Protetores de Belo Horizonte (MG) criticam uso de abraçadeiras de nylon em cirurgias de esterilização

Protetores de Belo Horizonte (MG) criticam uso de abraçadeiras de nylon em cirurgias de esterilização
Foto: Abraão Bruck/CMBH

Motivados por denúncias de danos à saúde e até mesmo óbitos de cães e gatos após a castração, supostamente causados pelo uso de abraçadeira (lacre) de nylon no procedimento, protetores de animais questionaram, nesta segunda-feira (20/5), a utilização do material nos Centros de Controle de Zoonoses da Prefeitura de BH. No debate público sobre o tema na Comissão de Meio Ambiente, Defesa dos Animais e Política Urbana, gestores do setor apresentaram a evolução das políticas municipais e, assegurando o alinhamento com as orientações e normativas do Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV), afirmaram que, embora o uso do dispositivo não seja proibido e o índice de intercorrências seja baixo, os projetos de ampliação e aprimoramento dos serviços do órgão incluem estudos de outros tipos de material. Sobre a atenção às colônias de gatos que habitam parques e matas da cidade, também abordada na audiência, o poder público ressaltou a parceria com protetores e convidou as entidades a se cadastrar e participar.

A vereadora Janaína Cardoso (União), ativista da causa animal e requerente da audiência, alegou que, em que pese o baixo custo das abraçadeiras de nylon – em média R$0,10 por unidade -, o produto não é próprio para uso cirúrgico e seria, inclusive, proibido pela Conselho Federal de Medicina Veterinária. Autora do PL 816/2023, que proíbe o uso do dispositivo nas redes pública e privada da Capital, Janaína alegou que o critério de economia de recursos (outros materiais disponíveis no mercado, segundo apurou, custam entre R$ 2,80 e R$ 5) não pode se sobrepor à saúde, bem estar e dignidade dos animais.

Além disso, o tratamento das sequelas gera custos posteriores aos tutores, que hoje, em sua maioria, consideram os animais como parte da família. Exibindo aos presentes um exemplar do dispositivo, a vereadora alegou que, conforme entidades protetoras, um em cada dez animais pode sofrer intercorrências graves e até mesmo óbito em decorrência de seu uso no procedimento de castração. “Pode parecer pouco, mas e se for o meu e o seu? O cuidado e a segurança têm de ser 100%”, afirmou. Em seu entendimento, se a questão for financeira, trata-se de uma “economia porca”, já que o Município tem recursos orçamentários para as castrações; ela própria destinou emendas impositivas ao setor e gostaria que o recurso fosse gasto no melhor interesse dos animais.

Números positivos

O diretor-geral da Zoonoses da Secretaria Municipal de Saúde (SMSA), Eduardo Gusmão, disse que essas abraçadeiras são permitidas pelo CRMV e que o Conselho Federal não proíbe, apenas não recomenda seu uso. Gusmão e a gerente de Esterilização de Animais, Aline Bezerra, apresentaram um histórico do setor e sua evolução desde a implementação da política, em 2005; uma das pioneiras na extinção da eutanásia e adoção do modelo ‘captura, esteriliza e devolve’ (CED), Belo Horizonte é referência nacional no controle populacional e manejo ético dos animais. O gestor assegurou que a construção da política pública (focada na educação, guarda responsável, incentivo à adoção e manejo reprodutivo) e a definição de técnicas, materiais e protocolos são marcadas pelo diálogo e acolhem os questionamentos e propostas da sociedade civil.

Hoje, a SMSA oferece seis centros de esterilização regionais e uma unidade móvel que atende locais mais vulneráveis, orientada por indicadores de demanda e necessidade. Programas especiais como o Projeto Maloca, voltado à vacinação, castração e cuidados com animais de pessoas em situação de rua, ampliam a capacidade e abrangência do atendimento. Além da atualização e capacitação técnica dos profissionais, alinhadas às normativas do setor, ações educativas nas escolas conscientizam sobre prevenção de zoonoses e guarda responsável; as crianças multiplicam esses conhecimentos na família e na comunidade, favorecendo a mudança cultural e de comportamento em relação à convivência, cuidados com a saúde e direitos dos animais.

Desafios e perspectivas

O gestor salientou que, assim como na medicina, nenhum medicamento ou procedimento veterinário é 100% isento de efeitos adversos e, assim como a abraçadeira de nylon, os outros fios também podem causar reações em alguns indivíduos. Em BH, segundo estudo acadêmico, o índice de intercorrências e óbitos após cirurgias de esterilização (cerca de 20 por dia e mais de 30 mil por ano), foi de 0,38% e 0,02%, respectivamente. Desses últimos, apenas 0,007% foram causados pelo procedimento. Em processo de transição, o órgão vem realizando estudos experimentais com diferentes materiais, avaliando critérios de qualidade e segurança e o melhor custo/benefício, considerando que a estrutura e o aparato necessários para o atendimento, da captura ao acompanhamento pós-operatório não são baratos.

Estão previstas ainda a ampliação da capacidade de atendimento nos centros de controle de zoonoses, a implantação de mais uma unidade móvel e a extensão do Projeto Maloca ao Barreiro e outras regiões da cidade em que a população de rua vem aumentando. Os gestores destacaram a importância da parceria dos protetores de animais na execução e aperfeiçoamento das ações e forneceram o endereço eletrônico para o cadastramento de pessoas e entidades interessadas em participar.

Colônias de gatos

Janaína Cardoso e protetores que fornecem alimento e água para as centenas de felinos que habitam os parques e matas indagaram o posicionamento do poder público sobre a questão. O diretor de Zoonoses reforçou que o trabalho junto a essas colônias, que estão sendo identificadas e mapeadas, precisa muito da parceria de protetores e pediu que especialistas e entidades se cadastrem na SMMA para que possam acionar e ser acionados pela Prefeitura, que realiza a esterilização e o acompanhamento pós-operatório e os devolve à colônia.

Depoimentos de protetores, exibidos em vídeo, atestaram o apoio e a assistência prestados pela Prefeitura a esses animais e que a castração torna os gatos mais dóceis, reduzindo brigas e facilitando a adoção. Janaína Cardoso ponderou que o retorno de animais portadores de doenças como a esporotricose, não tratados ou eutanasiados, pode aumentar a disseminação, inclusive para humanos, sendo necessário investir na prevenção. “Somos contra a eutanásia, mas poupar um pode sacrificar muitos”, alertou.

Janaína Cardoso se declarou “muito feliz” com a evolução dos programas do setor, lembrando que até 2008 os animais eram recolhidos de forma brusca e eutanasiados sem distinção. Esse processo fortalece o olhar diferenciado da população sobre a importância dos animais como amigos e companheiros e o aspecto terapêutico da relação de afeto e convivência para os seres humanos. A parlamentar recomendou aos protetores que se cadastrem para participar das ações e defendeu a aprovação do PL 816/2023, reiterando que a substituição das abraçadeiras de nylon representará um passo importante na garantia da saúde, bem estar e dignidade dos animais de BH.

Fonte: Câmara Municipal de BH

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