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Protetores que alimentam cães nas ruas enfrentam ódio na Índia

Cães de rua são largamente vistos como uma ‘ameaça’, assim como aqueles que cuidam desses animais.

Por Mitali Parekh / Tradução de Alice Wehrle Gomide

As pessoas que alimentam cães de rua em Mumbai possuem muitas habilidades, dentre elas o dom não menos importante de responder às críticas cheias de ódio e, muitas vezes, violentas.

Os argumentos que eles escutam são previsíveis e desinformados:

  • Se você gosta tanto dos cães de rua, leve-os para casa.

  • Existem tantos humanos precisando de ajuda, então por que ajudar animais?

  • Pelo fato de que você os alimenta, eles se tornam uma ameaça.

  • Nós iremos denunciar para a polícia (por qualquer variedade de razões).

  • Deixe que eles tenham filhotes – é natural.

Todos os alimentadores possuem respostas racionais, calmas e educadas para esses argumentos. “Eu lhes digo ‘estou tornando sua área mais limpa e segura sem nenhum custo para você’”, disse Jenny Lou Bhiwandiwalla, de 61 anos de idade, que alimenta animais desde 1994.

A comunidade de alimentadores na maioria das cidades é amplamente financiada, organizada e dirigida por eles mesmos. Ela usualmente começa com um gato ou cão faminto te seguindo para casa, como no caso de Deepak Nichani, e ligando sua empatia. Logo, você começa a notar todos os animais que não possuem comida nem água na sua rua, então na sua área, e então no seu bairro.

Os alimentadores se tornam amigos dos animais ao lhes prover comida, vacinando-os contra doenças infecciosas transmitidas dos animais para os humanos, como a raiva, prestando os primeiros socorros, coordenando castração com ONGs e veterinários e controlando sua população. Quando ocorre um crime violento contra um cão ou gato de rua, os alimentadores usualmente coletam evidência e seguem um caminho legal para obter justiça.

Eles são os arquétipos da compaixão em um tempo onde humanos frequentemente demonstram crueldade inacreditável contra os animais. No mês passado, um estudante de engenharia de 24 anos foi preso após esfaquear três cães de rua perto de uma estação de metrô em Delhi. Em Andheri, um subúrbio de Mumbai, um homem desconhecido agrediu um cão de rua em uma colônia policial, deixando o cão cego de um olho.

Estruturados como organizações

Estima-se que existam 30 milhões de cães de rua na Índia, certamente mais do que qualquer outro país. De acordo com um estudo de 2015 publicado no PLOS Neglected Tropical Diseases (PLOS Doenças Tropicais Negligenciadas), das 59.000 mortes relacionadas à raiva no mundo, a Índia foi responsável por 20.847 – a maior taxa global de raiva. De acordo com o Indian Journal of Medical Reserach (Jornal Indiano de Pesquisa Médica), 17,4 milhões de mordidas de cães são reportadas a cada ano.

Até 1994, a prefeitura de Mumbai costumava abater cães de rua para controlar sua população. Os cães eram recolhidos e enforcados, eletrocutados, envenenados, agredidos até a morte ou soltos para servirem de isca em parques nacionais. O método provou-se ineficaz e foi finalmente substituído pelo ABC ou Animal Birth Control (Controle de Natalidade Animal), método que optou por esterilização em massa. Este também estipulou que os cães castrados deveriam ser soltos novamente em sua área.

E é aqui onde os alimentadores se tornaram uma grande ajuda. A prefeitura e as ONGs podem cuidar das castrações, mas capturar os cães se tornou muito mais fácil (e menos traumático para o cão) nas mãos de um alimentador amigo. Os alimentadores também coordenam o programa, ficando de olho em novos cães e fornecendo o cuidado pós-operatório.

Outra faceta é o controle da população de gatos que é largamente invisível devido à natureza reservada do animal. Eles não são atendidos pelo ato ABC da prefeitura de Mumbai, mas se reproduzem duas vezes mais do que os cães. Os custos dessas castrações são cobertos pessoalmente pelos alimentadores, ou subsidiados pelas ONGs e veterinários, ou pagos por meio de doações. A castração pode custar entre R$ 42 e R$ 65 por gato.

Os dias dos alimentadores começam cedo e eles operam como uma organização. Há uma rede de alimentadores designados nas áreas menores; uma cadeia de fornecimento de restos de carne trazidos dos açougues; horas reservadas para cozinhar e distribuir a comida; e amigos e funcionários que ficam responsáveis pelas atividades quando eles se ausentam.

Proteção constitucional

A empresária Rita Vazirani vem alimentando animais de rua desde Chembur Sindhi Society até o Vasant Park, no leste da cidade, por 25 anos. O número atual é de 86 cães e 54 gatos, que precisam de quatro quilos de frango, 12 quilos de arroz e dez litros de leite por dia. O custo das provisões é de cerca de R$ 1.500 por mês. Vazirani pessoalmente alimenta os animais das 8h30 às 11h30 da manhã em 17 estações de alimentação designadas, enquanto uma empregada e três voluntários cuidam da alimentação da noite em locais onde ela não pode chegar.

