Portugal: associação que surgiu em Coimbra salva animais exóticos abandonados

Portugal: associação que surgiu em Coimbra salva animais exóticos abandonados

Animais exóticos são todas as espécies não silvestres que possam ser tidas como animais de estimação. Aves, mamíferos, como roedores ou coelhos, e répteis são alguns dos exemplos mais presentes nas casas dos portugueses. Contudo, nem todos encontram nessas habitações uma verdadeira casa. Tal como os cães e gatos também estes bichos são vítimas do abandono. Um desamparo mais camuflado ao qual a Associação Portuguesa de Resgate de Animais Exóticos (APRAE) pretende dar resposta.

Fundada por Marta Mendes e Sónia Rodrigues, a organização acolhe todo o animal exótico que seja uma vítima. O trajecto deste projecto começou em 2019, em Coimbra. Contudo, apenas em 2023 é oficialmente e legalmente constituída a APRAE. A iniciativa é a única, nestes moldes, a actuar em três pólos: Porto, Coimbra e Lisboa. A recolha de animais é, no entanto, realizada um pouco por todo o país, de forma a abranger o maior número de exóticos possível.

“Não havia associações de animais exóticos legalmente constituídas, em Portugal, até ao ano passado”, revela Sónia Rodrigues, uma das fundadoras da organização, em declarações ao Campeão das Províncias. Uma necessidade que veio reafirmar o trabalho da APRAE, sobretudo, no que diz respeito ao desconhecimento por parte da sociedade em relação ao abandono destas espécies. Entre coelhos, porquinhos-da-índia e chinchilas, “por ano, resgatamos cerca de 100/150 animais”, indica a responsável.

Coelhos são as maiores vítimas

Uma grande parte dos animais que a APRAE tem vindo a retirar das ruas e/ou do mato foram abandonados. “As pessoas pensam que os estão a devolver à natureza quando, na verdade, são animais que não são da nossa fauna nem selvagens”, explica Sónia Rodrigues. Nesse sentido, a probabilidade de sobreviverem por si mesmos torna-se escassa. Todavia, o abandono não é sofrimento único na vida destes bichos. Muitos deles são vítimas de criação ilegal.

“O OLX, por exemplo, tem milhares de anúncios de venda de animais e nenhuma dessas pessoas está legalizada para o fazer. Não há nenhum tipo de inspecção às condições em que são mantidos”, alerta a responsável. O projecto possibilita, assim, dar um novo futuro aos exóticos que têm ou tiveram poucas oportunidades de viver verdadeiramente. Desde o Algarve ao Alentejo e até Bragança, a iniciativa já ajudou centenas de bichos. Para isso, conta com o apoio de várias associações. “Muitas vezes, os animais são apanhados por organizações de cães e gatos. Eles contactam-nos e nós resgatamos. O mesmo acontece com Câmaras, Juntas de Freguesia ou veterinários”, conta Sónia Rodrigues.

Depois do cão e do gato, o coelho é o animal de estimação mais comum em Portugal. Em contrapartida, é também a espécie exótica mais abandonada. De acordo com a fundadora da APRAE, “as pessoas não compreendem que, tal como os cães e gatos, estes animais também precisam de idas a veterinários”, lamentando que “são encarados como um apêndice da casa e não um ser vivo. São comprados, mantidos numa gaiola e tidos como animais de segunda categoria”.

Falta legislação

O pouco controlo que existe para com os exóticos poderá estar por detrás do constante abandono e criação ilegal dos mesmos. Sónia Rodrigues não tem dúvidas de que a legislação tem deixado de fora estas espécies. “Só cães e gatos são considerados animais de companhia, os outros não. Qualquer legislação que haja de maus-tratos não se aplica a nenhuma destas espécies”, atenta. A acrescentar a esta realidade, não existem, na lei, normas de bem-estar para manter estes animais.

“As condições para manter cada uma das espécies não são iguais e, para haver uma criação legal das mesmas, tem de haver mínimos de espaço, alimentação, entre outras coisas”, refere a responsável. Observando que, para ter estes bichos em laboratório “também existem mínimos”, Sónia adianta que a APRAE está, neste momento, a trabalhar com vista a que os animais de laboratório, que não são usados em experiências, possam vir a ser adoptados, tal como já acontece em alguns países europeus.

