Por status, pessoas alimentam o cruel comércio de animais selvagens no Líbano

Por status, pessoas alimentam o cruel comércio de animais selvagens no Líbano
Foto do dono de um filhote de leão, postada no Instagram e enviada por Jason Mier / Jason Mier

Os usuários da internet libanesa posam com filhotes de leão recém-comprados na mídia social como se eles fossem cachorrinhos. É fácil encontrar anúncios para animais selvagens em sites como OLX, o equivalente libanês do Ebay. Um filhote de urso pode ser vendido por US$ 6.000 enquanto que um tigre bebê pode custar US$ 25.000. “As vendas subiram muito nos últimos seis meses, mas não sabemos realmente o porquê”, Jason Mier, diretor da ONG Animals Lebanon, contou ao jornal FRANCE 24. Seu grupo vem lutando contra o tráfico de animais há anos.

Um filhote de leão de dois meses de idade que foi vendido por $16.000 em um leilão no site OLX / OLX

Jason é norte-americano, mas ele viveu por muitos anos na África, onde ele trabalhou na conservação animal. Ele se mudou para o Líbano em 2007. Nessa época, o país era o principal local para o tráfico de chimpanzés. Desde então, Jason continuou seu trabalho desde Beirute.

Jason Mier com um filhote de leopardo que sua ONG ajudou a salvar / Jason Mier

“Há pouco tempo atrás, você podia ir até o zoológico e comprar um filhote de leão por um pequeno valor”.

“A maioria dos animais vem de fora do país, especialmente da Ucrânia e da Síria. Os que vêm da Ucrânia passam pelo aeroporto internacional de Beirute. Somente dois dias atrás, alguém nos contou sobre três tigres bebês que chegaram aqui, e que ainda estão presos no aeroporto. Esses animais acabam sendo importados legalmente simplesmente tendo “animais vivos” escrito nos documentos de viagem, sem nenhuma menção ao fato de que eles são animais selvagens. É dessa forma que eles passam pela alfândega. Ou eles são parte de uma remessa com muitos outros itens, então acabam passando desapercebidos. Em uma remessa de doze cães, por exemplo, um filhote de leão pode estar escondido no fundo de uma das jaulas e os agentes de segurança nem percebem. E mais, nós sabemos quão permeáveis são as fronteiras do Líbano no momento. Assim como refugiados que podem entrar ilegalmente, contrabandistas são capazes de trazer animais que roubaram ou compraram dos zoológicos sírios. No Líbano, também, você podia ir até um zoológico e comprar um filhote de leão ou de tigre por um pequeno valor. Mas felizmente agora isso está controlado mais fortemente do que costumava ser”.

Filhotes de leão que chegaram recentemente ao aeroporto internacional de Beirute. Postado no Facebook por Jason Mier / Facebook Jason Mier

“Somente nos últimos seis meses, ficamos sabendo de quatro leões, dois tigres, um leopardo e ao menos seis filhotes de urso. Muitas pessoas estão agindo contra isto ao nos mostrar os anúncios que eles veem na mídia social, ou sobre animais que eles viram na rua ou no aeroporto. Algumas pessoas que conhecem os donos os expõem acidentalmente. Recentemente uma família comprou um filhote de leão e sua filha mostrou as fotos para seus colegas de classe. O diretor nos contou sobre isso imediatamente!”.

Este filhote de leão, que foi salvo pela Animals Lebanon, está sendo enviado para a África do Sul. Outros animais foram enviados ao um zoológico na França / Animals Lebanon

“Estamos tentando forçar o governo a ser mais rígido e não deixar as pessoas saírem impunes disto”.

“Nossa ONG não tem poder jurídico. Não podemos confiscar os animais de seus donos. Nosso papel é avisar as autoridades – neste caso o ministro de agricultura – e dar a eles todas as informações que temos para que eles possam começar uma investigação e possivelmente remover o animal, e então nós cuidamos dele. Infelizmente, até mesmo quando a polícia age, nunca gera uma ação legal e o dono do animal sai impune sem nem ao menos pagar uma multa. Então estamos tentando forçar o governo a ser mais rígido e não deixar as pessoas saírem impunes disto. Se houvesse uma ação judicial, isso ensinaria uma lição!”.

“Por outro lado, eu sei que as autoridades têm boas intenções. [O Líbano se tornou um membro da Convenção do Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas da Fauna e Flora Selvagens em 2013]. Uma lei de proteção animal foi elaborada e será debatida no parlamento libanês. Mas com a atual instabilidade política [o Líbano ficou dois anos sem um presidente], você entende que essa legislação não é considerada uma prioridade. É difícil fazer valer os direitos dos animais nesse contexto”.

Uma jovem leoa chamada Queen que foi resgatada pela ONG de Mier em condição crítica. Seus dois pés traseiros estavam quebrados e ela teve que passar por duas cirurgias. Ela morreu menos de um ano depois de ser confiscada de seu dono / Sem crédito

“As pessoas compram estes animais para se exibirem. Eles são ricos, e US$ 20.00 não é um valor exorbitante para eles. Eles estão preparados para pagar essa quantia se isso significar que eles vão ter um filhote de leão com o qual eles possam passear pela rua como se fosse um cão, somente para conseguir atenção. Alguns compradores nem percebem que isso é perigoso para o animal, o qual não foi feito para viver nessas condições. Outras pessoas sabem, mas nem se importam. O que todos eles têm em comum é que eles não pensam sobre as consequências no longo prazo e no fato de que o animal pode se tornar perigoso com o tempo. Além disso, eles os alimentam com carne cozida ao invés de cura e os mantêm em um espaço escuro, para tentar amansá-los. Mas a maioria dos animais morre antes mesmo de atingir dois anos de idade, já que são forçados a viver em condições que não são nada apropriadas para os animais selvagens. Nós frequentemente recebemos felinos em condições horríveis: eles estão com as patas quebradas porque eles foram privados de exercícios e estão acorrentados em pequenos espaços, algumas vezes até mesmo na varanda de um apartamento”.

Por Jason Mier e Sarra Grira / Tradução de Alice Wehrle Gomide

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