“Eu costumava ver os funcionários da prefeitura colocar um laço ao redor do pescoço do animal para capturá-lo”, disse a mulher de 60 anos. “Eu percebi que para capturar os cães para castração, nós precisávamos… ser amigos deles. Eu comecei a alimentá-los. Eu estudei psicologia e sociologia e uso esse conhecimento para falar com as pessoas que querem me impedir. Eu explico que o cão está com fome e pergunto, ‘Você vê alguma comida por perto? Ou água? Como ele consegue sobreviver?’”.

O trauma de testemunhar os métodos cruéis de abate da prefeitura fez com que a força de alimentadores entrasse em ação. “Quando era criança, eu os via encharcar um cão com água e depois eles o jogavam em uma placa eletrificada”, disse Jenny Lou Bhuwandiwalla. Ela começou 22 anos atrás com a alimentação de 10 animais, que depois se transformaram em 300, cobrindo Bandstand em Bandra e a área desde Mahim até Bandra-Worli Sea Link. Até agora, ela já conseguiu com que cerca de 3.000 cães fossem castrados e vacinados.

Ela realiza suas rondas três vezes por semana, durando cerca de quatro horas, onde ela espera para garantir que o cão terminou sua comida, verificar se ele quer mais e então pegar a tigela de aço inoxidável. Ela fica de olho naqueles que possam precisar de atenção médica por um acidente ou sarna, e procura aqueles que parecem estar perdidos.

Conhecer a lei ajuda imensamente. “A constituição indiana é a única no mundo que atribui direitos aos animais”, disse Bhiwandiwalla. “Eu lembro as pessoas de que o que estou fazendo não é contra a lei; na realidade, eles estão indo contra a lei ao tentar me impedir. Jogar lixo na rua é uma ofensa e nós verificamos se está tudo limpo após alimentar os animais”.

O artigo 21 da Constituição protege toda a forma de vida, incluindo a vida animal, e o artigo 51A impõe que todos os cidadãos indianos possuem a obrigação fundamental de ter compaixão por todas as criaturas vivas.

Ajuda da polícia

Uma observação universal da maioria dos alimentadores é que existe mais compaixão e empatia pelos animais entre os assalariados diáristas, moradores de favelas e empregados domésticos. “Os homens que tem uma tenda ou aqueles que lavam carros me dizem se um cão foi ferido, ou se desapareceu”, disse o Dr. Jyotsna Changriani, que alimenta oito cães e 90 gatos em Bandra. “As reclamações normalmente vem dos covardes que moram em prédios e que mandam uma empregada ou vigia me falar para eu não alimentar os cães”.

A força empática cresce além do sistema diário de alimentação. Kiran Shekhar fornece comida para dois alimentadores em Danda, perto de Bandra, e um cidadão idoso em Kalina. “Eles não querem dinheiro, então eu forneço comida. Na realidade, alguém da região de Danda me dá uma doação quando eles entregam um gato para castração”. Shekhar, com 58 anos de idade, dirige uma van cheia de comida e suprimentos médicos. Esta van é um ímã para os animais, e quando os apanhadores de cães de alguma ONG não consegue pegar um cão arisco, Shekhar leva-os em sua van, fazendo com que o cão apareça.

Trabalhar com outros alimentadores e treinar a equipe, como o motorista e a empregada, ajudam a manter a operação quando os principais alimentadores precisam se ausentar. “Em 22 anos, nós nunca tiramos férias juntos em família”, disse Mohana Dutt, que alimenta animais por 28 anos e recentemente se aposentou em Karjat, no distrito de Raigad em Maharashtra. “Eu tenho 64 anos e tenho problema nas minhas costas. Eu somente alimento os animais perto de casa agora”.

Conhecida como Doutora Aunty em sua área, Mohanna vai atrás de abusadores de animais. “Havia um cachorro muito amigável em nossa área, que foi estrangulado e jogado de um prédio em construção. O vigia tentou dizer que o cachorro tropeçou e caiu, mas os ferimentos não comprovam isso. As crianças da região me informaram, mas infelizmente eles enterraram o cão antes de conseguirmos tirar fotos”.

Deepak, um empresário que gasta cerca de R$ 3.500 por mês alimentando gatos e cães no subúrbio de Khar, adquiriu um cartão de Animal Welfare Feeder (Alimentador Animal) para ajudar nas questões policiais. “Eu acredito em mostrar o cartão por aí para que as pessoas e os policiais saibam seu valor”.

Não que a polícia não ajude. Entretanto, existem as disputas diárias. “Alguns anos atrás, algumas senhoras verbalmente abusaram e quase fisicamente me atacaram por alimentar os cães”, disse Deepak. “Nós tínhamos um policial amante de animais na área nesses dias, que levou as senhoras à delegacia para uma advertência”.

Kiran Shekhar foi agredido por uma razão muito estranha. “Algumas pessoas querem filhotes de cães e gatos somente para brincar com eles. Eles se esquecem desses animais quando eles ficam mais velhos. As senhoras seguraram meu mangalsutra (colar hindu de ouro) e disseram, ‘Você é casado, não? Você tem filhos. Por que eles não podem ter os deles?’”.

Deepak correu perigo na semana passada. Ele impediu um homem bêbado de bater em um cão que estava latindo para ele. O homem agrediu Deepak, deixando o gentil alimentador com ferimentos internos.

Fonte: Scroll

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