Como forma de mudar mentalidades, “a legislação deveria considerar os exóticos como animais de companhia”, sublinha a voz da APRAE. Segundo a fundadora, deveriam ainda ser proibidas as vendas de animais na internet. “Se partíssemos só do facto de não serem permitidos anúncios, as pessoas iriam deixar de ter um negócio rentável. Creio que seria um bom primeiro passo para diminuir a criação ilegal”, admite. Assim, e por consequência, “poderíamos controlar os animais que existem”.A par disto, – e apesar de serem já poucas as lojas que vendem animais -, Sónia considera que, as que o fazem, deveriam entregá-los aos futuros tutores com um guia de cuidados. Os donos que não tiveram essa possibilidade podem adquirir informações na página da APRAE. Afinal, cada espécie exige cuidados muito específicos. “A maior parte dos animais exóticos morre no seu primeiro ano na casa nova, porque não são respeitados os mínimos de bem-estar”, salienta ainda, explicitando que estes bichos precisam de um veterinário especializado em animais exóticos.

Resgate e falta de apoios

Apesar de actuar no Porto, Coimbra e Lisboa, a APRAE não dispõe de um espaço físico, afinal não tem nenhum apoio estatal que facilite esse processo. No entanto, conta com um sistema de boleias voluntárias que permite resgatar animais ao longo do país e, posteriormente, direccioná-los para Famílias de Acolhimento Temporário (FAT).

Sendo que “legalmente, não podemos entrar em casa de alguém que esteja a maltratar um animal exótico, porque não é crime”, a organização funciona à base de contactos. Neste caso, sempre que exista um animal em necessidade, a APRAE é contactada e desloca-se ao local para o recolher. De seguida, cada caso é avaliado individualmente, já que nenhum destes bichos sai da FAT para adopção sem antes ser visto por um veterinário.

A partir do momento em que a adopção é viável, é feita uma triagem. “As pessoas candidatam-se, têm de nos mostrar, por fotografias, que têm as condições necessárias, têm de nos dizer onde vão ao veterinário, onde o animal fica nas férias e explicitar se o resto da família concorda com a adopção”, afirma Sónia Rodrigues. Com isto, a associação visa garantir que o sofrimento não volta a ser parte da vida do animal. Por outro lado, “animais que estejam muito doentes, em fim de vida, ou em necessidade de cuidados muito especializados ficam connosco em regime de santuário até morrerem”, frisa ainda.

O facto da APRAE não dispor de nenhum apoio financeiro torna todo este trabalho mais complexo. Para agilizar o processo, o projecto usufrui da ajuda de cinco veterinários nos três pólos (Porto, Coimbra e Lisboa), que se mostram disponíveis a qualquer hora do dia. Conta ainda com várias parcerias com lojas e aceita todo o tipo de donativos: dinheiro, gaiolas, alimentação, brinquedos, entre outros. A par disto, está sempre disponível para receber novas FAT.

“Pessoas que, por exemplo, não tenham estabilidade para adoptar, mas que estejam dispostas a auxiliar um animal recebendo-o em casa até que seja adoptado”, elucida Sónia Rodrigues. Quem optar por ser FAT não precisa de se preocupar com nada a não ser dar amor ao seu exótico, afinal, a APRAE trata de tudo: desde fornecer as gaiolas e comida a pagar todas as contas adjacentes. “Só têm [FAT] de ter disponibilidade para levar os animais aos nossos veterinários e, obviamente, estar em contacto connosco para garantirmos que está tudo bem”, conclui a fundadora. A este propósito, e tendo em conta a proximidade aos veterinários, só são aceites famílias de acolhimento no Porto, Coimbra e Lisboa.

A APRAE está sempre disponível para informar e/ou tirar dúvidas a quem tenha ou queira vir a ter um animal exótico, bem como a quem, simplesmente, pretenda ajudar. A associação pode ser contactada através das redes sociais, no site https://projeto-de-resgate-de-animais-exoticos.webnode.pt/, ou do email [email protected].

Por Cátia Barbosa

Fonte: Campeão das Províncias / mantida a grafia lusitana original

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