Professora gasta até R$ 6 mil com ração para gatos abandonados na UFMT

Professora gasta até R$ 6 mil com ração para gatos abandonados na UFMT
Fotos: Rogério Florentino Pereira / Olhar Direto

A professora Marlene Gonçalves, de 49 anos e pouco mais de um metro de altura, desfila seus cabelos brancos e brilhantes pelo saguão do Instituto de Linguagens da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). São 8h da manhã quando o primeiro felino aparece. Os gatos se escondem nos bueiros e escombros do bloco e são acordados pelo barulho do carrinho de ração da professora atravessando o caminho.

“Há dois dias roubaram uma casinha deles que ficava ali”, lamenta Marlene apontando para um canto do bloco onde ficava a residência de um dos quase 30 gatos alimentados por ela no Instituto de Linguagem (IL) e no Instituo de Educação (IE) da UFMT. A casinha roubada é uma das cinco compradas com o dinheiro do seu décimo terceiro salário.

As casinhas dos gatos compradas pela professora são um conforto a mais oferecido por ela aos bichanos.

Marlene é só mais um dos funcionários da universidade que alimentam os animais no campus. Em cada bloco, há pelo o menos um servidor ou professor que se encarrega de ajudar os bichos a sobreviverem. A caridade, no entanto, é o que incentiva as pessoas a continuarem abandonando animais no local.

O amor e o dilema da pequena professora com os gatos começaram em 1992, quando um desconhecido abandonou “Chatram” na porta de sua casa, no bairro Tijucal. Chatram foi adotado, castrado e protegido por sua nova tutora. Depois de adotar o primeiro, os outros logo vieram. De tempos em tempos, a professora acordava e ouvia um miado na porta. Era um novo morador. A coisa se repetiu até que a pedagoga fez as contas: vivia com 27 gatos dentro de casa e nenhum humano.

“Um vizinho me aconselhou a colocar um recado na porta e eu coloquei, era um aviso dizendo para não abandonarem mais os gatos lá e foi só assim que as pessoas pararam. Eu via o animal sendo jogado na porta de casa e não conseguia simplesmente fingir que não tinha visto”, explica ela.

As placas ou os “recados” são também a forma como Marlene se defende dos ladrões de ração que atuam no campus. Em um cantinho da parede no gramado da entrada do bloco, a professora fixou uma folha A4, onde se lê a mensagem “Não faça mais isso, se não vou denunciar”. A precaução é necessária, uma vez que o custo para alimentar os gatos na universidade é alto. Somando os gatos que tem em casa com os que cuida na universidade, a docente gasta até R$ 6 mil por mês com os animais.

Além de alimentar, Marlene também leva ao veterinário. O “Júnior” – um gato tigrado espertalhão que vive em uma das rampas do IE – já foi castrado por ela. A vontade de cuidar dos animais é tão grande que a professora joga na loteria sempre que pode, a ideia é comprar uma chácara e levar todos eles para viverem melhor no local.

“Júnior” é um dos gatos queridinhos que foram nomeados pela professora. Junta-se a ele o alaranjado “Leãozinho”.

“Eu penso em levar alguns para casa, mas lá em casa já tem muito gato. A gente sabe que o certo era que não tivesse gato na UFMT, não adianta extirpar os animais porque sempre vai ter gente abandonando mais e mais gatos aqui”, conta ela enquanto se agacha entre os corrimãos, oferecendo mais um punhado de ração para o “Leãozinho”, um ruivo que mora em um dos estacionamentos da universidade.

Leãozinho, Júnior e o falecido Chatram (in memorian) são exceções na criativa onomástica da pedagoga. Na hora de dar nomes, as paixões se misturam e ela traz referências do futebol para criar as identidades dos seus animais, dando aos bichanos nomes como “Robinho”, “Ramires” e “Diego”, os dois primeiros crescidos durante a Copa do Mundo de 2014.

A paixão pelo Vasco da Gama, seu clube do coração, fez com que ela desse o nome de “Edmundo” a um dos seus animais mais queridinhos. O atacante felino teve depois o nome reduzido para “Ed”, com o qual assistiu e comemorou junto a sua tutora o triunfo do Vascão sobre o Palmeiras, em 1997.

O medo e os riscos à saúde

A discussão em torno dos gatos que moram no campus perpassa quase sempre pelo problema da saúde. A doutora em sociologia que dá aulas no curso de veterinária da universidade, Juliana Abonizio, realizou uma pesquisa junto aos seus alunos e constatou que apesar das pessoas temerem os felinos por conta dos riscos de doença, 100% dos entrevistados relatou não conhecer ninguém que tenha adoecido em por conta dos contato com os felinos.

