Portugal: Presidente da Câmara de Monchique diz que canis intermunicipais não resolvem abandono dos animais no Algarve

Portugal: Presidente da Câmara de Monchique diz que canis intermunicipais não resolvem abandono dos animais no Algarve
Fotos: Reprodução Internet

O presidente da Câmara Municipal de Monchique considera que «apesar de imprescindíveis», os dois canis intermunicipais previstos para o Algarve servem «apenas para resolver o problema de onde colocar os animais abandonados», mas «não promovem o mais importante, que é a prevenção do abandono dos animais».

Esta posição foi apresentada ontem pelo autarca Rui André, na reunião da Comunidade Intermunicipal do Algarve (AMAL), em Faro.

A AMAL está a estudar a criação de uma rede de dois canis intermunicipais para acolher animais abandonados no Algarve, associando todos os municípios da região. Já se sabe que um deles, o do Sotavento, será instalado no concelho de Alcoutim. Resta ainda definir a localização do canil intermunicipal para o Barlavento algarvio. Para definir os pormenores, características e viabilidade destas estruturas, está a avançar um um estudo económico-financeiro.

Rui André disse ao Sul Informação que a proposta que ontem apresentou na reunião semanal da AMAL «foi muito bem acolhida por todos», prevendo-se que seja «feito um trabalho em paralelo com o outro estudo» sobre os dois canis, de modo a vir a criar uma estratégia intermunicipal para a prevenção do abandono dos animais no Algarve.

Propôs mesmo que todos os municípios façam um investimento «na promoção da esterilização de animais, quer tenham ou não proprietário, considerando que esse investimento será uma medida verdadeiramente eficaz no combate ao abandono, devendo constituir uma prioridade».

Outras medidas defendidas passam pela melhor fiscalização dos cães, e ainda pela sensibilização das populações «para temáticas como os direitos dos animais, penalizações por abandono e maus tratos, adoção de animais dos canis e esclarecimentos sobre adoção consciente».

«Quero que o Algarve seja, também nesta matéria, um exemplo de promoção dos cuidados com os Animais», frisou o autarca de Monchique.

Rui André salienta, na posição que apresentou na reunião ordinária da Comissão Intermunicipal da AMAL, que, mesmo com a construção dos canis intermunicipais, continuará a ser necessário que, em cada Município, haja «uma estrutura de apoio, que tenha capacidade de captura, transporte e alojamento dos canídeos».

Apesar de considerar que tem que se ir mais longe, o autarca monchiquense sublinha que os novos canis intermunicipais «são absolutamente imprescindíveis, visto que os Municípios se debatem diariamente com o problema da sobrelotação das instalações que possuem, com um número insuficiente de adoções e com animais constantemente a aparecerem e a necessitarem de alojamento».

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Cita mesmo números da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, segundo os quais chegaram aos canis municipais de todo o país quase 32 mil animais no ano 2014.

«Considerando estes números, compreende-se que, sem a existência de fortes e eficazes medidas preventivas do abandono, não há possibilidade de alojar todos os animais», frisa.

Até porque, «considerando que a longevidade média de um cão seja de 10 anos, corre-se o risco de multiplicar o valor anual de 32.000 por 10, obtendo o valor de 320.000», sendo este valor «incomportável em termos de todas as adoções do país, bem como de capacidade de alojamento nacional em canis».

O presidente da Câmara de Monchique salienta que esta questão resulta da «preocupação levantada» pela médica veterinária municipal, Ana Silva, e da sua própria, pelo que trouxe «este assunto à reflexão de todos os Municípios». Defende que um programa de esterilização em todo o Algarve deve «constituir uma prioridade de forma a afirmar a região não somente como a proprietária de dois “mega” canis, mas sim enquanto região que promove verdadeiras políticas de prevenção animal, no seguimento daquilo que tem feito até aqui».

Rui André considera que esta será uma «medida inovadora», que pode tornar o Algarve numa «região piloto nesta matéria», mas alerta que isso «implica uma envolvência de várias entidades cujas responsabilidades podem agora ganhar outra dimensão».

Na verdade, enumera, «além da esterilização, é necessário que haja apoio por parte das entidades fiscalizadoras na fiscalização de todos os canídeos, assegurando que todos possuem identificação eletrónica devidamente registada nas bases de dados. Deverão também ser fiscalizados e controlados os locais de reprodução e comércio de canídeos».

Em simultâneo, «é necessário também investir na educação, de forma a sensibilizar as populações para temáticas como os direitos dos animais, penalizações por abandono e maus tratos, adoção de animais dos canis e esclarecimentos sobre adoção consciente, ações para as quais deverá ser definida uma estratégia integrada a nível regional, podendo ser realizada em simultâneo com o estudo agora em elaboração sobre a construção dos canis intermunicipais».

O município de Monchique tem sido pioneiro a nível nacional em questões que têm a ver com o bem estar dos animais domésticos, como é o caso do programa para salvamento dos animais em situações de catástrofes naturais, como os incêndios. A proposta do presidente da Câmara Rui André apresentada ontem na reunião da AMAL, em Faro, é apenas mais um passo para aprofundar essa aposta no bem estar animal.

Por Elisabete Rodrigues 


Nota do Olhar Animal: Exato. A criação de abrigos só faz sentido se inserida numa política mais ampla, que preveja esterilização e educação. Por si só, pode acabar até estimulando o abandono, na medida em que as pessoas passam a acreditar que os animais abandonados serão recolhidos por “alguém” e levados para estes locais.

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