Portugal: os dias de visitação ao santuário em Palmela salvam a vida de mais de 130 animais

Portugal: os dias de visitação ao santuário em Palmela salvam a vida de mais de 130 animais
Alice com Eva e Bella. Foto: Laura Lourenço

Elisa sempre foi obcecada por carne vermelha. A advogada não gostava de legumes e raramente comia peixes. Sempre que a abordavam para falar sobre o veganismo visto pelo lado dos animais, preferia não ouvir para não ter de “enfrentar o problema”. Este mês, passado 12 anos desde que deixou de vez esta vida, foi uma das cozinheiras dos pratos 100 por cento veganos oferecidos aos visitantes durante o terceiro dia aberto da Animal Save & Care Portugal.

Rojões de soja, cogumelos à Bulhão Pato e falafel com grão foram alguns dos pratos na ementa. “Não temos de fazer muito ativismo, temos de fazer as coisas com qualidade”, defende à PiT Elisa Nair, 44, uma das fundadoras do Desafio Vegetariano, a plataforma que oferece todo o acompanhamento para aqueles que querem adotar uma dieta sem produtos de origem animal.

A advogada, que quer mudar pensamentos de forma positiva e sem recorrer a acusações de extremismo, juntou-se ao projeto Tiny Mangoes, de Rita Manguinhas, e a Noel Santos, co-fundador do santuário em Palmela, para fazer um almoço especial para as mais de 30 pessoas que lá estavam. Durante duas horas, os visitantes encheram a barriga, conviveram e tiveram a oportunidade de comprar produtos da Animal Save & Care Portugal.

Uma vez ou outra, os visitantes eram surpreendidos por Ana, a porca vietnamita que não resistia às festinhas na barriga, ou por Elisa, a borrega com paralisia cerebral recentemente acolhida pelo santuário. Mais tarde, foi a vez de Matilde vir dar “olá” com segundas intenções — distrair os comensais para roubar os restos de comida da mesa do almoço.

A ideia de arrancar com os dias abertos já era algo que a organização planeava há muito tempo, mas só este ano conseguiu colocá-la em prática. “Há muitos anos que queríamos fazer isso, mas não tínhamos as instalações”, explica-nos Alice Basílio, que transformou a quinta de exploração da família num santuário onde acolhe mais de 130 animais resgatados de situações extremas, entre porcos, cavalos, ovelhas, bodes, galinhas, patos, etc. Pela terceira vez, a ativista abriu a porta de casa para receber aqueles interessados em conhecer o espaço e os seus residentes.

Ao lado de Noel, dividiu os miúdos, jovens, adultos e idosos em dois grupos e a seguir do almoço, pelas 14 horas de um sábado, deu início às primeiras indicações da visita guiada. “Não convém haver correrias, nem gritos”, alerta Alice. “Queremos que a experiência seja boa para todos”, acrescenta o companheiro.

Em seguida, abriram-se as portas para o universo que é a Animal Save & Care Portugal. A primeira paragem é o novo pasto inaugurado pelo casal e pelos voluntários que o ajudam, onde colocaram a égua Alma, a mula Matilde, os bodes Gil e Amado, as ovelhas e os cabritos Duarte e Bella.

Antes da descoberta no novo lar da grande família, um aviso: atenção às “marradinhas de amor” de Bella, que, apesar do tamanho, está sempre bem disposta para dar um empurrãozinho.

Bella pede atenção e, em troca, dá marradinhas. Foto: Laura Lourenço
Bella pede atenção e, em troca, dá marradinhas. Foto: Laura Lourenço

Matilde, a mula de 30 anos salva após passar toda a vida a ser explorada, tem sido mantida separada dos outros animais para não haver stress. Ainda assim, do outro lado da cerca tem uma protetora que faz de tudo para vê-la bem — Alma, a égua resgatada após ser deixada presa numa corda, sem qualquer possibilidade de sobreviver.

“A Matilde tem caído mais vezes e a Alma protege-a, anda aos pinotes e aos coices”, partilha Alice. O problema é que a mula já não consegue aturar a hiperatividade da jovem égua e para evitar acidentes, os fundadores mantêm a velhota no seu próprio pasto — mas perto o suficiente para interagir com os outros animais, se assim desejar.

Amélia, a galinha que reconheceu a salvadora

A próxima paragem é o paraíso das aves — galinhas, galos, patos e até um pombo garanhão recentemente resgatado. Mantido numa gaiola para o seu bem (e dos outros), tenta conquistar a todo custo as galinhas que ali passam. Como? A fazer a famosa dança do acasalamento — até a data, não teve sorte, mas o que não lhe falta é tempo para continuar a tentar.

