Post em rede social mobiliza resgate de coruja presa em linha de pipa em Mogi das Cruzes, SP

Post em rede social mobiliza resgate de coruja presa em linha de pipa em Mogi das Cruzes, SP
Foto: Reprodução Internet

Uma coruja rara da espécie Asio stygius, também conhecida como mocho-diabo ou Coruja-Diabo, foi resgatada na tarde de segunda-feira (12), após ficar pendurada em uma linha de pipa e ser apedrejada em Mogi das Cruzes. Ela foi socorrida pelo médico veterinário Jefferson Leite, conhecido na cidade pelo resgate de animais silvestres, após um post em um grupo da cidade nas redes sociais. A ave teve ferimentos leves, como corte da pele provocado pela linha, e está em observação. A expectativa é que a coruja seja solta de volta na natureza em breve.

Coruja mocho-diabo ficou presa em linha de pipa em árvore em Mogi das Cruzes (Foto: Débora Lima/ Arquivo Pessoal)
Coruja mocho-diabo ficou presa em linha de pipa
em árvore em Mogi das Cruzes (Foto: Débora Lima/
Arquivo Pessoal)

O resgate começou com um post em um grupo da cidade nas redes sociais. Na mensagem, a moradora da cidade Débora Lima pedia para alguém ajudá-la a identificar a ave que estava presa em uma linha de pipa enroscada em uma árvore, na Vila Natal.

No post ela ainda comenta que chegou a pedir ajuda da Polícia Ambiental e foi informada de que não faziam resgate de animais e que não há orgão na região para fazê-lo.

“Vimos que ela estava presa porque pessoas estavam jogando pedras nela, e uma das pedras caiu em casa. Liguei na Polícia Ambiental e disseram que não faziam resgate de animais. Achei absurdo, porque me falaram que eu mesma poderia cuidar, levar pra minha casa, sem cuidado técnico nenhum. Mas a ave tem umas garras enormes e sei que não se pode fazer isso. Minha filha subiu na árvore, começou a cortar a linha, onde dava. Cortou até galho. Ela estava sangrando”, contou.

O G1 pediu e aguarda uma posição da Polícia Ambiental sobre a falta de atendimento.

Foi então que marcaram o veterinário Jefferson Renan, que conseguiu o endereço da ocorrência e fez o resgate. “Houve uma mobilização em tentar ajudar a ave porque pessoas leigas estavam jogando pedra no animal. Ela teve cortes na pele causados pela linha de pipa. Agora está em observação para ver se não houve distensão da musculatura, porque ficou muito tempo pendurada, de cabeça para baixo. Dependendo da recuperação, já podemos fazer a soltura de volta para a natureza em breve”.

O veterinário destaca que a ave foi apedrejada. “Ela tinha linha presa na asa, e algumas pessoas estavam jogando pedra nela. Infelizmente essa conduta é comum, e muitas vezes o resgate do animal não é prioridade dos órgãos’, comentou.

Voluntário

De junho de 2015 até outubro deste ano, quase 80 animais silvestres resgatados com ferimentos, em situação de risco, ou em áreas urbanas, passaram pelas mãos do médico veterinário. Sem um Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) no Alto Tietê, o especialista acaba realizando os primeiros socorros aos bichinhos, que retornam à natureza ou são encaminhados a uma unidade específica, fora da região. Isso quando eles conseguem se recuperar. Muitos animais acabam morrendo devido à falta de tratamento específico, ou por não conseguirem se adaptar novamente à natureza.

O vai e vem de animais de diversas espécies é tão frequente na vida do veterinário que ele lembra Dr. Dolittle, médico interpretado por Eddie Murphy em uma comédia norte-americana.

Desde 1994, quando o médico abriu em Mogi uma clínica particular depois de se formar em veterinária na Universidade de Alfenas (Unifenas), em Minas Gerais, recebia, vez ou outra, animais silvestres, resgatados por policiais ou bombeiros.

Com o crescimento do setor imobiliário e o desmatamento, a aparição de bichos silvestres em rodovias, árvores ou até mesmo nas casas, foi ficando cada vez mais comum. Dados da Fundação SOS Mata Atlântica mostram que o Alto Tietê tinha, originalmente, 252 hectares de Mata Atlântica. Atualmente, restam menos de 52 hestares e, em Mogi das Cruzes, uma das áreas que melhor representa o desmatamento é a Serra do Itapeti. Muitos condomínios estão localizados em áreas onde só existia verde.

Dos 79 animais socorridos pelo médico de junho de 2015 até hoje, 24 foram encontrados em bairros como Rodeio, Itapety, César de Sousa, Mogilar e Botujuru, bairros mais próximos à Serra do Itapety.

Mosaico com os animais socorridos pelo médico veterinário de Mogi das Cruzes, Jefferson Leite (Foto: Jefferson Leite/ Arquivo Pessoal)
Mosaico com os animais socorridos pelo médico veterinário de Mogi das Cruzes, Jefferson Leite (Fotos: Jefferson Leite/ Arquivo Pessoal)

Todos os atendimentos são voluntários e incluem os custos com medicação e alimentação, que são bem específicos em alguns casos. O veterinário ressalta ainda a importância de adotar técnicas durante o cuidado, para que o animal silvestre não perca sua característica e seja domesticado.

