Por que treinar uma orca para imitar a fala humana é cruel

Por que treinar uma orca para imitar a fala humana é cruel
Imagem: Tiia Monto/Wikimedia Commons

Imagine uma orca nadando no oceano e dizendo as palavras humanas “Olá” e “Tchau”. Seria um cenário estranho. Os espectadores, sem dúvida, pensariam que essa orca perdeu a cabeça e esqueceu completamente como ser uma orca. Na natureza, não faz sentido que uma orca produza palavras humanas, e não há nada de natural nisso. Pesquisadores do Parque Aquático Marineland, na França, criaram essa orca.

Eles moldaram uma orca em um ser que copia palavras humanas. Sua conquista chamou a atenção da mídia internacional e criou manchetes sensacionalistas como: “A primeira orca do mundo que fala: Wikie, a orca, aprendeu a dizer ‘Olá’ e ‘Tchau’” e “Orca Wikie ‘fala’ com os pesquisadores”. Wikie realmente não está falando com pesquisadores, é claro. Ela simplesmente está fazendo o que foi treinada para fazer: imitar palavras humanas. As palavras “Olá” e “Tchau” não possuem nenhum significado ou valor real para ela, e que ela as produza é algo bizarro e anormal, assim como tudo mais na vida de Wikie.

Ambos os pais de Wikie foram capturados na natureza. Wikie nasceu em cativeiro há 16 anos e passou toda a sua vida se apresentando para o público pagante ao lado das outras orcas cativas de Marineland. O único mundo que já conheceu é um tanque de concreto. Ela não sabe como é uma onda. Nem viu ou perseguiu um peixe vivo. Wikie pode nadar apenas alguns metros antes que uma parede ou um portão a detenha. Ela passará o resto da vida presa em um tanque enfadonho e sem vida, obedecendo aos comandos sem fim de seus treinadores. Nada sobre sua vida em Marineland se assemelha remotamente às vidas das orcas na natureza. Não há nada natural sobre os truques que ela é treinada para executar durante suas performances circenses, um mamífero marinho de vida livre nadando em círculos infinitos, uma orca presa por toda a vida em um mundo humano de música alta e espectadores barulhentos.

Tilikum. Foto: Milan Boers / CC BY 2.0.

Na natureza, as orcas desenvolveram suas próprias habilidades sofisticadas de comunicação, com chamados e assovios distintos, e cada grupo de orcas tem seu próprio dialeto exclusivo. Sabemos que a prole de uma orca aprende imitando sua mãe e outros membros do grupo. As orcas evoluíram para uma cultura complexa, e as mais experientes do grupo passam seu enorme conhecimento para a próxima geração. Uma mãe ensinará a sua prole a se comunicar, se alimentar, navegar e muitas outras habilidades. No entanto, uma coisa é certa: uma orca não ensinará a sua prole a dizer “olá” na linguagem dos humanos.

É típico da indústria de delfinários ignorar tudo o que é natural na vida desses seres complexos e altamente inteligentes. Tudo sobre o cativeiro é baseado em forçar orcas a suprimir quem são realmente e moldá-las em tudo o que é benéfico para os seres humanos. É assim que as orcas cativas são forçadas a esquecer e anular o que é natural e significativo para elas e render-se a se tornarem implorantes palhaços de circo, que obedientemente realizam comportamentos anormais em troca de peixes mortos como recompensa.

