. Porque, em vez de vermos estes animais desfrutarem do seu extenso habitat natural, estamos vendo-os por trás do vidro, cercas e recintos fechados.

As girafas são os mamíferos mais altos do mundo, atingindo uma altura entre 4 a 6 metros e pesando até 1.270 toneladas. Criaturas gentis e sociáveis, as girafas vivem em pequenas manadas e podem ser encontradas em todo o centro, leste e partes do Sul da África. A sua altura permite-lhes um banquete de folhas de árvores altas e suas pernas longas ajudam-nas a atingir velocidades por volta de 10 a 35 milhas por hora.

Não é de admirar as pessoas achá-las impressionantes e quererem ver essas criaturas magníficas de perto. Mas para as girafas em cativeiro, a vida não é exatamente a mesma que das suas contrapartes selvagens. Em vez de passarem seus dias a caminhar livremente, socializar-se e desfrutar de uma variedade de folhagens, foram colocadas em exposição em ambientes artificiais onde eles são incapazes de vivenciar toda a sua natureza.

A vida no cativeiro não é vida

Quando se fala em cativeiro, é importante compreender a diferença entre resgatar animais e levá-los para um santuário ou um refúgio da vida silvestre e mantê-los em um zoológico. Santuários existem para proteger os animais que foram feridos, mantidos como animais de estimação selvagens ou resgatados de zoológicos extintos ou de atrações de beira de estrada. Como resultado do passado desses animais, eles são incapazes de serem devolvidos à vida selvagem, então um santuário é a única opção. Os refúgios de vida silvestre existem para proteger os animais que vivem em seu habitat natural. Ambos compartilham um objetivo comum de reabilitar e proteger a vida selvagem.

Os zoológicos exibem animais para fins de entretenimento e, muitas vezes, participam de programas de reprodução fazendo com que o ciclo do cativeiro continue. Mesmo os zoológicos credenciados que se esforçam por cuidados de primeira linha e fornecem aos animais recintos que possibilitem a caminhada, não estão dando aos animais o que eles realmente merecem: uma vida de liberdade.

O impacto mais devastador da vida em cativeiro é quando os animais começam a sofrer de zoochosis, condição em que eles apresentam comportamentos compulsivos como resultado do estresse ambiental. Os sintomas de zoochosis incluem andar, circular, balançar-se para frente e para trás, automutilação, autolimpeza excessiva e o hábito constante de mastigar ou morder. Aqueles que não estão familiarizados com essa condição talvez pensem que um animal dançando é divertido, mas esse não é o caso. E quando os animais ficam estressados, tornam-se agressivos com eles mesmos, assim como com os outros.

Encontros perigosos

Nos zoológicos, os animais podem ser colocados em perigo quando as pessoas tentam interagir com eles, alimentá-los, ameaçá-los ou jogar objetos perigosos em seus recintos. Quando as pessoas tentam chegar muito perto e o animal instintivamente reage, aquele animal, muitas vezes, acaba sendo morto. Um exemplo é o triste caso em que um gorila chamado Harambe foi baleado por tratadores, depois que uma criança caiu em sua jaula. E há inúmeros outros casos onde os animais em cativeiro foram mortos após atacar os visitantes ou treinadores que chegaram muito perto.

Os animais estão tentando nos dizer algo, mas nós estamos ouvindo? Talvez em vez de praticar os esforços de “conservação” que mantém animais enjaulados em situações antinaturais, devemos colocar nosso foco em preservar sua existência na natureza.

Foco na preservação do habitat, não na reprodução em cativeiro

Foto: Yuli4kaSergeevna / Shutterstock

As girafas são listadas como “vulneráveis”, ou seja, que elas estão apenas a um passo de se tornarem uma das espécies inofensivas em vias de extinção. Como inúmeras outras espécies selvagens, seu habitat está sendo destruído pela fragmentação como resultado da agricultura, construção e desenvolvimento. Na verdade, as atitudes da humanidade estão causando a extinção dessas espécies em uma taxa 1.000 vezes mais rápida do que o normal.

Uma das reivindicações enganosas feitas pelos zoológicos é que a reprodução em cativeiro é parte dos esforços de conservação, garantindo as espécies ao redor do mundo existirão nas gerações futuras. Todos nós sabemos que os animais, especialmente filhotes, ajudam a atrair grandes multidões aos jardins zoológicos, então o motivo é realmente a preservação — ou é lucro?

Como você pode ajudar

Foto: Yuli4kaSergeevna / Shutterstock

Nós podemos ensinar a compaixão aos nossos filhos, mostrando-lhes que os animais pertencem ao estado selvagem, não devem estar atrás de cercas ou em recintos de concreto para nosso entretenimento. Em vez de gastar dinheiro para visitar um zoológico, doe para uma organização que trabalha para proteger os animais e seus habitats. Se você ainda quiser interagir com animais, há diversas alternativas humanitárias ao invés de visitar um zoológico.

Você também pode proteger os habitats sendo um indivíduo consciente. Compre produtos de papel reciclado para ajudar a diminuir o desmatamento, compre produtos feitos de recursos sustentáveis e evite alimentos embalados que contenham óleo de palma, um produto que contribui para a desintegração do habitat e ameaça a existência de várias espécies. E nunca compre produtos feitos com couro, chifres ou presas de animais ou qualquer outra parte do corpo.

Por Arianna Pittman / Tradução de Elisângela Gomes da Silva

Fonte: One Green Planet