Em agosto deste ano, por exemplo, o veterinário resgatou em Guararema um filhote fêmea de gato-do-mato-pequeno Leopardus gatullus.

O filhote, sua mãe e irmãos foram atacados por cães. Como a cidade não tem local adequado para o tratamento, o animal foi levado à sua clínica particular e depois à sua casa.  Mas a medida não é a ideal. “Existe uma técnica para cuidar deste tipo de animal sem domesticá-lo. Desta forma, ele consegue voltar ao seu habitat assim que curado”, explicou o médico.

No caso do gato do mato, por exemplo, o tempo em que precisou ficar em contato com os humanos para sua recuperação, afetou seu comportamento natural. “É interessante que o bicho não se apegue. Fiquei 20 dias com o gato-do-mato, é muito tempo de contato para um animal silvestre. Ele virou quase um gatinho doméstico, ficou dependende”, contou.

A soltura indevida também pode gerar problemas e desequilibrio. É o caso do sagui-de-tufo-branco, que é uma espécie exótica que não habitava a mata da região. Por causa da soltura indevida, trouxe problemas para o sagui-da-serra-escuro, que está em extinção e perdeu território. A soltura indevida também deu origem a macacos híbridos.

A criação de um  Centro de Triagem de Animais Silvestres (CETAS) no Alto Tietê poderia ainda desafogar a demanda de animais encaminhados para as unidades de Jundiaí e São Paulo.. “Em São Paulo, chegam tantos animais que a unidade quase não dá conta dos atendimentos. São quase 200 animais por dia, é uma demanda realmente grande. Com uma unidade em Mogi, iriamos absorver essa demanda regional, por exemplo”, defendeu o veterinário.

Veado-catingueiro, em Mogi, no momento do resgate (Foto: Jefferson Leite/Arquivo Pessoal)
Veado-catingueiro, em Mogi, no momento do
resgate

Sobrevivência

A distância entre a região e os centros de triagens de animais silvestres disponíveis atualmente resultam num outro problema. Nem sempre os primeiros-socorros prestados voluntariamente pelo veterinário mogiano são capazes de garantir que o animal sobreviva. Foi o caso do veado-catingueiro, que foi resgatado com ferimentos após ser atacado por cães em um sítio no bairro Cocuera, em julho deste ano.

“Uma minoria desses animais resgatados consegue sobreviver. Quando um animal silvestre se deixa ser capturado, algo de grave aconteceu. Há um número alto de perda. Dos que sobram, poucos conseguem voltar para a natureza após um fratura ou lesão grave. Um gavião que quebra a pata, por exemplo, morre de fome, porque perde sua capacidade de voo”, detalhou.

O veterinário tem pesquisado em unidades do Estado e estima que a construção de um CETAS gire em torno de R$ 900 mil e a manurenção R$ 700 mil por ano, para gastos com profissionais específicos e especializados em animais silvestres, medicação, exames e transporte.

Seriema caiu em casa e foi resgatada em Mogi das Cruzes (Foto: Jefferson Leite/Arquivo Pes- soal)
Seriema caiu em casa e foi resgatada em Mogi
das Cruzes

O especialista defende que a região precisa urgentemente de um centro especializado mais completo. De acordo com o Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE), que administra o Cras no Parque Ecológico do Tietê, desde 2011 a unidade recebeu mais de 1,9 mil animais resgatados ou apreendidos no Alto Tietê, a maioria de Mogi das Cruzes.

De acordo com Leite, a implantação do Cetas ou do Cras não precisa, necessariamente, ser feita pelo Poder Público. O veterinário tem feito diversas pesquisas sobre a implantação destes dispositivos em outras cidades, e em vários casos, a criação dos centros surgiu em parceria com empresas, como forma de compensações ambientais.

“Isso pode ser feito a partir de um CNPJ. Em Jambeiro, por exemplo, a empresa que administra o aterro sanitário criou o projeto como forma de compensação. Isso também acontece com algumas empresas que precisam atender Termos de Ajuste de Conduta (TACs), determinados pelo Ministério Público”.

Algumas áreas de Mogi que poderiam abrigar o centro já foram sondadas. “Além da localização em si, é necessário pensar numa área onde é possível fazer a soltura destes animais. Em Mogi, já observamos a possibilidade no Itapeti e Taiaçupeba. Área é o que não falta”, destacou.

A Secretaria de Meio Ambiente do Estado de São Paulo informou que “na região Leste do Estado há a maioria desses empreendimentos em funcionamento e relativamente próximos a Mogi das Cruzes. Este Departamento de Fauna entende que a prioridade, na presente gestão, é implantar Cetas em outras regiões do Estado, como ao norte, oeste e centro, que não contam com esses equipamentos”.

Médico veterinário Jefferson Leite examina sagui-da-serra-escuro (Foto: Jamile Santana/ G1)
Médico veterinário Jefferson Leite examina sagui-da-serra-escuro (Foto: Jamile Santana/ G1)

Por Jamile Santana 

Fonte: G1

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