Portugal: Campanha “Unchainmee” quer abolir os animais dos circos

Portugal: Campanha “Unchainmee” quer abolir os animais dos circos

Realizada por Teresa Ramos e protagonizada por atores portugueses, esta campanha mostra em doze filmes histórias de animais explorados no circo e posteriormente resgatados. Cidadãos pedem lei que regule setor.

Portugal animais circo

“Lucky” passou quase toda a vida a ser treinada. Apesar de ser a figura aclamada em dois espetáculos por dia, não era feliz, mas não sabia que era uma escrava porque não conhecia outro mundo. As luzes fortes dos palcos ofuscaram-lhe a visão, acabando por ficar cega. “Will” não sabe como foi apanhado. O chicote e o fogo passaram a ser as constantes ferramentas de trabalho. Nos momentos de folga era encarcerado numa cela onde mal se mexia. “Kira” não teve escolha. Dava lucro e era forçada a trabalhar. Até quando não lhe batiam achava que tinha feito alguma coisa errada.

“Lucky”, “Will” e “Kira” são animais, um elefante, um leão e uma cadela. Mas esta narrativa podia bem ser sobre humanos. É essa “raiz do problema” que a realizadora Teresa Ramos quis envolver nos 12 filmes da campanha pela abolição de animais no circo Unchainmee: “É errado. Ponto. Independentemente do sujeito, a tortura, a exploração e a diversão à conta de outro, são erradas”.

A grande causa de Teresa Ramos são os direitos, quer sejam humanos ou animais. Nos seus trabalhos, a realizadora já promoveu parcerias com associações de defesa dos animais, como a “Animal”, como se descobrem materiais feitos para o Centro de Apoio ao Sem-Abrigo (“CASA”). Contudo, foi por estar atenta à realidade animal que se apercebeu de uma lacuna na proteção deles. “Foi aprovada a lei que criminaliza os maus tratos a animais de companhia. Mas ficaram de fora as touradas e os animais de circo. A luta contra as touradas tem sido grande, mas parecia-me que os animais de circo estavam algo esquecidos”, afirmou a realizadora em declarações ao P3.

Na campanha “Unchainmee”, descrita em 12 curtos filmes, são contadas histórias verídicas de animais, selvagens e de companhia, que depois de uma vida de exploração e maus-tratos no circo foram libertados. Os textos, escritos pela própria realizadora, tiveram como base notícias e artigos online. Atores Rita Blanco, Adriano Luz, Maria João Luís, João Lagarto, Carla Bolito, Filipe Duarte, Ana Brandão, Ruben Alves, Mitó Mendes, Marcello Urgeghe, Manuela Couto e Diogo Amaral, deram voz às histórias, onde cada um interpreta um animal explorado num circo e já resgatado entretanto, tendo alguns casos, como inspiração vídeos de resgate do circo ou da vida pós-circo. Nomeadamente o leão “Will”, que pisou a relva pela primeira vez depois de 13 anos de encarceramento, “Pepe”, um macaco resgatado que descobre a felicidade quando encontra a macaca “Valery”, ou “Shirley”, que depois de 23 anos encontra e reconhece imediatamente a ex-companheira de circo “Jenny”.

“O que defendemos é a abolição da utilização de animais nos circos. Fazem-se regulamentos e reformas, mas elas não servem os direitos dos animas. Enquanto houver animais nos circos isto continua errado”, defende a criadora da campanha, que conta o apoio da Fundação José Saramago, autor que sempre defendeu os direitos dos animais.

Teresa Ramos e os atores afirmam-se como “admiradores do circo enquanto arte e espetáculo com humanos”, contudo consideram “inaceitável que animais de tantas espécies continuem a ser encarcerados e forçados a atuar nos circos”.

O décimo vídeo foi divulgado ontem, dia 23. Na próxima semana serão revelados os dois restantes, interpretados por Marcello Urgeghe e Rita Blanco. Para já, a campanha está confinada ao online, com uma aposta na divulgação a partir das redes sociais (Facebook, Twitter, Google+), mas preveem-se novas parcerias a serem fechadas para divulgação noutras plataformas.

Com um objetivo de alcance além-fronteiras, a realizadora tem já acertada a gravação dos mesmos 12 depoimentos em Espanha, em França e nos Estados Unidos da América, com atores locais. Está previsto, ainda, a possibilidade de o fazer no Brasil, apesar de ser um país onde a utilização de animais no circo já está proibida por lei. “Continua a fazer sentido, porque esta é uma defesa e um conceito global, pelo qual nos devemos juntar uns pelos outros”.

Os animais aprisionados nos circos apresentam uma série de comportamentos “muito bem documentados por médicos veterinários e biólogos especializados em etologia”, como movimentos repetitivos, as estereotipias e a coprofragia, que “demonstram bem a vida de escravidão a que são forçados”, lê-se no texto de apresentação da campanha.

Em Portugal, a lei proíbe somente a reprodução de espécies selvagens. O que, ainda assim, não é cumprido, assegura o grupo de cidadãos que se associou a esta campanha. “Na altura do Natal (época mais forte dos circos), continua a ser comum ver os circos apresentarem leões e tigres bebés, para oportunidades fotográficas com espetadores, quando isso é ilegal”. Na ausência de uma lei específica, a regulamentação da utilização fica a cargo das câmaras municipais. “Tem havido avanços e câmaras como Évora e Funchal recentemente proibiram os animais nos circos. Mas o que queremos é que exista uma lei”.

Fonte: Gazeta do Rossio

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