Juliana demonstra que esse “medo” dos animais tem muito mais a ver com as relações mediadas pela história de vida de cada pessoa. E que os gatos ocupam um lugar no imaginário da população que pode ser nocivo para um e prejudicial para outros. A opinião é compartilhada por Marlene que diz nunca ter contraído nenhuma doença, a despeito de seus 27 bichanos residenciais e outros 30 alimentados na UFMT.

O trabalho de formiguinha da professora é tão grande que ela chega a passar inseticida onde os gatos dormem, temendo que as formigas possam atacá-los.

No caso da toxoplasmose, por exemplo, os veterinários explicam que a doença só é contraída quando é ingerida grande quantidade de fezes de gatos. O mais comum é contrair a doença comendo vegetais mal lavados ou carne mal cozida. Além disso, ela não é transmitida pela urina do gato, como muitos acreditam.

“Os esforços de extermínio dos animais de rua se embasam fortemente nesse tipo de questão. Isso ajuda a apaziguar a consciência dos envolvidos, pois cria uma justificativa racional para matar os animais. Essa argumentação justifica o extermínio e ajuda a esconder um grande nó dessa questão: Esses animais tem consciência, subjetividade e tanto direito e interesse à vida quanto nós.”, alerta a pesquisadora Eveline Teixeira Baptistella que já estudou a relação entre homens e animais em ambientes públicos.

Pobres, porém livres

Em Cuiabá, os gatos abandonados sobrevivem essencialmente em espaços públicos. Eles se protegem em locais em que almas caridosas oferecem ao menos um pouco de carinho. Além da UFMT, os felinos também estão presentes no Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT). Por lá, a superpopulação de gatos fez o desembargador Orlando Perri, então presidente do Tribunal em 2013, baixar uma norma que proibia os servidores do judiciário de alimentar os animais.

A portaria 554/2013 visava cortar o mal pela pata: interromper os cuidados para que com isso as pessoas se sentissem menos mobilizadas a abandonarem os animais no local. O problema é que a regra não surtiu efeito no afeto dos trabalhadores e muitos continuaram a alimentar os gatos mesmo que anônima e irregularmente.

Essa proibição, segundo Eveline, é culpa de uma visão ultrapassada que enxerga os animais como “máquinas em busca de alimento”. Para a pesquisadora, essas soluções “mágicas” tendem sempre ao fracasso porque a questão só é resolvida por uma mudança social e pela adoção de políticas públicas de bem-estar animal.

“A UFMT é muito grande, não tem um sistema de câmeras eficiente e seria impossível ter guardas para policiarem todos os locais em todos os momentos. Assim, é muito fácil pegar uma ninhada de gatos e abandonar em pontos isolados. A pessoa sabe que não será descoberta nem penalizada pelo ato”, explica ela.

Castração silenciosa

O número de gatos na UFMT é, no mínimo, exorbitante. Segundo a professora de veterinária e integrante de uma comissão que estuda o problema, Adriana Borsa, a população é de cerca de 1000 animais. Ou seja, a população de gatos representa 13% da população de alunos, que é de 7.365 estudantes.

Para evitar que os animais continuem a se proliferar o departamento de veterinária castra “silenciosamente” os animais. A universidade não mantém campanhas de castração dos felinos do campus por medo de que as pessoas continuem abandonando seus animais com a justificativa de que lá além de serem alimentados também serão castrados e terão atendimento veterinário.

Essa “castração silenciosa” é feita justamente com o auxílio das pessoas que alimentam os animais. São elas que encaminham os gatos até o Hospital Veterinário. Os animais mais antigos, gordos e corpulentos são os primeiros beneficiários dessa ação caridosa.

“Não divulgamos essa castração porque nós sabemos que isso vai continuar incentivando as pessoas a abandonarem seus animais de estimação. Por isso nós estamos estudanto uma maneira de solucionar o problema, tentar impedir ou dificultar que as pessoas abandonem os gatos na universidade, só castrar ou eliminar os bichos não adianta, eles continuam abandonando” explica professora.

Paralelamente a isso, a UFMT ainda realiza campanhas publicitárias para inibir o abandono. Placas espalhadas nas proximidades das guaritas mostram imagens de um gatinho amarelo, cujo olhar parece pedir para que não seja deixado no campus. O “modelo” da campanha pode ser facilmente confundido com qualquer filhotinho dormindo em algum gramado da universidade, já sem o lar que o expulsou.

Por Lázaro Thor Borges

Fonte: Olhar Direto

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