Eu vi o show de baleias assassinas em Marineland. O show consiste em os mesmos velhos truques que atraem o grande público pagante. As orcas, obviamente famintas, foram feitas para saltar quando comandadas e encalhar-se na plataforma de concreto. Rodeadas por treinadores animados, audiências que aplaudem e música pop alta, Wikie e as outras orcas em Marineland estão tão afastadas do mundo natural de uma orca quanto possível. Depois que o show terminou, Wikie passou seu tempo estagnada na superfície da água e olhando para um muro de concreto. Ela não tinha para onde ir nem nada para fazer. Sua linguagem corporal era óbvia: estou entediada. Os treinadores simplesmente se afastaram com os baldes vazios, e tudo o que restava para Wikie fazer era esperar o próximo show, a próxima alimentação e a próxima rodada de aplausos ensurdecedores. Se os pesquisadores de Marineland dessem metade da atenção à sua linguagem corporal, como eles dão para sua própria realização pessoal, para que ela possa imitar palavras humanas, então talvez ela pudesse ter uma vida melhor. Talvez então o Marineland percebesse a crueldade que é confinar seres imensamente inteligentes e grandes predadores do oceano em tanques sem vida e explorar sua fome para fazê-los se apresentar em shows lucrativos.

Eu desfrutei da visão de orcas selvagens saltando da água com um poder, confiança e controle tão inspiradores. Em Marineland, as orcas tornam-se totalmente impotentes em sua dependência de seres humanos por comida e atenção. Aqui, elas pulam, não de alegria, mas por comida. Ao fazer as orcas saltarem quando comandadas, os seres humanos se apropriam da força física das orcas e de suas habilidades incríveis. O show da baleia assassina é sobre a superioridade e o controle humanos. Ele habilita humanos, não orcas. Wikie nunca saberá o que é pertencer a uma família de orcas selvagens. Ela não compartilhará suas habilidades linguísticas complexas, aprendendo constantemente com elas e comunicando-se enquanto nada, não se alimentará ou explorará um vasto mundo oceânico cheio de diversidade, desafios e atividades que são significativas e importantes para sua espécie.

Por um desejo humano, Wikie nunca nem mesmo verá o oceano. Treiná-la para copiar palavras humanas a arrasta ainda mais para uma existência privada e artificial onde os humanos têm controle total sobre sua vida. Isso constitui uma zombaria desrespeitosa e totalmente arrogante de sua inteligência surpreendente.

Orcas selvagens da Colúmbia Britânica. (Foto: Dolphin Project)

Se realmente queremos entender as orcas, precisamos parar de tratá-las como mercadorias e objetos de pesquisa. E precisamos parar de brincar com sua inteligência. A pesquisa e o treinamento a que Wikie está sujeita nunca beneficiarão orcas na natureza, nem jamais beneficiarão Wikie. A indústria de delfinários irá usá-la para apresentar o argumento de que os seres humanos precisam continuar mantendo orcas em cativeiro para gerar mais pesquisas. Vai se tornar a mais recente desculpa da indústria para encarcerar orcas pela vida toda em pequenos tanques, onde sua inteligência é explorada para satisfazer os desejos dos humanos.

Devemos deixar que esses seres incríveis vivam suas vidas, selvagens e livres, nos oceanos que moldaram sua existência por milhões de anos. Devemos parar de invadir seu espaço capturando-os e criando-os em tanques onde suas habilidades naturais não podem encontrar nenhuma expressão. Devemos parar de reivindicar a propriedade sobre suas vidas. As orcas têm o direito fundamental de nadar conforme desejam seus corações, sem barreiras humanas. Elas têm o direito de se comunicar em sua própria linguagem sofisticada a grandes distâncias, nutrindo seus fortes laços sociais e criando sua prole no oceano, cercadas por membros da família. Nós não temos o direito de tirar tudo isso delas.

Se os seres humanos querem entender as orcas, precisamos mudar a maneira como as tratamos. Precisamos respeitá-las por quem e o que são em seu mundo, nos termos delas. Precisamos respeitar o espaço que existe naturalmente entre elas e nós. O respeito, acho, é a forma mais elevada de comunicação entre espécies que existe. Infelizmente, também é uma habilidade de comunicação que nós humanos ainda não dominamos.

Por Helene Hesselager O’Barry, DolphinProject.net / Tradução de Ana Carolina Figueiredo

Fonte: One Green Planet

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