Protetores lutam para garantir dignidade animal em meio à pandemia

Protetores lutam para garantir dignidade animal em meio à pandemia

Ela não lembra, mas guarda as histórias que sua família conta de quando tirava pão e biscoito de dentro de casa para distribuir entre os animais da rua. Ou de quando surpreendeu uma cobra que atacava um rato. É desta forma que Raquel Majúna marcou seus primeiros feitos em uma trajetória para garantir a dignidade animal, que já dura meio século. Hoje, ela mora num sítio no bairro Lami, no Extremo Sul de Porto Alegre, que divide com dois filhos, um caseiro e 311 animais resgatados de situações de risco. O sustento dos animais, que chega a partir de ações sociais e doações, diminuiu. Em meio à pandemia, que já se arrasta por quase três meses, a família sente medo de que, com a chegada do inverno, os problemas de saúde dos animais apareçam e os pratos fiquem vazios.

Há mais de quatro anos, o local é a residência da família Majúna e também um terceiro braço do propósito de Raquel na causa: a educação ambiental. “Sempre tive muito carinho por crianças. Tive três filhos e muitos sobrinhos. Estruturei o sítio para receber visitas de escolas. Visitas de uma hora e meia a duas horas onde conto histórias de resgate e a importância do bem-estar animal, sempre orientando que cada um pode fazer um pouquinho em sua rua”, relata de forma nostálgica.

Ela lembrou da vez em que a turma de uma escola ficou tão empolgada com o passeio que cantou uma música em sua homenagem no sítio. Guardou com carinho todas as fotografias mentais das crianças atentas às mais diversas histórias, como a do porco que foi salvo da morte por um voluntário porque o número de filhotes daquela cria era maior do que a mãe porca poderia alimentar. Agora, o porco é um dos moradores do sítio, junto com 217 cães, 56 gatos, 28 galinhas, duas ovelhas, um cavalo criolo, um boi da raça holandesa, um coelho e quatro cabras resgatadas de uma situação de ritual religioso. Às crianças e à reportagem, Raquel garante que sabe de cor todos os nomes e todas as histórias que atravessaram sua vida. “São vidas”, ela coloca.

“Hoje teve duas pessoas aqui na porta largando cães. Eu falo pras pessoas o seguinte: cada um faz sua parte. Os animais que estão aqui são os que eu e meus filhos vimos e tiramos de situação de risco. Eu digo: Se eu for pegar todos os animais de rua abandonados em Porto Alegre, são mais de 500 mil”. Majúna sabe bem que lado a lado ao seu trabalho movido por amor e dedicação têm os números, que são voláteis. Tem vezes que a ração é farta, mas tem outras que tiram o sono da família. E na crise, quem cuida de quem cuida?

Se você não pode adotar nenhum animal, você ainda pode ajudar a Majuna a manter a alimentação e a saúde dos animais, assim como com a abertura da clínica veterinária. Para entrar em contato há três meios: buscar por “Raquel Majúna Protetora Animal” nas redes sociais, pelo WhatsApp (51) 99772-5406 e pela conta bancária do Bradesco 237, agência 2468, conta 33391.

A pandemia por coronavírus, que impôs protocolos de segurança a partir de março em Porto Alegre, foi uma avalanche nas receitas do sítio. Todas as formas de arrecadação de alimentos e renda foram gradualmente sendo suspensas. O brechó que era realizado em todos os finais de semana do mês e arrecadava até R$ 5 mil foi suspenso pela Prefeitura. As feiras de adoção de animais realizadas em praças e a convite de shopping centers também começaram a ser adiadas e, por fim, canceladas por tempo indeterminado. Com isso, diminuiu o número de animais que receberam novos lares nos últimos dois meses. Outra fonte de renda era a venda de tampinhas de garrafa plástica. Com a restrição do funcionamento de atividades econômicas não-essenciais, o local que comprava o material fechou. O rendimento era de R$ 1,5 a R$ 2 mil por mês.

Para garantir 80 kg de ração de cachorro por dia e 14 kg de ração de gato por semana, a protetora tem contado com sua rede de apoio de protetores e voluntários. Mesmo assim, Raquel disse que diminuiu muito o fluxo de pessoas que iam até o sítio levar sacos de ração, seja pelo aperto financeiro ou pelo isolamento social. Com a chegada do inverno e a falta de perspectiva de quanto tempo a pandemia vai durar, ela teve que procurar novas formas de pedir ajuda para continuar cuidando dos animais.

“A gente está nas reservas. Eu estou com medo do que vai ser porque eu estou assistindo aos jornais com muita seriedade. A gente tá fazendo muita muita economia, de todas as formas. Focando só na ração. Agora vem os meses frios e éramos para estar comprando as roupas e cobertas para os animais. Eram pessoas que doavam os cobertores e mantas… Nada disso estamos recebendo. Isso tudo dá medo. Daí vem as doenças de inverno, e com isso as medicações. Eu sempre comprava os remédios e ficava preparada. Estamos com estoque zero de antibióticos. Os polivitamínicos que a gente sempre comprava para ficar preparada para os velhinhos, que são mais fracos. Graças a Deus o inverno não está forte, não está chuvoso”, contou com a voz nervosa.

Enquanto Raquel falava no telefone de todas as dificuldades que vêm enfrentando, o silêncio reinava no outro lado da linha (como se não houvesse 300 animais bem próximos). A protetora então me explicou que eles estão dormindo “em suas casas” e, para meu espanto, são regradinhos e obedientes.

Os cachorros, por exemplo, vivem em canis de 15mx6m e são divididos por tamanho de mandíbula, idade, porte ou comorbidades. Assim, em uma possível briga a noite, evita-se maiores machucados. Os cães idosos que agora estão cegos ganharam um espaço especial e tranquilo com o nome “Canil de Santa Luzia”, em homenagem a santa cristã protetora das pessoas com deficiência visual e padroeira dos oftalmologistas.

“O que você espera deste cachorro?”

Não basta querer adotar. A adoção tem que ser mútua, recíproca. Se você gostou de algum cachorro ou gato das fotos das redes sociais da Majúna ou ao vê-lo nas feiras e quer adotar, você também precisa ser aceito pelo animal de estimação. Para isso tem um espaço especial no sítio da protetora, onde a adotante e o adotado tem o primeiro contato a sós. Esse encontro acontece após um apurado questionário sobre suas intenções em ter um animal. “‘O que você espera deste cachorro’, eu pergunto. Você quer um animal mais calmo? Para apartamento? Para um pátio?”, questiona aos interessados.

O terceiro passo é o contrato de adoção que o responsável assina ao estar ciente de todas as obrigações. Nos próximos meses, Majuna ainda acompanha a adaptação do animal em seu novo lar e aos poucos busca se afastar. Mas não é bem assim, explica ela: “Mas nunca me afasto totalmente porque eles começam a mandar fotos”.

Se você estiver pensando em adotar um terneiro ou até mesmo aquele porco do qual falamos aqui na reportagem, é preciso convencer a Majuna de que você tem o espaço e os cuidados ideais para o bichano. Quem cuida diariamente deles no sítio é um caseiro contratado com experiência para tratar de animais não domesticados.

Fotos: Majúna Proteção Ambiental / Instagram / Divulgação / CP

Por Brenda Fernández

Fonte: Correio do Povo

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