Uma delas, Amélia, ignora-o por completo e vem a correr em direção aos visitantes. O comportamento não é estranho, mas há uma pessoa em especial que lhe chama atenção — Silvia, a razão pela qual a ave tem hoje uma segunda oportunidade.

“Há uns tempos, fazia muitos bolos e deram-me um galo e uma galinha”, começa por contar a visitante. “Mas um galo serve para 12 galinhas e a Amélia estava a ficar muito cansada”, aponta. Como resultado, acabou por oferecê-la a um amigo que tinha outras aves. Contudo, nada correu como o esperado.

“Passou uma raposa e comeu todas”, recorda. “Matou o galo e a Amélia ficou muito ferida”, acrescenta. Nesta altura, decidiu levar a galinha de volta para casa e nos meses seguintes, ao lado das três filhas, ofereceu-lhe todos os cuidados de que precisava. Quando Amélia já estava recuperada, Silvia teve o conhecimento da Animal Save & Care Portugal e entrou em contacto com o santuário para a acolher.

Ainda hoje, a galinha continua a receber visitas da sua primeira “mãe” humana. Embora sejam poucas (porque a viagem é longa) todas as vezes que ela lá vai, Amélia recorda não só dela, mas também das três “irmãs” humanas que a ajudaram num momento sensível.

A tentar a sorte. Foto: Laura Lourenço
A tentar a sorte. Foto: Laura Lourenço

Os animais estão divididos em famílias

Atrás das aves, os suínos são a espécie em mais abundância no santuário. E a grande maioria tem histórias que não são fáceis de ouvir. Safira, por exemplo, foi resgatada de um circo ao lado do parceiro, Paco, e do filho, Caio. A fêmea era usada para procriação e todos os seus bebés eram dados como alimentos para os outros animais de grande porte.

Por serem muito territoriais, todos os porcos são divididos em grupos e estes não se podem misturar. Na casa de Safira, Paco e Caio, o porco Alfredo também encontrou um lar. O pequenote é um dos animais mais simpáticos do espaço e não é à toa que é conhecido como o “porquinho terapeuta”. Basta ver alguém, para se deitar de barriga para cima e pedir festas.

Do outro lado da quinta, numa casinha de madeira construída por Noel, vive Amor, o gigante com cerca de 200 quilos que inspirou a criação do projeto. “Dei-lhe o nome Amor para ver se as pessoas mudavam os pensamentos”, explica a ativista. “Porco é uma palavra negativa e Amor não é, modifica a forma como olham para ele”.

O suíno, por outro lado, não conquistou apenas os humanos. Eduardo, um outro porco resgatado (e com metade do tamanho de Amor) apaixonou-se pelo grandalhão e recusou-se a sair do seu lado. Hoje, continuam inseparáveis.

Sejam ao lado das suas famílias de sangue ou daquelas que adotam por ordem do destino, todos os animais da Animal Save & Care Portugal encontram o seu próprio grupo. E lá, os cães e os gatos também têm um porto seguro. Se não bastasse todo o conhecimento partilhado por Alice e Noel, os visitantes foram ainda acompanhados por Eva, a pequena Chihuahua que fez questão de se juntar a nós.

“Ela é a minha sombra”, avança Alice. Há alguns anos, quando foi chamada por uma associação de resgate animal para ajudar dois porcos, a ativista apaixonou-se pela Chihuahua, que estava para adoção, e decidiu levá-la para casa. Naquele dia, acabou por trazer ainda Benuron (Ben, para os amigos), um Pinscher para lhe fazer companhia.

Contudo, o macho prefere ficar longe dos holofotes. Já a fêmea, é raramente vista a andar com as patas no chão — está sempre a saltar de colo a colo, atenta a todos ao seu redor.

Eva só quer saber de mimos. Foto: Laura Lourenço
Eva só quer saber de mimos. Foto: Laura Lourenço

A Animal Save & Care Portugal já está a pensar no próximo dia aberto, que ainda não tem data definida. Os fundadores cobram uma taxa de 15€ por pessoa para ajudar a pagar as despesas dos seus animais — que não são poucas. Por semana, por exemplo, gastam 250€ apenas em ração, sem contar todos os outros suplementos para manter a qualidade de vida de todos os residentes.

Para ajudar, mesmo de longe, pode juntar-se à família através do cartão iCare por um valor de 25€. Este equivale a duas sacas de ração, quatro fardos de palha e uma consulta no veterinário. As ajudas também podem ser enviadas através do MbWay 935403296 ou NIB (0033 0000 45535893207 05).

A seguir, percorra a galeria para saber como são os dias abertos no santuário em Palmela. Pode acompanhar o dia a dia dos seus animais através do Instagram e Facebook.

Por Izabelli Pincelli

Fonte: Pets in Town / mantida a grafia lusitana original